“Eu fui trabalhar aos nove anos numa casa e não conhecia eletricidade. E aí, a senhora pra quem eu trabalhava mandou que eu acendesse a lâmpada. Então eu perguntei a ela pelo fósforo e a resposta foi ‘você é uma burra, sua imbecil’. Me pegou pelo braço, me levou junto do interruptor e ficou acendendo e apagando. ‘Tá vendo aqui onde é que acende?! Então, nessa casa, eu passei só seis meses, né? Minha mãe quando soube me tirou de lá”.

Este é o relato da primeira experiência de trabalho – aos nove anos de idade – de Luiza Batista. Hoje, aos 65 anos, ela preside a Federação das Trabalhadoras Domésticas e luta para que essas profissionais tenham seus direitos garantidos. 

Nascida no interior de Pernambuco, vivia na área rural com a família, até a morte de seu pai, em 1961. Foi quando todos passaram a procurar por trabalhos na cidade para garantir a sobrevivência. A mãe, que vendia alimentos em feiras e comércios e também atuava como empregada doméstica, encaminhou a filha Luiza para o mesmo caminho. 

Esta é uma trajetória comum entre meninas negras e pobres em todo o país e que, infelizmente, ainda é muito recorrente. Aconteceu com minha mãe, em Minas Gerais, com Luiza, em Pernambuco e tantos outros territórios. Meninas, crianças, são levadas para casas-grandes, para fazerem os serviços do lar. 

Da segunda casa em que Luiza trabalhou, com 12 anos, ela guarda boas lembranças. “Hoje não seria mais permitido porque a OIT (Organização Internacional do Trabalho) não permite. O trabalho doméstico infantil foi considerado um dos piores, e é mesmo. Eu fui trabalhar na casa dessa senhora, uma pessoa muito humana, ela me botou pra estudar, só que quatro meses depois essa senhora faleceu, então não tinha mais como ficar na casa dela. Aí voltei pra casa onde minha mãe trabalhava”.

Entre uma casa e outra, Luiza foi crescendo, construindo sua vida e sua família de forma independente. É mãe de três filhos, sendo os dois primeiros criados sem apoio paterno e a terceira faleceu ainda bebê. 

“Eu nunca fui uma mulher de ficar rastejando atrás. O último [homem] com quem eu morei, vinte e um anos, não tive filhos. Ele era muito mulherengo. Ele era porteiro e eu trabalhava numa residência lá. Trabalhei nessa casa por vinte e seis anos e foi onde eu me aposentei”. 

Luiza Batista conquistou a aposentadoria por ter batalhado para que este último emprego fosse com carteira assinada. Ela teve câncer de mama e garantiu sua aposentadoria por invalidez. Foi depois disso que ela começou a se envolver com a luta sindical. 

“Eu não aguentava mais fazer os serviços que eu fazia antes, porque a gente fica com o esvaziamento axilar, a gente fica com os braços enfraquecidos. Também corre risco de desenvolver linfedema, os braços ficam super inchados, se tiver algum corte, uma queimadura, pegar peso, tudo isso eu evito, porque posso ficar com esse problema que é irreversível”, explica.

“Então fiquei aposentada por invalidez, passei uns oito anos em casa, veio a separação, e aí uma amiga minha chamada Edicleia me convidou pra estudar através do TDC – Trabalho Doméstico Cidadão. Em 2006, teve o 9° Congresso Nacional das Trabalhadoras Domésticas em Salvador. Eu, como tinha me filiado ao sindicato, fui como delegada de base mais oito companheiras, entre direção e trabalhadoras que estavam na ativa. Eu gostei muito, né?”. Desde então, Luiza, com mais de 50 anos, se formou no Ensino Fundamental, e se engajou no movimento.

“Quando a trabalhadora doméstica procura o sindicato, o nosso trabalho é orientar na questão do direito e se ela relata pra gente tratamento desrespeitoso, aí a gente também vai organizar, orientar de que aquilo é errado, que ela não deve aceitar ser tratada dessa forma. Então, esse espaço dos sindicatos, da federação, não significa apenas garantir que o direito seja respeitado. Porque com o direito também vem o respeito ao ser humano”, acredita. 

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil é o país com mais empregadas domésticas no mundo, sendo que apenas 28% têm carteira assinada e direitos efetivos. 

“O patrão não pode achar que só ele tem que ser respeitado porque paga o salário” 

Ele tem que entender que ele paga um salário pra uma pessoa limpar a casa dele, preparar as refeições dele, mas que aquela pessoa também deve ser tratada com respeito. Não é porque a pessoa é pobre, é negra, mora numa comunidade periférica, é semi alfabetizada ou nem se quer alfabetizada, que ela tem que ser tratada dessa forma desrespeitosa”.

Para a sindicalista, o trabalho doméstico, sobretudo o não remunerado, explicita o machismo arraigado em nossa sociedade. “A economia do cuidado tem muito a ver com o machismo, com o que a sociedade vem perpetuando ao longo de séculos, onde o papel da mulher é sempre manter a casa limpa, organizada, os filhos tomado banho, os filhos na escola, os filhos com o dever feito e principalmente gerenciar, administrar tudo que é colocar dentro de casa, principalmente se ela não tem uma atividade remunerada, se o trabalho dela é só o trabalho da casa, né?”.

“Não podemos dizer que uma dona de casa não trabalha, isso é monstruoso. A dona de casa trabalha e muito porque tarefa doméstica não tem fim.

Você lava a louça do café da manhã, aí você já tá preparando o almoço, limpando casa, tudinho, quando é depois do almoço, a pia já está de novo cheia de louça suja, que você vai lavar vai preparar alguma coisa pra de noite e assim sucessivamente, quando ela vem descansar mesmo, as crianças já estão dormindo, né? Muitas vezes o marido também já está dormindo e ela ainda está olhando, agilizando alguma tarefa pro dia seguinte”.

Além da desigualdade de gênero, a questão racial é estruturante no trabalho doméstico. Segundo dados de 2018 do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas), dos cerca de 6,2 milhões de trabalhadores do setor, 5,7 são mulheres, sendo 68% de mulheres negras. 

“O trabalho doméstico vem daquela época, das mulheres negras que eram mucamas, que faziam o trabalho dentro das casas grandes, e que estavam ali à disposição pra fazer tudo, inclusive favores sexuais aos senhores, a iniciação sexual do sinhozinho. Era uma violência tremenda. O trabalho doméstico tem tudo a ver com o resquício da escravidão, com esse racismo que no Brasil as pessoas costumam que não existe. Como não existe? Você já entrou num banco? Quantas negras trabalham num banco? Quantas vendedoras negras você vê no shopping? Quando você vê uma mulher negra no shopping, geralmente ela tá naquele serviço que é o menor da base da classe trabalhadora, ela tá fazendo serviços gerais, ou seja, ela está na limpeza”.

“É muito raro você ver uma aeromoça negra, ver uma pessoa que trabalha nos balcões das companhias aéreas negra, uma vendedora negra. É muito raro, agora não tanto, né? Mas protagonistas negras em novelas, com a mesma quantidade de protagonistas brancas, pele clara, olhos verdes, olhos azuis, cabelos loiros, você não vê. São poucas as atrizes que se destacam ao ponto de ser protagonista de uma novela, de um filme e aí você pergunta, como não existe racismo no Brasil? Se não existe, por que as mulheres negras não estão ocupando esses espaços?”

“Para nós que temos poucas possibilidades, o trabalho doméstico, muitas vezes, para as meninas de periferia é como se fosse a continuação de uma coisa que se naturalizou, né? A menina de dez, doze anos, já fica com os irmãozinhos menores, porque não tem pra aquela criança o direito. Então, já não tem creche. E aí, aquela menina já tem dificuldade também nas escolas públicas que deveria ser período integral para toda criança e adolescente. Aquela menina também já fica à mercê de estar numa comunidade aprendendo tudo de forma errada. E aí, quando pensa que não, aquela adolescente já está grávida, é a continuação dessa situação de miserabilidade”. 

Para Luiza, a solução está na educação, tanto para que mulheres negras e periféricas possam ter outras oportunidades e possibilidades de vida, como também para que todos aprendam e se responsabilizem pelos serviços domésticos. 

“Muitas vezes a trabalhadora tá ali, atarefada, correndo um monte de coisa pra fazer, tem que parar tudo pra levar um copo com água para aquela criança, para aquela patroa que acha que que tem que ser servida na mão”

Então, com essa cultura, com essa falta de políticas públicas, com esse racismo, sabe? Que, veladamente, as pessoas dizem que não existe, eu acho que daqui uns cem anos, a gente ainda não tem a sonhada igualdade. E aí a gente tem um desgoverno que faz questão de aprofundar essas desigualdades. O trabalho doméstico, infelizmente, passa por tudo isso”.

“Enquanto as pessoas não entenderem que educação não se conquista, não se consegue, não se recebe apenas nas escolas e nas faculdades, mas que a principal e primeira educação é aquela educação doméstica, isso não muda (…). 

O machismo, infelizmente, faz com que nós, mulheres, trabalhadoras domésticas, ou dona de casa, sejamos cobradas o tempo inteiro e a economia do cuidado sempre recai sobre nós, mulheres. Coisa arraigada, essa cultura escravocrata, machista que não sei se eu vou viver pra ver uma sociedade igualitária como a gente tanto luta, como a gente tanto prega, né? Como a gente sonha”.

Apesar das dificuldades, os sonhos são ainda o que motiva seu engajamento na luta sindical em defesa das trabalhadoras domésticas, e para um futuro melhor para seus filhos e netos. 

Trabalho doméstico

Luiza é mãe de três filhos, sendo os dois primeiros criados sem apoio paterno e a terceira faleceu ainda bebê.

Crédito: Fenatrad

“Meu sonho é ver meus netos bem encaminhados. E falando de uma forma coletiva, o meu sonho pro futuro é a gente ver os direitos trabalhistas serem resgatados, as trabalhadoras domésticas serem respeitadas e valorizadas, ter políticas públicas que possam garantir dignidade. Que esse racismo estruturante dentro mesmo do próprio governo seja combatido. Sonhar não custa nada e sonho que a gente sonha com outras milhares e milhões de pessoas nesse país, eu acredito que é um sonho que um dia ele pode se tornar realidade”. 


Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.