Esta  entrevista integra uma reportagem especial do Nós, mulheres da periferia em parceria com o SESC São Paulo. O conteúdo faz parte do projeto Inspira – Ações para uma vida saudável, que traz reflexões sobre saúde mental.

Regina Cândido, 47, todos os dias toma o trem por volta das 17h30. Moradora de Perus, no extremo noroeste de São Paulo, ela viaja ao menos 1h30 para chegar até um dos hospitais onde trabalha, na Av. Brigadeiro Luís Antônio, no centro.

Enfermeira em uma unidade, e técnica de enfermagem em outra, faz um regime de 12h por 36h. Quando está descansando em um, a profissional está atuando no outro. Sem pausa, desde que a pandemia teve início.

Só parou em setembro, quando seu maior temor se tornou real: ela contraiu o novo coronavírus e sua família também. Filha, genro e os dois netos pequenos. Foram 15 dias de tratamento e cuidados da família. Depois, voltou à labuta.

“Não somos heróis, também temos sentimentos, sofremos todos os plantões pela perdas de vários pacientes que não resistem à Covid-19 e fazemos de tudo pelos que têm chance de viver, a verdade é que tenho muita empatia pelos pacientes, penso que poderia ser minha mãe, meu pai, irmãos ou filhos”, diz a enfermeira.

É de dentro do trem que ela começa a responder nossa entrevista. Único tempo possível entre um plantão e outro. Na conversa, realizada durante toda uma semana, Regina conta sobre as angústias e medos que permeiam sua profissão, assim como os desafios em meio à crise que ainda não chegou ao fim. Confira abaixo!

Regina Cândido é enfermeira linha de frente contra a Covid-19

Crédito: Arquivo pessoal

Nós, mulheres da periferia: desde quando trabalha como enfermeira? Como era o trabalho antes da pandemia?

Regina Cândido: Tenho 10 anos de profissão na área da enfermagem. Comecei como auxiliar de enfermagem, depois técnica de enfermagem, agora sou graduada, com Bacharelado em Enfermagem e Pós graduação em Urgência e Emergência UTI e Trauma.

Atualmente, estou trabalhando como técnica de enfermagem em uma unidade e em um AMA (Assistência Médica Ambulatorial) como enfermeira, no setor da Covid-19. Comecei a trabalhar como enfermeira em janeiro deste ano. Antes da pandemia, meu trabalho era mais tranquilo com as rotinas do dia a dia. Tinha atendimento relacionado à internação de pessoas que iriam fazer cirurgias de transplante de fígado, rim e medula óssea.

 


“Eu gosto muito de trabalhar e lidar com as pessoas nesse momento de dor, de doença. Eu me sinto útil.”

NMP: o que significa sua profissão pra você? 

Regina Cândido: Eu digo pra você que eu amo a minha profissão. Eu amo cuidar das pessoas, eu amo fazer o que eu faço. Eu  trabalho na rede SUS (Sistema Único de Saúde). Então, são pessoas bem carentes [de assistência médica]. Eu gosto muito de trabalhar e lidar com as pessoas nesse momento de dor, de doença. Eu me sinto útil. É uma coisa assim, inexplicável.

A gente larga a família, filhos, netos, larga tudo pra se dedicar a uma pessoa que você nunca viu. Mas o amor é tão grande à profissão que quebra barreiras. É muito gratificante quando a gente está olhando o caso, quando eu estou medicando o paciente e vejo a evolução, vejo o paciente se recuperando. Isso, pra mim, é muito gratificante. Acredito que todos da profissão sentem isso.

NMP: quais diferenças sentiu no trabalho quando a pandemia teve início, em março de 2020? Quais eram suas maiores preocupações naquele momento?

Regina Cândido: quando a pandemia teve início, tudo mudou. O hospital deixou de atender às cirurgias eletivas e tudo ficou concentrado no atendimento a pessoas com Covid-19, que no momento era essencial.

Minha maior preocupação no início da pandemia era de contrair a doença e passar para os meus familiares. Também tinha medo de morrer, mas minha vontade de cuidar sempre foi maior, mesmo diante da falta de EPIs ( Equipamentos de Proteção Individual), na falta de respiradores. Praticamente, faltava tudo, e ainda tinha a preocupação de ser agredida na rua porque no início da pandemia estava acontecendo isso.

No início da pandemia, em março do ano passado, tinha muito preconceito em relação aos profissionais de saúde. A ponto de dois profissionais serem agredidos. Eu, pessoalmente, não fui, mas quando eu ia de branco trabalhar, as pessoas não se aproximavam de mim, ficavam me olhando. Tive colegas de trabalho que foram agredidas no metrô.

Teve a história de uma senhora que deram dois socos nas costas dela, dizendo que ela estava carregando Covid-19. Nos três meses iniciais da pandemia, a gente não foi mais trabalhar de branco, por orientação da supervisão e direção do hospital, que a gente não estava mais indo trabalhar de branco, pra gente não ter que passar mais por isso.

NMP: você chegou a pegar Covid-19? Como foi esse processo em casa, com a família e os receios em torno disso?

Regina Cândido: infelizmente tive Covid-19 em setembro de 2020. Minha filha, meus netos e meu genro também tiveram, porque moravam comigo. Foi muito difícil estar com Covid-19, porque não conseguia sair da cama. Estava muito fraca, com muito desconforto respiratório, muita dor e não tinha remédio que passasse a dor.

Quando eu peguei, eu estava dando assistência ao andar da Covid-19 em um dos hospitais onde trabalho. Não demorou para ter os sintomas. Eu sentia muita dor nas costas, muito desconforto respiratório. Uma dor no corpo inteiro, náusea. Achei que era uma gripe, achei até que fosse uma pneumonia, porque eu já tive pneumonia, senti muita dor nas costas e a dor foi igual.

Quem cuidou de mim foi minha filha, que também estava doente e ainda  com dois filhos pequenos, o Kauan de 3 anos e o Brayan de 6 meses. Meu filho Wellington é que ia em casa para fazer comida, lavar louça e ajudar a cuidar das crianças.

O restante da família tinha medo de chegar perto e contrair a doença. Além deles, só uma irmã vinha aqui. Lógico que ela tinha medo, mas ela não se afastava. Ela me socorreu na hora que eu precisei, que eu tive que ir na UPA (Unidade de Pronto Atendimento), que eu fiquei com muita dor e eu não estava suportando tanta dor, tanto desconforto respiratório.

Eu saía da cama, ia até o banheiro, já com dificuldade para respirar. Na minha casa tem escada pra chegar até o portão, e eu parava toda hora, eu não aguentava ficar em pé. Minha irmã veio me buscar para passar na UPA, como eu estava sentindo muita dor. E eu fiquei com medo dela vir, eu não queria ter contato com ela e ela pegar Covid-19. Eu fiquei feliz, mas, ao mesmo tempo, eu ficava triste, eu ficava com medo de passar pra família.

No começo da pandemia, foi difícil. Faltava material, não tinha tudo para todos. Às vezes, a gente ficava de sete a quinze dias usando a mesma máscara.

 

NMP: nos hospitais onde trabalha, quais são as medidas de segurança?

Regina Cândido: quanto aos procedimentos de segurança no hospital, na entrada, dois funcionários medem a temperatura. Se tiver com febre, já passa direto no hospital. Quem tem sintoma, passa com um médico, nem pega plantão.

Os procedimentos são preventivos a qualquer outra doença. A gente já tem o hábito de lavar as mãos sempre, usar luva, os EPIs adequados, óculos. O que mudou é que agora a gente tá usando bastante a máscara N95.

No começo da pandemia, foi difícil. Faltava material, não tinha tudo para todos. Às vezes, a gente ficava de sete a quinze dias usando a mesma máscara. Aí depois nós todos reclamamos. Começou a vir mais equipamentos adequados e todos os dias. Porque a máscara a gente tem contato, tem que trocar. A gente sua, a máscara fica molhada. Não tem como ficar com a mesma durante uma semana, quinze dias, é impossível. Atualmente, é uma máscara por plantão. Usamos a máscara N95, o gorro na cabeça, protetor nos pés, avental e luvas. Não tá faltando nada de material.

As precauções respiratórias são: lavagem das mãos sempre. Quando entramos no quarto do paciente, já entramos equipados. Aí tem o modo certo até de tirar a roupa para não se contaminar.

Além de atingir o psicológico com medo de contrair a doença e passar para a família, também me sinto sozinha e triste por ter que me afastar de todos; isso tem causado certa depressão.

NMP: quais os maiores desafios que você vê da sua profissão na pandemia passado um ano?

Regina Cândido: meu maior desafio passado um ano de pandemia está relacionado à exaustão no atendimento, porque o hospital está lotado, com poucos funcionários para atender a tanta demanda.

Além de atingir o psicológico com medo de contrair a doença e passar para a família, também me sinto sozinha e triste por ter que me afastar de todos; isso tem causado certa depressão, acredito que na maioria dos profissionais de saúde.

Não somos heróis, também temos sentimentos, sofremos todos os plantões pela perdas de vários pacientes que não resistem à Covid-19, e fazemos de tudo pelos que têm chance de viver. A verdade é que tenho muita empatia pelos pacientes, penso que poderia ser minha mãe, meu pai, irmãos ou filhos.

Não somos heróis, também temos sentimentos, sofremos todos os plantões pela perdas de vários pacientes que não resistem à Covid-19.

Trabalho em uma AMA, na linha de frente da Covid-19, e um determinado momento, teve que fechar as portas porque não tinha mais lugar. Muitas pessoas espalhadas pelos corredores, não tem mais vaga na UTI a não ser quando tem óbito, e é preciso escolher quem tem mais chance de viver.

Essa é a realidade que estamos vivendo, infelizmente. Peço à população  que tenham consciência, que fiquem em casa e oremos para que todos sejam imunizados o mais rápido possível com a vacina!

NMP: e o momento te trouxe algum aprendizado?

Apesar de toda essa pandemia, toda essa tristeza, esse tumulto todo em meio a essa doença que ninguém sabia ao certo como era, algumas portas se abriram pra mim, porque eu consegui um emprego de enfermeira.

Estão precisando muito de muitos profissionais de saúde. Eu acredito que tem muita gente que estava desempregada e está conseguindo trabalhar porque a demanda é muito alta. O número de pessoas com Covid-19 e de pessoas na superlotação nos hospitais é muito grande.

Eu fiquei super feliz por ter tido essa oportunidade, mesmo em meio à pandemia. Eu já estava acostumada a atender pacientes com Covid-19. Lógico que é muito chocante esse momento no mundo inteiro, porque são muitas pessoas que estão morrendo. Mas, pra mim, foi uma oportunidade de emprego na área que eu estava desejando e sonhando.

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