A pandemia de coronavírus se estende pelo segundo ano e coloca em evidência a fome e desemprego. Após décadas, o Brasil está no caminho de voltar a integrar o Mapa Mundial da Fome. São mais de 39 milhões de pessoas vivendo na miséria, 14 milhões em situação de extrema pobreza e 14 milhões desempregadas, segundo os dados de 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Ministério da Cidadania.

É nesse momento que o trabalho das comunidades torna-se determinante para impedir que essas pessoas passem fome. As conhecidas “vaquinhas” para arrecadar dinheiro, cestas básicas e equipamentos de proteção como máscaras e álcool gel são a luz no fim do túnel para vários bairros.

O Nós, mulheres da periferia conversou com Michele Cavalieri, 38 anos, que é produtora cultural  na Okupação Coragem em Itaquera, zona leste da cidade de São Paulo. Michele foi uma das primeiras pessoas a ver o nascimento e crescimento da Ocupação em 2016. Ela e seus colegas ocuparam um prédio abandonado transformando o lugar em um enorme espaço cultural. Desde o começo da pandemia, a Ocupação realiza doações de alimentos e cestas básicas para a comunidade. Michele está à frente da campanha e contou seus desafios nesta entrevista.

Galeria

Confira!

Nós, mulheres da periferia:  Como você começou a articular as doações no começo da pandemia?

Michele Cavalieri: Fomos pegos de surpresa como todo mundo com a chegada da pandemia. Tivemos que fechar a Ocupação, mas durou pouco tempo, porque logo começamos a ficar incomodados, pois as pessoas ficariam sem dinheiro e trabalho. Depois de conhecer e pesquisar sobre outras ações próximas, iniciamos a campanha “Quebrada Solidária”, que é uma união de várias coletividades da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação).

Nós: Na falta dos recursos oferecidos pelo governo para a população, qual é a importância das articulações comunitárias em um momento de crise?

Michele: É importantíssimo esse tipo de ação, se não nos veremos em uma miséria, que é o que em muitos lugares já acontece. Estamos tentando lutar pelo nosso território, tentando alimentar algumas famílias dessa maneira. Além de cultural, nossa articulação também é política. Sempre que entregamos as cestas para as famílias, tentamos passar essas informações. Explicamos para quem recebe que não temos apoio financeiro do governo, que estamos sem trabalhar também e que as doações são da própria comunidade.

Nós: Quem são os doadores dessa campanha?

Michele: Trabalhamos com a divulgação das campanhas na internet e recebemos doações de pessoas físicas do próprio território, e a maioria das cestas foram doadas por empresas. No começo da pandemia, atingimos o número de 1.300 cestas básicas doadas para as famílias.

Nós: A crise se intensificou e vivemos o pior momento da pandemia no Brasil. Quais estratégias estão usando para manter o ritmo de doações depois de um ano?

Michele: Quando as coisas pareciam estar mais leves, o fluxo de trabalho foi voltando, paramos as campanhas e focamos nas lives nas redes sociais, pensando em uma maneira de ganhar dinheiro com o que gostamos. As doações não eram tão intensas e aconteciam de forma pontual. Depois, com a intensidade que a covid-19 avançava, vimos a necessidade de retomar a campanha. Conseguimos algumas, mas foi em menor quantidade do que no começo. Estamos conseguindo arrecadar alimentos, cestas básicas, doações em dinheiro, mas em menor número. Acreditamos que mesmo com a situação da galera que está cada vez pior vamos conseguir manter a campanha.

Nós: Como funciona a sua rotina de doações e distribuição de itens para quem precisa?

Michele: Não tem uma rotina de doação, conforme vai chegando a gente vai doando, se a necessidade da pessoa é grande nós doamos. Se ela precisa de um pacote de arroz, feijão, e a gente tiver, nós doamos. Não esperamos comprar uma cesta básica para isso acontecer. Conforme vai chegando, vamos direcionando para as famílias que a gente sabe que está com uma necessidade maior.

Leia também

Doações na pandemia: saiba quem e como você pode ajudar

Temas: