“Ela só me pedia desculpas e se sentia muito culpada pelo que tinha acontecido com ela”. Esta é a fala da mãe de uma adolescente de 12 anos que foi estuprada por três jovens dentro do banheiro da Escola Estadual Leonor Quadros, localizada no Jardim Miriam, bairro da zona Sul de São Paulo, no último dia 12 de maio.
Segundo o relato da mãe, após o ato de agressão, a unidade de ensino não chamou a polícia e encaminhou a estudante para o Hospital Municipal mais próximo. De lá, a jovem foi encaminhada para o Hospital Pérola Byington, especializado no atendimento às vítimas de violência sexual, onde a mãe foi orientada a registrar um boletim de ocorrência na polícia.
Vítima da convergência de violências do estupro (físico e psicológico), meninas e mulheres ainda precisam lidar com o despreparo das pessoas frente a um caso como esse, a automática minimização dos crimes praticados contra as mulheres, a falta de orientação legal imediata e com os olhares de acusação. Além disso, há também a violência do sentimento de culpa, colocando-se como responsável de seu próprio sofrimento e da dor de seus familiares.
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Em março de 2014 o IPEA divulgou um estudo de dados realizado com base em registros do Ministério da Saúde, intitulado Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde. As conclusões indicam que 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil. Do total, 89% das vítimas são mulheres, a maioria possui baixa escolaridade, e 70% são crianças e adolescentes. Apenas 10% dos casos chegam à polícia.
O ambiente escolar precisa, urgentemente, atuar como um transformador social e contribuir para a desconstrução de uma educação que faz com que meninos/homens perpetuem um ciclo de violência. O currículo escolar precisa discutir a cultura machista, as questões de gênero e seus variados contextos e intersecções. Meninas precisam se apoderar de seus direitos, corpos e histórias. Meninos precisam rever a noção de privilégios e liberdade construída historicamente na sociedade. Caso essa transformação não aconteça, continuaremos lamentando por mais vítimas do machismo.
A cultura machista com que meninos e meninas crescem no Brasil mata mulheres todos os dias! A ideia de que o corpo da mulher está acessível a qualquer momento para os homens violenta mulheres todos os dias! O conceito de “tornar-se” homem com o sexo como carro chefe nessa “transformação” extermina mulheres – e perturba meninos -todos os dias. O absurdo de coibirmos que a mulher se aproprie de seu próprio corpo torna mais mulheres suscetíveis a agressões todos os dias.
A discussão é fundamental e precisa atingir meninos e meninas. O machismo tem a mulher como a vítima mais dilacerada e a reprodução natural desse falso “poder masculino” caracteriza uma doença social crônica. Nós acreditamos na nossa juventude e na relevância da formação escolar nesse processo.