A dificuldade que mulheres negras enfrentam para ingressar em cargos de liderança foi tema de debate nesta sexta-feira (10), último dia do Afro Presença, atividade que discutiu inclusão da população negra no mercado de trabalho.

O painel contou a mediação da jornalista Cris Gutierrez e com análises das convidadas Jaqueline Gomes de Jesus, professora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e doutora em Psicologia Social do Trabalho; Elizabete Leite Scheibmayr, que atua com consultorias para tornar empresas mais inclusivas e Anna Lyvia Ribeiro, conselheira seccional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo.

Os entraves para garantir igualdade de oportunidades no mercado de trabalho entre homens e mulheres foram abordados por Cris. A jornalista apresentou dados de uma queda de representatividade da força de trabalho feminina no mercado de trabalho no período da pandemia. Ao comparar o terceiro trimestre de 2020 com o mesmo período de 2019, a queda na parcela de mulheres que estavam no mercado de trabalho foi de 53,3% para 45,8%, segundo os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O nível mais baixo desde 1990.

A mesma disparidade ocorre quando feita a comparação entre mulheres brancas e negras, de acordo com  Elizabeth. “A mulher negra é a que mais estuda em comparação com as mulheres brancas, no entanto, ela tem uma dificuldade maior de se colocar”, avaliou.

Segundo a consultora, apenas 4, 4% de mulheres estão em cargos de CEO nas empresas. No Brasil, esse número chega a 0,8%. “Meu trabalho é mudar isso, para que mulheres negras ocupem esses espaços”, disse.

As reflexões feitas pelas painelistas apontaram que as mulheres negras que alcançam esses cargos de gestão ou diretoria são raridades em um país racista, que ainda destina a população negra funções consideradas operacionais ou ao desemprego.

“No processo de pandemia, muitas mulheres negras perderam seus empregos. Para mulheres brancas poderem trabalhar em home office, mulheres negras tiveram que se deslocar de suas casas, para cuidar de filhos e casas dessas pessoas e se expuseram à pandemia. Não à toa, a primeira morte pelo vírus no Brasil foi de uma babá negra”, refletiu Elizabeth.

Mesma avaliação feita pela advogada Anna quando feita o recorte de gênero e raça. “A pandemia nos afeta de uma forma bem diferente, no caso das mulheres negras o impacto foi grande, seja pelo desemprego seja pelo aumento da violência doméstica. As mulheres negras são colocadas no contexto de prestação de serviço, trabalho doméstico remunerado”, pontua.

Jaqueline também refletiu sobre os impactos e dificuldades de acesso da população LGBTQI+. Para ela, as barreiras ainda são mais desafiadoras para pessoas LGBTfobiatrans que ainda sofrem com a LGBTfobia no mercado de trabalho.

Diante de todas essas dificuldades apontadas, as painelistas reconheceram que os desafios impostos pela pandemia agravaram o quadro de inclusão de mulheres negras nesses espaços. Neste sentido, concluíram que o caminho de inserção da população negra é reconhecer essas desigualdades nas empresas. Com isso, aplicar políticas de recrutamento interno mais inclusivas.

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