De fala mansa e cautelosa, utilizando apenas um gravador e a vontade de se expressar como recurso, Natália Sousa criou sua “mesa de bar na web”. Um modo de expor esses sentimentos de forma aberta e sincera.

Natália Sousa; Podcast; Cerveja

“A mesa de bar não é o lugar da palestra”, diz Natália Souza sobre a escolha da analogia para a ‘mesa de bar na web’.

Crédito: Amanda Fogaça

Natália é uma jornalista que vive em Campo Grande, zona sul da cidade de São Paulo, se encontrou na profissão a partir da paixão pela escrita, escuta e a fala. “Escrever para mim sempre foi revelador, uma coisa de nudez na praça pública”. Mas ao passo que sentia esse prazer, a insegurança a acompanhava. “Me lembro de escrever textos, publicar no Facebook,  não ter coragem de sustentar aquilo e cinco minutos depois apagar”.

Desde a infância costumava escrever despretensiosamente, cada texto era narrado para sua mãe. De seu pai, herdou a sensibilidade de contar histórias.

Apesar dos atravessamentos de classe e raça, lembra de ter tido uma infância feliz. ”Meus pais, para nos proteger da sensação de inferioridade, não sei se de modo consciente ou inconsciente, falavam que éramos muito especiais, e a gente cresceu com essa sensação”.

Após passar por dois lutos, o de sua mãe em 2014 e um ex-namorado em 2015, encontrou apenas na escrita uma forma de apaziguar esta dor, colocar na ponta da caneta sentimentos para além do que poderia ser dito. “Eu acho que é o meu melhor lugar. Me dá sentido”.

De um papo descontraído durante um churrasco, sem profundo conhecimento do que era  podcast, seu amigo, Valder Souza, hoje editor do programa, enxergou na percepção de mundo de Natália a chance de conversar com outras pessoas, externar sentimentos de modo individual e coletivo simultaneamente. Do incômodo em ouvir discursos do lado vencedor nasce o “Para dar nome às coisas“, forma de evidenciar que as vulnerabilidades também nos movem. “Ele veio de um lugar que eu sentia falta de ouvir”.

Sem planejamento estratégico, o primeiro episódio foi criado a partir do medo do fracasso, o próprio lugar de insegurança. Lembra de repetir “Se não der certo, pelo menos vou tirar isso da cabeça”. O receio persistiu mesmo após a estreia, o sentimento do que entregaria nos próximos episódios.

”Meu processo foi tipo aquele sapato que no começo está apertado, mas depois vai laceando e fica confortável”.

Natália conta que trabalha com coração. Transforma em roteiro o que acredita que deve ser externado de alguma forma. Nem sempre pensando no feedback do público para não perder a naturalidade do monólogo. “Acredito que a insistência nesse formato é a compreensão”. Não é à toa que o podcast ganhou tal dimensão. Duvidava que falar sobre medo e insegurança a levaria a estar no top 10 nas paradas de podcasts do Spotify Brasil.

A analogia com a mesa de bar vem da despreocupação e honestidade que o local representa. O falar sem as máscaras da perfeição impostas pela sociedade. “Na mesa de bar todo mundo está sentado na mesma altura e não é o lugar da palestra”.

“O que separa o fracasso do sucesso é a tentativa”.

 

 

 

 

Admite que falar sobre medo é humanizar os nossos sentimentos e quem somos. “Eu friso sempre que o ‘Para dar nome às coisas’ não é terapia, mas como compartilho meu processo a galera tem insights. Ainda assim, me sinto muito abençoada ao saber que para algumas pessoas causa esse efeito”.

A escolha do nome vem, literalmente, da ideia de nomear os temores. Daquilo que te faz pensar duas vezes, o frio na barriga, a dúvida em expressar e expor as feridas. Narrados em primeira pessoa, os episódios destacam suas vivências e histórias de quem a inspira. Nomes e algumas características são alterados para dificultar identificação e evitar constrangimentos.

Ela busca ser cuidadosa e abordar com responsabilidade o que fala devido a delicadeza dos assuntos que podem gerar gatilhos no ouvinte. “Nunca quero que soe como uma palestra de motivação barata. Por isso sempre faço o convite à reflexão”. Apesar da profundidade dos tópicos, o retorno do público é de carinho, afeto e identificação. ”Nós, enquanto gente, temos um interesse genuíno em conectar com outro ser humano”.

Por outro lado, os comentários que mais a intrigam são de espanto ao perceberem que Natália é uma pessoa negra. “Algumas pessoas quando me escutavam achavam que eu era uma pessoa branca”. Ao questionar as razões do porquê pensavam desse modo, as respostas eram justificadas pelo “tom doce” de sua voz. Este se tornou mais um motivador para Natália perpetuar o programa. Falar sobre dificuldades emocionais, relembrar de feridas que a moldam. “Este lugar, dentro de quem ouve, é um modo de microrrevolução”

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