Qual é o impacto da COP 28 – Dubai nas periferias e favelas?

Colunista comenta COP28: "não podemos continuar aceitando uma estrutura que fala sobre nós sem nossa presença. Em escala global, o Brasil é periferia"

18|12|2023

- Alterado em 17|05|2024

Por Amanda Costa

Fala minha lindeza climática, beleza?

Na primeira quinzena de dezembro, ocorreu a 28ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 28) em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Como ativista climática antirracista, participei das negociações como parte do Vozes Negras Pelo Clima, uma rede composta por 11 líderes que lidam diariamente com os desafios do racismo ambiental em seus territórios periféricos e quilombolas.

Se você não é negacionista, provavelmente concordará que a crise climática é uma realidade. Mas a pergunta que sempre ouço é: qual é o impacto nas comunidades mais vulneráveis?

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Diferentemente de algumas áreas centrais, nossas periferias e favelas não tiveram um planejamento urbano adequado, sendo formadas pela aglomeração de grupos marginalizados da sociedade, predominantemente pessoas negras e de baixa renda. Como diz Conceição Evaristo: “Eles combinaram de nos matar. Nós combinamos de não morrer.”

Pois é, minha cara leitora. Gradualmente, encontramos maneiras de sobreviver a essa realidade perversa, resistindo a um sistema que historicamente nos excluiu. O que nos permitiu resistir por tanto tempo foi o aquilombamento, o cuidado mútuo e a busca incessante por tecnologias sociais para enfrentar as opressões.

No entanto, à medida que os anos passaram, nossos desafios se tornaram mais complexos. Um dos grandes problemas de hoje, pouco discutido nas periferias, é a crise climática e o racismo ambiental.

Se você não está familiarizada com esses termos, quero simplificar: a crise climática caracteriza-se pelo aumento gradual da temperatura na Terra, intensificando eventos climáticos extremos. Já o racismo ambiental é o processo de discriminação racial e injustiças sociais que as populações de minorias étnicas enfrentam devido à degradação ambiental e às mudanças climáticas. Para facilitar o entendimento, pense em enchentes, alagamentos, inundações, deslizamentos, desmoronamentos, frio ou calor extremos que ocorrem cada vez mais frequentemente em nossos territórios.

Recentemente, fomos afetados por ondas de calor que percorreram todo o Brasil, mas foram sentidas com maior intensidade nos territórios mais vulneráveis. Em outubro, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) divulgou um estudo alarmante: setembro foi o mês mais quente dos últimos 20 anos!

Não quero ser pessimista, mas preciso informar: este não é o ano mais quente da história. Este será o ano mais fresco das próximas décadas.

gráfico

Setembro foi o mês mais quente dos últimos 20 anos

©INMET

Quem sofre mais são os territórios periféricos, que registraram as temperaturas mais elevadas. A falta de planejamento urbano, a escassez de vegetação e a densidade populacional contribuem para que a crise climática seja mais impactante nesses espaços.

Agora que discutimos de forma geral como a crise climática afeta as periferias, vou abordar outro ponto: por que é importante que ativistas de quebrada ocupem esse espaço.

É aquela parada: nada sobre nós, sem nós. Não podemos continuar aceitando uma estrutura que fala sobre nós sem nossa presença. Em escala global, o Brasil é periferia. Como internacionalista, parte do meu trabalho é analisar as dinâmicas internacionais e entender como seus efeitos atravessam nossa nação.

A real é que a COP é uma agenda política, e seus resultados precisam ser pensados em termos de soberania nacional. Com a saída do antigo presidente do poder, o Brasil abandonou uma posição negacionista e voltou como um importante ator no cenário global. Isso já pode ser visto nos espaços multilaterais: em 2024, o presidente Lula assumirá a presidência do G20, e em 2025, a cidade de Belém sediará a COP 30, mostrando a intenção do Brasil de se tornar uma liderança ambiental global.

Pensar em pessoas das periferias ocupando espaços de diálogo e tomada de decisão internacionais é pensar em uma reivindicação histórica: parem de nos silenciar, parem de nos excluir e parem de conceber o mundo sem nós!

pessoas seguram faixa na COP 28

Rede Vozes Negras Pelo Clima na COP 28

©arquivo pessoal

Agora que chegamos aos espaços de diálogo, queremos também os espaços de poder! A crise climática está impactando NOSSO território, e nada mais justo do que nos sentarmos à mesa de negociações e participarmos do processo de construção de um GGA – Global Goal on Adaptation (Objetivo Global de Adaptação).

Essa é uma agenda importantíssima para os países da América Latina e Africa, mas infelizmente, poucos avanços foram feitos nesta trilha de negociação. Desse modo, há grandes expectativas para que esse se torne uma tema-chave nos próximos dois anos, na jornada de Dubai até Belém, na COP 30 (2025). A questão principal é como vamos financiar ações de adaptação em escala e garantir que elas sejam inclusivas e eficazes, especialmente para as comunidades mais vulneráveis.

Para eles, é só mais um tema de negociação. Para nós, é uma questão de vida ou morte.

Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.

Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.