Quando penso no meu pai e na minha infância, me lembro que meu pai sempre trabalhou fora. Enquanto minha mãe cuidava da casa, de mim e da minha irmã. Durante muitos anos ele trabalhou como porteiro no período noturno. Primeiro em uma empresa de transportes, depois em um edifício residencial.  Entre dois empregos de décadas, ele enfrentou um período de desemprego trabalhando como feirante durante alguns anos.
Nordestino do estado de Alagoas, meu pai nasceu na roça, trabalhou desde menino, estudou até a quarta série do ensino primário. Veio para São Paulo com outros irmãos para trabalhar. Voltou para Alagoas, casou com a minha mãe. Depois os dois vieram morar na capital paulistana.
Três anos antes  do meu nascimento (sou a primeira filha), ele começou a trabalhar na CMTC, Companhia Municipal de Transportes Coletivos, empresa da qual ele saiu 14 anos depois, quando foi privatizada. Boa parte desses anos trabalhados no período noturno. Assim, enquanto a gente dormia, ele trabalhava, aí de manhã ele chegava em casa e ia dormir. Então minha mãe pedia para eu e minha irmã não fazer barulho, apagar as luzes para ele poder adormecer. Então ele estava em casa, mas interagia pouco, porque tinha que estar descansado para trabalhar.
Essa ausência lhe dava um ar de autoridade. A gente passava o dia com minha mãe em casa depois que voltávamos da escola e tudo que acontecia eu dizia que ia contar para o meu pai quando ele chegasse.
Lembro de ter ido uma vez na portaria de uma transportadora onde trabalhou. Lembro de suas camisas azuis de uniforme; das noites de folga em que ele dormia em casa e escorava numa cadeira na porta, com a intenção de deixar a porta mais segura.  Das orientações que ele dava antes de sair de casa para trabalhar.
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Lá pelos anos 2000 quando conseguimos colocar um telefone fixo em casa, ele ligava toda noite, perguntava se eu e minha irmã já tinhamos chegado, se tínhamos fechado todas as portas. O que ele não podia fazer pessoalmente, fazia pelo telefone porque cuidar das portas daquelas pessoas era o que alimentou a nossa família por muitos anos.
Como porteiro residencial ele lidava com muitas pessoas e era muito querido pelos moradores.  Nas festas recebia pratinhos, muitos deles, principalmente os doces, ele trazia para casa para dividir comigo e minha irmã. Sempre ganhava panetones no final do ano. Teve gente que mandou até cartão postal para ele.
A vida fez a gente dividir a convivência do nosso pai com outras pessoas.  Agora depois de décadas trabalhadas, ele está aposentado e integralmente em nosso lar.
* Um ano depois desse texto ter sido escrito, em agosto de 2016 me preparo para viver o primeiro dia dos pais sem meu pai, que morreu há um mês. Mais do que nunca quero acreditar que ele vai continuar a cuidar da família, mesmo de longe, agora olhando de cima. Que esse silêncio doloroso agora, possa se transformar em um silêncio de compreensão, um silêncio para ele descansar em paz, como aquele que a gente fazia em casa para ele poder descansar antes de ir trabalhar a noite…

Aline Kátia Melo e seu pai Luiz no dia de sua formatura na universidade.

Aline Kátia Melo e seu pai Luiz no dia de sua formatura na universidade.