O Brasil superou a marca de 373 mil óbitos por Covid-19 na pandemia. A média diária de vítimas dá sinais de estabilidade, mas em patamar altíssimo: mais de 2.800 mortos a cada 24 horas, de acordo dados do consórcio de veículos de imprensa

Cansaço, angústia, medo. Todas as preocupações da população são sentidas pelos  profissionais de saúde, que veem as mortes de perto nos hospitais. Uma pesquisa realizada em 2020 pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), apontou que entre os 13 mil entrevistados, 80% tem contato com casos suspeitos ou confirmados e 87% afirmam ter sintomas da Síndrome de Burnout – um distúrbio psíquico causado pela exaustão extrema ligada ao trabalho.

O Nós, Mulheres da Periferia conversou com a enfermeira Bruna Luana, 38 anos, que atua na linha de frente intra-hospitalar, assistindo pacientes com suspeita ou confirmados com a Covid-19 no período noturno em um Hospital Universitário na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo — que nos contou sobre a sua rotina em um período de alta nos casos e óbitos na região e suas observações durante um ano de pandemia. Nascida em Cangaiba, zona leste da cidade de São Paulo, Bruna prestou concurso público há cinco anos e se mudou para São Carlos, onde mora sozinha.

Confira a conversa

Nós, Mulheres da Periferia: Como tem sido o dia a dia com a sua família depois que você volta de um plantão?
Bruna Luana: Eu moro sozinha aqui em São Carlos, mas antes da pandemia, eu costumava retornar com frequência pra São Paulo para ver meus amigos e familiares. Mas com a chegada e agravamento da crise, estou há bastante tempo sem vê-los. A última vez que nos encontramos foi na virada do ano.

Nós: Vemos um cenário piorar a cada dia. Como tem sido a rotina do trabalho?
Bruna: Cada vez mais temos menos rotina e mais improviso, por conta da demanda. Além do aumento no número da demanda, tem a complexidade que aumentou também. Por conta do número baixo de funcionários, temos muito improviso e é muito exaustivo.

A carga de trabalho é tão elevada que a gente não consegue fazer coisas mínimas, como saber da história do paciente, como é a família, não conseguimos fazer uma avaliação física global, focamos naquele sistema que está sendo impactado naquele momento, direcionamos no sistema respiratório, por exemplo.

Tem muitas coisas que não conseguimos dar conta e isso nos deixa exaustos, saber que não conseguimos dar o nosso melhor e ter a sensação de que está faltando algo, isso nos afeta muito emocionalmente. Tento internalizar que não sou uma super-heroína, que não vou conseguir dar conta de tudo, mas é difícil, porque queremos dar o melhor para o próximo.

Nós: Pelas notícias, percebemos que trabalhar em hospitais em um momento de crise sanitária é desgastante. Como está a sua saúde mental?
Bruna:  No começo da pandemia eu me sentia fortalecida. Durante todo o período do ano passado eu fui buscando me fortalecer através da espiritualidade, da arte. Mas nesse ano, eu sinto que esses recursos já não estão suprindo minhas necessidades emocionais. Quase que diariamente vivencio pessoas morrendo, familiares perdendo seus entes queridos, então a morte nesse contexto eu não consigo naturalizar. Eu parei de usar redes sociais, ainda estou sentindo que preciso de ajuda emocional.

Pra mim acaba sendo um período bastante solitário e muito angustiante. Um medo constante, eu não vejo minha família, meus amigos, minhas amigas. A rede afetiva é algo que promove a saúde mental, e eu acabo conversando apenas pelos meios digitais e não é a mesma coisa. Nesse período pandêmico perdi duas pessoas da família, eu não consegui ir ao velório e nem ao enterro porque estava tudo fechado, não tinha ônibus.

Tenho medo de estar sendo tudo em vão.

 

 

 

 

Nós: Qual a sua percepção em relação aos cuidados que a população vem tendo em um ano de pandemia?
Bruna: Eu entendo que o manejo dessa pandemia no Brasil ficou sob responsabilidade da população. Então é muito complicado quando temos um governo que negligencia todas as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde). Vejo que a população se esforçou mas não compreendeu. Se de fato quisermos evoluir para a manutenção das vidas, está por nossa conta e a população não conseguiu entender isso. Ainda tem uma grande parcela sustentada por toda a questão negacionista promovida pelo presidente.

A população não percebeu ainda que se nós não fizermos o governo não vai fazer.

Nós: Você se sente segura atendendo esses pacientes? Como são os cuidados na sua casa?
Bruna: Eu não me sinto segura, sobretudo porque sou enfermeira que trabalha em pediatria, eu estudei os cuidados de enfermagem direcionados à crianças e adolescentes, e com a pandemia houve o remanejamento e eu basicamente estou aprendendo a lidar com adultos no ato, no dia a dia. Além dessa questão de não ter tempo e nem emocional para conseguir estudar e me atualizar, tem a questão de estar sobrecarregada, a exaustão acaba levando à eventos adversos. Em casa, eu tiro a roupa, vou direto pro chuveiro. Passo álcool na superfície, estou sempre com álcool gel, mas como moro sozinha, manejar esses cuidados é fácil.

Mas explicar para as pessoas que elas não podem me visitar porque eu sou uma transmissora em potencial é difícil..

Nós: O território em que você atua tem sido muito afetado pelas contaminações e óbitos?
Bruna:
Temos em São Carlos cerca de 250 mil habitantes e três hospitais: um particular, um filantrópico e um do SUS. Para se ter uma ideia da situação aqui na cidade, estamos neste momento com 100% dos leitos de UTI ocupados. São 57 leitos, todos estão ocupados. Esse ano estamos sentindo mesmo os efeitos da pandemia, saiu totalmente do controle.

Nós: Quais são os perfis dos pacientes com suspeita e confirmados? Bruna: Observamos junto com meus colegas, que nas internações o número de homens é sempre maior que o número de mulheres.

Nós: Com as novas cepas e o aumento da mortalidade entre jovens, você tem percebido uma diferença de perfil do ano passado para cá?
Bruna: Notamos também o agravamento dos quadros e uma diminuição da faixa etária que tem internado por um quadro de agravamento da doença. Na região já foi identificada a nova variante, porém, não sabemos exatamente se esses casos são devido à nova cepa. Essa semana no nosso hospital, começamos a fazer o sequenciamento pra saber qual é a variante. É uma amostra pequena, mas temos essa preocupação.


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