Foto: Renata Fleischman Portal de Jornalismo ESPM Flickr

Mulher trabalha no caixa/ Foto: Renata Fleischman Portal de Jornalismo ESPM Flickr


No atual momento eu tenho duas formações acadêmicas sou secretária executiva e jornalista e estou fora do mercado formal de trabalho há mais de dois anos. Tempo que eu tenho usado para pensar na vida, nas situações, e hoje me lembrei da minha primeira experiência profissional.
Meu primeiro emprego foi como operadora de caixa em um comércio de produtos alimentícios. Eu não tinha nenhuma experiência, mas para a proprietária minha falta de experiência era a oportunidade de me ensinar a trabalhar sem alguns vícios que pessoas que já trabalhavam traziam. Faltava um mês para eu completar 17 anos. Até então minha vida era só estudar.
Antes de ter o meu próprio dinheiro, meus pais me davam o suficiente para comprar lanche na escola, tirar cópias de livros, comprar materiais, e dinheiro para pagar a condução, pois estudava num bairro diferente do que morava. E quando eu queria comprar algo diferente, por exemplo, alguma revista de adolescente, eu economizava no lanche, ou voltava a pé da escola, comprava apenas um pirulito e usava como combustível quando chegava na subida. Lembro de uma época que a passagem custava R$ 1,15, assim eu guardava um real e usava os quinze centavos para comprar o pirulito vermelho em formato de coração. E mesmo com essa dose de glicose nas caminhadas eu era tão magrinha, me exercitava, a necessidade me fazia tão determinada…
Hoje olhando para trás eu vejo o quanto aprendi. O quanto desenvolvi diferentes habilidades. A rotina me fazia reconhecer pessoas só de ouvir a voz delas se aproximando. Aprendi jargões como “o cliente sempre tem razão”, mas a experiência diária me mostrou que nem sempre isso é verdade.
Com o trabalho comecei a aprender a lidar com o tempo, com pessoas, e aprendi a ter mais responsabilidades. Tinha horário para chegar, horário para sair. Comecei a lidar com colegas de trabalho e a clientela. Todo dia tinha um determinado valor separado para dar troco, e era pedido que a gente pedisse moedas para os clientes. Assim dependendo do valor da conta eu ia pedindo moedas para facilitar o troco. Lidava com dinheiro e tinha que pagar do meu salário se o caixa não batesse no final do dia. Aprendi que tem gente que gosta de ajudar, gente que a gente marca o rosto porque sempre quer ter vantagem, gente que sai de casa para dar golpes com nota falsa ou mentindo que pagou com valor maior, gente que simpatiza com a gente de graça, gente que é capaz de brigar feio por causa de uma moeda que nem circula no mercado, a infame moeda de um centavo.
O primeiro salário parecia mágica! Dá para comprar várias coisas com ele, porque até então eu não comprava muitas coisas. Lembro que os primeiros itens que comprei com o suor do meu rosto no ano 2000 foram: uma blusa de moleton, um par de tênis e uma câmera fotográfica analógica, mas que usava pilha para o flash e para rebobinar o filme automaticamente, sem ter que girar o filme dentro da câmera. Foi com meu emprego que comprei meu primeiro aparelho de celular aos vinte anos. Hoje as pessoas compram celulares e presenteiam filhos com menos de dez anos de idade.
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Aline Kátia Melo é jornalista, integrante do Nós, Mulheres da Periferia, correspondente do Blog Mural e mora na Jova Rural, zona norte de São Paulo.