O conto do vigário: estratégia antiga de sinhá e sinhô
Este texto faz parte do especial: trabalho doméstico (mal) remunerado: da casa grande aos apartamentos “Você é como se fosse da família!”. Para suprir essa falta de benefícios, as sinhás atuais continuam usando uma técnica antiga. Se tem roupa que não serve mais, vira presente. O eletrodoméstico que não gostou, vira também. O sapato que apertou, “pode […]
Por Redação
08|03|2015
Alterado em 08|03|2015
Este texto faz parte do especial: trabalho doméstico (mal) remunerado: da casa grande aos apartamentos
“Você é como se fosse da família!”. Para suprir essa falta de benefícios, as sinhás atuais continuam usando uma técnica antiga. Se tem roupa que não serve mais, vira presente. O eletrodoméstico que não gostou, vira também. O sapato que apertou, “pode pegar, se não der no seu pé, no de alguma filha ou vizinha dá.” E serve mesmo. E é comum quem ganha levar para a casa. Deixar por quê? Ruim é o sentimento ingênuo de gratidão que fica no subconsciente, que depois, em muitos casos, esfregam na cara e vira moeda de troca.
Às vezes até pode levar uns itens da dispensa. De vez em quando, até a compra do mês todinha é dada. “Eu faço a compra dela! E quando ela faz um pudim, até a deixo fazer um para a família dela também!”. Pois é, o ruim mesmo é o sentimento ingênuo de gratidão que cobram, que vira obrigação. Que inibe a busca pelos direitos, da justiça, da possibilidade de construir, em sua própria casa, o conforto que só tem na casa da patroa. São os entraves da emancipação da mulher pobre, periférica e negra do nosso país.
Os anúncios ainda pedem, “empregada com folga de 15 em 15 dias”, “com disponibilidade para dormir no emprego”. E, nesse caso, seja discreta e flexível. Ah, não podemos esquecer: pode ser que seja preciso viajar a trabalho. O engraçado é que acham que essa possibilidade de viajar, conhecer restaurantes caríssimos ou ter a experiência de experimentar o avião é visto como se fosse um benefício, um favor. “Você viaja de classe econômica, tá? Leva o Arthur. Se precisar, vem na primeira classe me procurar.”
É… No Brasil está cheio de gente que enche a boca pra dizer “minha empregada!”, mesmo sem ter caráter e/ou condições de cumprir com o mínimo dos benefícios previstos em lei, benefícios que eles mesmos exigem nas empresas que trabalham, em que são chamados de “colaboradores”. Mesmo assim, enchem a boca para dizer “minha empregada”.
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