Gyanny Xavier teve seu primeiro contato com uma pessoa surda em 2009, quando trabalhava numa loja na Galeria do Rock, no centro de São Paulo (SP). Ela atendeu um homem surdo que comprou camisetas de bandas de rock. Gyanny não conseguia entender como ele podia gostar de música. 

Anos mais tarde, por curiosidade, procurou cursos de Libras (Língua Brasileira de Sinais) na internet. Na época, não conhecia essa língua, e pesquisou por “curso de pessoas que não falam”. Encontrou um curso gratuito e logo na primeira aula achou incrível a possibilidade de se comunicar por sinais. 

Depois de uma pós-graduação em Educação para Surdos, Gyanny teve vontade de ensinar Libras para quem, assim como ela, não conseguia pagar por cursos. Então, criou junto a dois amigos em 2020 o Libras na Quebrada,  projeto formado por surdos e ouvintes que promove oficinas de Libras em periferias de diferentes regiões da capital paulista. “Eu pensei: ‘a gente precisa de um projeto de Libras que chegue até as casas das pessoas’”, afirma. 

Utilizada na comunicação com pessoas surdas, a Libras é um conjunto de gestos e expressões faciais. É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no país desde 2002. Foi pensando em ensinar alunos surdos, por exemplo, que a professora e participante do BBB 22 Jessilaine Alves, aprendeu Libras. 

De acordo com o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), há mais de 10 milhões de cidadãos com deficiência auditiva no Brasil, sendo 2,7 milhões com surdez profunda. Os dias 23 e 24 de abril são datas marcantes para o tema, Dia Nacional da Educação para Surdos e Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais, respectivamente. 

Projeto Libras na Quebrada oferece oficinas nas periferias de SP

Conheça o projeto que oferece oficinas de Libras nas periferias de SP.

Crédito: arquivo pessoal

“Ninguém conseguia se comunicar com ele”

Em suas aulas no Libras na Quebrada, Gyanny faz uso de brincadeiras, dinâmicas e músicas. Além do uso da datilologia, um alfabeto manual. Temas como a comunidade LGBTQIA+ também estão presentes nas oficinas. 

O primeiro local a receber a oficina presencial foi a Casa de Cultura Vila Guilherme – Casarão, na zona norte da cidade. Foi lá que a auxiliar de farmácia Larissa Cordeiro conheceu a iniciativa e participou das aulas. A vontade de aprender libras veio de uma experiência no trabalho, em uma UBS (Unidade Básica de Saúde).

“Lá onde eu trabalho tinha um senhor que era surdo e a única pessoa que sabia falar com ele era a minha chefe. Teve um dia que ela estava de férias e ele foi lá. Foi um caos, ninguém conseguia se comunicar com ele, ninguém conseguia entender o que ele tava falando”, conta. 

Depois de seis meses participando das oficinas de Libras em 2021, Larissa se inscreveu novamente esse ano. Com os aprendizados, ela se orgulha de ter conseguido há algumas semanas orientar um paciente surdo. 

Cassandra Schuster é outra aluna do Libras na Quebrada, participa das oficinas online. Ela é surda oralizada, faz uso de aparelho auditivo e mora na cidade Pareci Novo, no Rio Grande do Sul. Apesar de já saber Libras desde os 11 anos de idade, gosta de participar do projeto. “Tem sido tão bom pra mim conhecer novas pessoas e sinais de libras”, conta. É também um ambiente para aprender sinais que variam de acordo com os estados e falar sobre “a comunidade surda e as barreiras que enfrentamos no dia a dia na comunicação”. 

Gyanny lembra da primeira vez que Cassandra participou das aulas. Ela não sabia que havia uma pessoa surda na turma, e por isso não solicitou a presença de um intérprete. Então, durante toda a oficina, falou e sinalizou em Libras, o que é chamado de bimodal. “Quando finalizei a aula, ela me mandou mensagem: ‘Gi, valeu por ter me incluído’. É uma história que até hoje mexe comigo”.

“A Libras quebra barreiras de comunicação”

Gyanny se orgulha da evolução dos alunos que, com conceitos básicos, os participantes conseguem se comunicar com pessoas surdas. 

Um aluno conseguiu se comunicar com um cliente surdo no restaurante em que trabalha. Alunos idosos chegam à oficina dizendo que não conseguem aprender Libras porque suas mãos “travam”, e no final das aulas apresentam domínio dos sinais. 

Há também relatos carregados de violência. Uma senhora que perdeu parte da audição já idosa teve receio de contar para o marido no início. Ele gritava com ela e a xingava por não ouvir bem o que dizia. Ela decidiu participar da oficina para o caso de perder totalmente a audição e também numa tentativa de conscientizar o marido, conforme relata Gyanny. 

Para ela, é preciso colocar a inclusão em prática no dia a dia. Adicionar legenda em vídeos postados em redes sociais, já faz a diferença. Acredita também que “a Libras quebra barreiras de comunicação”, sendo útil não apenas na comunicação com surdos. exemplifica: “Um professor de piano da escola em que trabalha quer incluir a língua em suas aulas, fazendo sinais das notas musicais para os alunos enquanto eles tocam, ao invés de falar”, exemplifica.


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