Na Boca do Povo é uma curadoria dos acontecimentos mais importantes no Brasil e no mundo feita pela redação do Nós, mulheres da periferia. Aqui você acessa não só o fato, mas uma interpretação de como cada assunto impacta o seu dia a dia. Muita coisa acontece diariamente, e o Nós te ajuda a focar no que realmente importa.
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O que você precisa saber?

O mês de junho e o início de julho tem uma marca sangrenta em Recife, capital de Pernambuco. Foram registrados quatro casos de transfeminicídio. Na madrugada desta quarta-feira (7/7) aconteceu um dos mais recentes. Fabiana da Silva Lucas, 30, foi encontrada morta com golpes de faca às margens da rodovia PE-160, em Santa Cruz do Capibaribe, no agreste do estado, a 200 quilômetros distante da capital.

A apuração do G1 indicou que a vítima estava num bar e foi atacada quando questionou onde ficava o banheiro. Ela acabou sendo direcionada a um terreno baldio. Segundo a Polícia Civil, o suspeito é um homem de 22 anos.

Ainda nesta semana, no domingo (4), a cabeleireira Crismilly Pérola, 37, também foi assassinada. Seu corpo foi encontrado às margens do Rio Capibaribe, na Comunidade da Beira Rio, Zona Oeste do Recife. Negra e travesti, ela foi vítima de um disparo por arma de fogo que transfixou uma de suas mãos e atingiu seu pescoço, causando sua morte.

Estes dois transfeminicídios somaram-se a outros ataques a pessoas trans e travestis na capital pernambucana. No dia 18 de junho, a transexual negra Kalyndra Selva foi encontrada morta com marcas de estrangulamento dentro de sua própria residência, no bairro do Ipsep, na zona sul. O principal suspeito é seu ex-companheiro.

No dia 24 do mesmo mês, a travesti Roberta da Silva teve 40% de seu corpo queimado no Cais de Santa Rita, na região central. Ela teve os dois braços amputados por complicações das queimaduras na pele e, na manhã da última sexta-feira, 9 de julho, acabou falecendo. O autor do crime foi identificado como um adolescente.

Em que contexto isso acontece?

No primeiro semestre de 2021, o Brasil perdeu pelo menos 89 pessoas trans. Deste número, 80 foram mortes causadas por transfeminicídio e 9 foram tipificadas como suicídio. Além disso, houveram 33 tentativas de assassinato e 27 violações de direitos humanos. Os dados são do último boletim da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), divulgado nesta semana.

O documento afirma que “o país naturalizou um processo de marginalização e precarização para a aniquilação das pessoas trans”. O maior número de mortes registrado até agora pela organização aconteceu em 2020. Durante o ano, houve um recorde de assassinatos contra travestis e mulheres trans, com um total de 175 casos.

O texto do estudo alerta que, mesmo com um número aparentemente inferior quando comparado ao mesmo período de 2020, não há o que comemorar. Entre janeiro e junho de 2021 foram mapeados 78 casos de assassinatos contra travestis e mulheres trans, e 2 homens trans/transmasculinos, totalizando 80 transfeminicídios. O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo.

No mesmo período, os EUA tiveram 29 casos, de acordo com a pesquisa anual da Human Rights Campaign, que monitora os casos de violência contra pessoas trans. Do total de assassinatos, 3 das vítimas eram defensoras de direitos humanos.  

Como isso atinge você?

No mês de junho foi lançada a Frente Nacional Transpolítica, grupo que reúne as parlamentares trans e travestis eleitas no Brasil, e os movimentos sociais que defendem os direitos das populações LGBTQIA+. Entre as reivindicações da Frente estão a necessidade de implementar ações legislativas e governamentais para a proteção à comunidade e promover a cooperação da sociedade, família e dos estados e municípios na promoção da autonomia, participação e integração da pessoa LGBTQIA+ à sociedade.

Mas tem uma coisa que não podemos fugir: a autorresponsabilidade. Nessa luta política sobre a importância de proteger a vida de pessoas, não podemos fugir da necessidade de cada pessoa analisar a forma como tem se comportado e como tem lidado com a violência sofrida pela comunidade LGBTQIA+. Essa pessoa pode ser sua irmã, amiga, pai, mãe, filha, vizinha. A nossa negligência também compactua com a morte sistemática dessa população. Portanto, devemos assumir a responsabilidade com a inclusão, defesa e convivência respeitosa com todas as pessoas.

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