Lívia Lima

Lívia Lima é jornalista e produtora cultural, graduada em Jornalismo (Mackenzie) e em Letras (USP), e é mestre em Estudos Culturais também pela Universidade de São Paulo. É cofundadora do Nós, mulheres da periferia.

Desde pequena eu aprendi a gostar muito de ser brasileira. Na escola, a gente cantava o hino nacional todos os dias. Era na época da Copa do Mundo, porém, que o orgulho aumentava. O bairro todo se animava, se organizava e fazia vaquinha para comprar tinta para pintar as calçadas e as ruas de verde e amarelo. Nós, as crianças, pendurávamos as bandeirinhas. Ser brasileiro era bom demais! Nós parecíamos um povo diferenciado e realmente especial!

Apesar de conviver cotidianamente com o racismo na família e, principalmente, na escola, eu não entendia que aquilo me afetava, já que nem como negra eu era tratada (esse é assunto para outro texto). A ideia que a gente tinha, no senso comum, era que vivíamos em uma harmonia racial de fato. O que eu não sabia naquela época é que essa sensação de paz e amor foi construída como um projeto ideológico. Um projeto de silenciamento.

Conforme fui crescendo e me conscientizando sobre nossa história de escravização de pessoas vindas de África, as falsas abolição e reparação às vítimas dessa política econômica e social, e os resquícios que seguem cerceando gerações, entendi que o Brasil nunca foi cordial com a população negras.

É muito difícil ser uma pessoa negra e seguir a vida tendo consciência de que a cada 23 minutos um jovem negro é morto de forma violenta, geralmente praticada por agentes do Estado.

O poeta e escritor estadunidense James Baldwin dizia que “ser negro e relativamente consciente é estar quase sempre com raiva” e essa é uma frase que me veio fortemente na cabeça ao longo da semana passada, após os cruéis assassinatos do congolês Moïse Kabagambe e do carioca Durval Teófilo no Rio de Janeiro.

É muito triste como o genocídio fere e mata nossos parentes vindos de África e nós mesmos, brasileiros desta terra que parece sempre estar nos expulsando.

Esses acontecimentos fazem parecer que o “país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza” que Jorge Ben Jor canta não é nosso por direito. Esse Brasil esquece, porém, que o melhor do que temos por aqui é herança e legado dos povos originários e dos nossos ancestrais africanos. O próprio Jorge está aí para provar. Sem nós, não haveria Tropicália para nomear quiosques à beira mar.

Se esses dias são de desesperança, é também no melhor de nossa poesia e cultura que devemos nos apegar. E continuar erguendo a voz. “Eu quero ver quando Zumbi chegar, o que vai acontecer”, o genial Ben Jor também avisou. Wilson das Neves completa: “o dia que o morro descer e não for carnaval (…) ninguém sabe a força desse pessoal”.


Publicada originalmente no portal Expresso Na Perifa – Estadão

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