Dia 19 de junho é celebrado é Dia do Refugiado e, em 25 de junho, o Brasil comemora o Dia Nacional do Imigrante. Em meio à pandemia, foram muitos os desafios da população imigrante no Brasil que, junto às saudades de casa e preocupação com a família no país de origem, ainda enfrenta dificuldades para acessar serviços e direitos.

Para entender esse cenário, entrevistamos a boliviana Jobana Moya, fundadora da Equipe de Base Warmis. “Para mim, essa palavra ilegal é uma forma também de desumanizar os imigrantes e refugiados, porque objetos podem ser legais ou não legais, não as pessoas. Em nenhum momento, se pode colocar que as pessoas são ilegais”, aponta.

Ouça o episódio: 

Desde o início da pandemia, as mulheres da Warmis e demais movimentos imigrantes estão com a campanha  #RegularizaçãoJá, que pode ser encontrada nas redes sociais da organização e pede a regularização de pessoas imigrantes no Brasil de maneira gratuita, imediata e permanente.

“Muitas vezes eu ouço falar que os imigrantes e refugiados trazem problemas para seus territórios. Na verdade, nós viabilizamos os problemas que já estão aí e que não estão resolvidos”, aponta a ativista.

De uma família de pai sindicalista e mãe socióloga que migrou para a Espanha para trabalhar como cuidadora, desde muito jovem Jobana é ligada à temática dos deslocamentos. Na Universidade, se aproximou do Movimento Humanista e da comunicação não-violenta, uma forma de luta que envolve diálogo e estratégias sem violência física.

Em 2007, casou-se com um brasileiro e veio morar no país. Mesmo ligada aos movimentos sociais, quando Jobana chegou ao Brasil, em 2007, não se adaptou. Um de seus primeiros desafios foi o idioma. Embora o Brasil tenha milhares de imigrantes e de vários lugares, a maioria dos serviços públicos, como saúde e educação, são oferecidos apenas em Português. Ser uma mulher de origem indígena, mais especificamente quechua, também fez ela sentir na pele a xenofobia e discriminação, principalmente quando se tornou mãe.

Geralmente, Jobana se autodeclara como indígena, já que é o único quesito que mais se aproxima de sua identidade. A Warmis fez um ofício pedindo  à Ouvidoria Geral da Defensoria Pública de SP a inclusão da opção “marrom” nos formulários, pois é como pessoas como Jobana desejam se autodeclarar, já que não se veem como pardas.

“Se você não sabe quem está no território, você não pode construir políticas públicas. Você não vai atender essa demanda. Esperamos que sim, que a ouvidoria atenda nosso pedido, porque precisamos pleitear, e em outros espaços dentro da prefeitura, que se inclua isso nos formulários. Porque isso vai permitir o índice de enfermidades mais comuns e nacionalidades. Vai dar muita informação para que esse atendimento seja melhor, não só pra nós, senão pra todos”.

Neste episódio, ouvimos ainda os relatos de outras mulheres imigrantes e refugiadas. Judith Siñanis é boliviana, técnica em enfermagem, e hoje tem uma loja de produtos naturais em São Paulo. Migrou para o Brasil no começo de 2002, em razão da crise econômica boliviana. Sem documentação, retornou ao país de origem, e voltou em 2007, quando os acordos bilaterais entre os dois países era uma realidade. Passados 14 anos, hoje é a presidente da Associação Cultural Folclórica Bolívia Brasil.

“A pandemia trouxe muitas dificuldades, tanto na parte emocional, psicológica e econômica. Emocional é mais quando o imigrante nem sempre está com toda a família, é a gente sente muito mais falta”.

Prudence Kalambay é da República Democrática do Congo e está no Brasil desde 2008. Aos 40 anos, é modelo, atriz, ativista de Direitos Humanos. Mãe de 5 filhos e uma neta, em meio à pandemia se tornou empreendedora, vendendo roupas e também conscientizando a população imigrante com vídeos em suas redes sociais.

“A maior dificuldade que eu enfrento como mulher imigrante no Brasil no meio dessa pandemia é o fato de ser mulher negra, africana, mãe solo de 5 filhos e uma neta, a dificuldade é maior. Eu vi que nesse período a dificuldade aumentou cada vez mais. Me lancei no empreendedorismo vendendo roupa, tênis, boné, pra poder acrescentar mais outra entrada”.

Nazareth Sojo é venezuelana e tem 39 anos. Chegou no Brasil em 2018, quando cruzou a pé a fronteira do país com o Venezuela, não por vontade de abandonar seu lugar, mas por medo da fome e pelo impulso de proteger sua família. Mestre em Gestão de Políticas Públicas e doutorado em Humanidades, trabalha como professora de Espanhol e tradutora. Com atuação remota, trabalho não faltou, mas as saudades da família e o isolamento bateram forte no emocional nesse mais de um ano de pandemia.

“Eu passei semanas dentro de casa trancada, sem sair nem pra pegar um solzinho, porque  eu num posso ficar doente, porque eu sustento meus pais lá na Venezuela e eu me sustento aqui sozinha. Existe essa dificuldade emocional”.

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