por Jéssica Moreira e Semayat Oliveira

“Discursaram que as mulheres são frágeis
Eu não tive tempo de exercitar fragilidades.
Orientaram que não frequentasse bares
Eu não pude negar as esquinas”
Trecho do poema ANTÍTESE, que faz parte do livro ‘Terra Fértil’, de Jenyffer Nascimento.
Em 2011 mulheres frequentadoras de saraus da zona sul criaram o Coletivo Rosas, que nasceu com o intuito de enfrentar e combater o machismo nos ambientes que circulavam. Em 2015, lançaram a revista impressa ‘Fala Guerreira’, distribuída gratuitamente e produzida de forma coletiva. Os próximos mil exemplares da 3ª edição serão financiados com a venda do livro ‘Terra Fértil’, da poeta e escritora Jenyffer Nascimento, que também é integrante do coletivo
Lançada em outubro de 2015, as mulheres estão envolvidas em todas as instâncias do processo: da criação do conteúdo à distribuição. “A gente se desdobra, amamos fazer isso! Estamos vivendo na pele o desafio de ser mulher periférica e lançar uma revista. O tempo é algo escasso e precioso para nós, ele tenta nos engolir e estamos sempre assim, uma levantando a outra para que ninguém desanime. A gente procura dividir as tarefas”, disse Jenyffer.


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Com o custo de 20 reais por livro, a arrecadação acontece até o dia 10 de março. “Terra Fértil” foi lançado em outubro de 2014 e tem, em média, 170 páginas de poesias. Jenyffer é pernambucana e mora no Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo. Teve contato com a poesia na adolescência, a partir do hip-hop, e participa dos saraus da periferia paulistana desde 2007.

Em entrevista ao coletivo Nós, mulheres da periferia, ela contou mais sobre como surgiu o coletivo, a ideia de criar uma revista e como tem sido a experiência. Leia na íntegra e saiba como colaborar.
O que fazer?
Compre um ou mais exemplares  do livro até o dia 10 de março e ajude a divulgar em sua rede social.
Com quem falar?
Entre em contato pelo e-mail falaguerreira@gmail.com ou pela página do Facebook.

Nós, mulheres da periferia: Por que e quando surgiu o Coletivo Rosas?
Jenyffer Nascimento: O Coletivo Rosas surgiu em 2011, depois de um episódio machista em um dos saraus da zona sul. Um cara, integrante de um grupo de Rap, militante, tentou assediar uma companheira e, quando ela deu um “chega pra lá”, ele foi pra cima dela. O “não” dado por ela foi lido como uma afronta à sua honra, como se ele não a tivesse importunando ou sendo agressivo. Esse episódio tirou do silêncio nossas dores e surgiu em nós um desejo de torná-la pública.

Nós, mulheres da periferia: Como se organizaram e quais foram as primeiras atuações?
Jenyffer Nascimento: Muitas frequentadoras dos saraus da zona sul começaram a se organizar em reuniões para pensar ações contra o machismo. Algumas intervenções foram realizadas, nelas estávamos sempre amordaçadas com uma faixa preta, simbolizando o quanto éramos silenciadas e que não íamos mais aceitar o silêncio. Foi assim que organizamos a “I Mostra das Rosas: feminismo em foco”, que foi realizada no Centro Cultural Monte Azul. Para este projeto fomos contempladas pelo VAI, Programa de Incentivo à Cultura nas periferia, da Secretaria de Cultura de São Paulo.
Nós, mulheres da periferia: E vocês sempre se consideraram feministas?
Jenyffer Nascimento: A criação do nosso coletivo se deu, principalmente, para pensar outra experiência de feminismo, que fosse mais popular. Para nós, foi difícil nos assumirmos feministas, parecia que precisávamos ler muitos livros teóricos para dizer “eu sou feminista”. Percebemos que o feminismo que a gente conhecia era muito intelectualizado, debatido por mulheres com outras vivências e pouco discutido entre nós, mulheres da periferia. Nossa maior inquietação era falar de feminismo com outras minas, torná-lo mais acessível e reconhecer a trajetória de diversas mulheres que travam suas batalhas diárias com o machismo nas periferias e permanecem invisibilizadas.
Nós, mulheres da periferia: Qual é a composição do coletivo hoje? São todas da mesma região?
Jenyffer Nascimento: O Coletivo Rosas teve uma formação inicial com 5 integrantes. Em 2013, novas integrantes somaram e hoje, já na composição Fala Guerreira, somos em aproximadamente 30 guerreiras. Boa parte das manas são da zona sul, Jardim Ângela, Grajaú, Jardim Ibirapuera, Capão Redondo e adjacências, mas temos também mulheres de outras partes da cidade, como do Jd. Brasil, Osasco. Gostamos muito da pluralidade do grupo. Somos mulheres muito diversas em relação à faixa-etária, orientação afetiva, visão política, experiências de trabalho, militância e temos o feminismo e a periferia como norte.

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Nós, mulheres da periferia: Como foi o nascimento da “Fala Guerreira”?
Jenyffer Nascimento: Em 2013, depois de termos feito “II Mostra das Rosas: feminismo em sala de aula” no CIEJA Campo Limpo, sentimos a necessidade de pulverizar mais o feminismo para adolescentes e mulheres adultas, mas daí pensamos – como fazer isso? A revista era uma possibilidade, por se tratar de um instrumento de comunicação mais acessível. Então, a revista veio no sentido de atender duas frentes: conversar sobre feminismo com outras minas e com nossas mães, tias, avós e dar visibilidade à nossa luta feminista da periferia.
Nós, mulheres da periferia: E a recepção do público, como foi?
Jenyffer Nascimento: Quando lançamos a revista, no Dia das Bruxas  (31) de 2015 (risos), vimos em cada olhar e em cada fala a importância de ter uma revista circulando as nossas ideias. A gente sentiu que realmente o processo de criação coletiva feminista é algo fortalecedor e que faz com que as minas tenham mais vontade de falar, de criar, de escrever. Nosso grupo pensa muito na cura feminina, somos diariamente violentadas e precisamos ter um momento para falar sobre isso e pensarmos juntas. A Revista une tudo isso.
Nós, mulheres da periferia: Sobre a criação e a produção da revista, como se dividem?
Jenyffer Nascimento: Boa parte do grupo se entusiasmou muito com o processo de diagramação da revista, é algo como “por a mão na massa”, dar cara, cor e tom. Outro ponto que tem caminhado é a vontade de escrever ou sugerir temas para as matérias. E por fim, tem o processo de ter a revista na mão e lança-la no diálogo com outras mulheres, como, por exemplo, nossas mães e nossas amigas “não feministas”.
Nós, mulheres da periferia: Quais são os principais desafios?
Jenyffer Nascimento: Temos vivido na pele o desafio de ser mulher periférica e lançar uma revista. Porque o tempo é algo escasso e precioso para nós, ele tenta nos engolir e estamos sempre assim, uma levantando a outra para que ninguém desanime. A gente procura distribuir as tarefas, mas a gente se desdobra. Amamos fazer isso porque o sentido que vemos e ouvimos de outras mulheres também existe em nós. Muitas vezes abrimos mão do “lazer” para pensar e produzir; viramos madrugadas no processo de edição e diagramação. Usamos todos os recursos possíveis para nos comunicar e fazer com que a proposta caminhe!