Marcela Bonfim

É economista e vive em Rondônia. Adquiriu uma câmera fotográfica e no lugar das ideias deu espaço a imagens de uma Amazônia afastada das mentes do lado de fora. Escreve sobre imaginários, imagem, negritude.


Hoje, percebemos que, dentro dos grupos de
poder visíveis e invisíveis, a imagem tem papel crucial. Interessa a imagem e tudo do que dela é composto, até chegar no sentido de uma criação. Entretanto, a questão tem sido pensar nesses sentidos não como verbo, mas sim como formas políticas, econômicas e permanentes de um sistema, onde a imagem se constitui a partir dos próprios limites da racialização humana. 

Sendo a raça a própria distinção de poder, é sobretudo o plano mais concreto de um capital abstrato, por onde se pensa que “vê” a imagem da cor da riqueza e a imagem da cor da pobreza, automatica-mente. Sem ao menos enxergar o que existe por detrás dessas confabulações De-Cor, que se ampliam e difundem dentro de um sistema oculto, onde a inteligência da visualidade se compõem na artificialidade de normas e linguagens, em camadas específicas, convalidando o padrão.

No entanto, pensar a questão racial de um sistema tão sofisticado, como o capital, é desdobrar a aparência dos corpos e lugares, percebendo que toda a ilusória condição de visualidade também convive na ideia de meio ambiente. Justamente aí, por onde caminham os estigmas, e seus corpos-alvos, todos existentes do lado de dentro das invisibilidades e de um racismo ambiental.

Pensar ambiente é pensar a Amazônia, onde homens e mulheres têm desaparecido em meio ao meio ambiente. Comecemos com a própria noção que cultivamos de Amazônia, na maioria das vezes do lado de fora, nos fazendo mecanica-mente reduzir culturas, por exemplo, à simples ideia de reserva, ou de verde.

É como se o que existe do lado de dentro só se apresentasse de uma cor, ou pensar a região como um pulmão, excluindo o som das batidas de milhares de corações e raízes presentes. Ou seja, o imaginário passa longe das origens e legados indígenas, dos fluxos negros, juntados à cultura e à ancestralidade pertencentes às regiões. Estas, pobremente pensadas. Restando-nos questionar: quem são esses povos-identidades, em meio ao meio ambiente? Podemos pensar em um futuro digno para este país sem reconhecê-los? 

Ainda assim, a ideia de meio ambiente vem apagando, todos os dias, milhares de histórias e realidades. Legados compostos de uma verdadeira relação com a floresta, completamente inversa à noção construída do lado de fora, como a própria ideia de desenvolvimento que já apagou, e ainda apaga diariamente, frutos de antigas gerações em troca de privilégios. E nós ainda reproduzimos e ainda não percebemos esses apagamentos. Como invertermos este movimento?

Edição: “Norte por Norte”: composição visual realizada por artistas residentes nos estados da região norte. Galeria Pará – Compositora Nay Jinknss. Ao centro a fotografia coletiva de Cayo Aguiar, Tays Chaves e Damião Marcos

Crédito: Saulo de Sousa

 

Meu meio é o meio ambiente

Buscar formas potentes de se pensar o meio ambiente é pauta da 5ª edição do “Festival Fotografia em Tempo e Afeto”, nascido em Rondônia, com o desejo de expandir a sensação de pertencimento visual da região. Desde 2017 ocupando as ruas de Porto Velho e de comunidades próximas, com composições visuais provocadas de dentro para fora, a proposta busca estabelecer as possíveis relações da visualidade com o tempo, espaço e a política local.

Praticar o exercício comunitário da composição, prezando pelo sentido do acesso e da inclusão, tem sido a aposta e também a certeza do Festival. Bem como expandir a consciência visual do que existe e resiste nas tantas regiões amazônicas, além da busca por desmistificar os códigos que interferem em nossa visualidade, como também das diversas e múltiplas Amazônias, que se constituem apenas de habitar o seu meio. 

A missão do Festival tem sido pensar a fotografia como PODER, ECONOMIA, POLÍTICA e MEIO de reconstruir, tanto as nossas humanidades, quanto a própria compreensão de humanidade que significa a nossa visualidade. Ou seja: uma das premissas do festival se baseia na prática de reconstruir em comunidade, a prática afetiva, ao nos deslocarmos ao lugar da afetividade presente nas relações e reflexões, presentes no contexto mais próximo possível. 

Assim, pensemos e tomemos a imagem como uma escuta de cada um, de cada lugar, destoando das formas tradicionais na fotografia; porque temos a consciência dos males que as invisibilidades significam das desigualdades e das castas, por onde residem os ESTIGMAS e regimes de visibilidade. 

Ou seja, ao pensar no mote de composição que se faz proposta este ano, “meu meio, é o meio ambiente”, faremos de cada imagem um sentido ativo de meio ambiente, a fim de nos reconectar ao todo, difundindo pensamentos visuais (e não visuais). Nesse movimento coletivo, as composições são vivas, capazes de desconstruir o que não cabe e nunca coube e construir outras perspectivas. 

Para saber mais, acesse a plataforma do Festival e a prática da composição:https://www.fotografiaemtempoeafeto.com/

*Por Marcela Bonfim
Revisão de texto: Lia Krucken

Racismo Ambiental

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