Era mais um dia corriqueiro, eu atrasada, trem cheio. Não sei por qual milagre, mas consegui sentar. Continuei minhas leituras, com aquela cara de sexta-feira de manhã, que espera, ansiosamente, pelo fim de semana.
Olhos no livro, ouvidos em toda parte. Quer abrir o ouvido a torto e à direita, escuta o que não quer. Dois rapazes entraram na estação Pirituba. Não consegui ver rosto, jeito, nada. A multidão embaçava a minha vista. Mas deu pra ouvir bem a história, que começava, mais ou menos, assim:
“Pô, meu! Moleque novo, 20 anos, quer pegar todo mundo, já troquei ideia com ele, não é assim. Não dá pra ficar solteiro, não, gasta mó dinheiro. Você sai com a mina pro “matadouro” (!) e já gasta uma grana. E eu ainda tenho que pagar as coisas do carro! Negócio é ter uma “matriz”, de vez em quando umas filial”!
Aí eu, ali sentadinha, fiquei me segurando pra não dizer umas boas. E fiquei refletindo como nós, mulheres, várias vezes, ficamos à mercê dos interesses dos caras.
Nesse caso, os dois rapazes, em nenhum momento, mencionaram estar com a companheira por amor, afeto, companheirismo, mas apenas por um simples desejo de manter as contas em dia, objetificando a mulher a partir da metáfora da “matriz” empresarial. Tempos tristes estes que o machismo e capitalismo andam de mãos dadas pelos vagões da vida.

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Linha 7-Rubi | Créditos: Jéssica Moreira


Jéssica Moreira é jornalista, co-fundadora do coletivo Nós, Mulheres da Periferia e moradora de Perus, zona noroeste de São Paulo.
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