O dia 6 de maio de 2021 de maio ficará registrado na história do Brasil como uma quinta-feira sangrenta. Se não bastasse todas as dificuldades evidenciadas pela pandemia, os moradores de Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro (RJ), amanheceram sob intenso tiroteio, invasão às suas casas, celulares confiscados e a morte de 25 pessoas.

Fotos e vídeos denunciam a chacina empreendida pelo Estado do Rio de Janeiro chamada de operação. A população acredita, além das 25 mortes registradas oficialmente, que houve ainda outros homicídios.

Em nota oficial , as organizações, coletivos e ONGs locais também mostraram sua indignação. “Em meio a uma pandemia que matou 410 mil pessoas, 45 mil só no Rio de Janeiro, ocorreu a operação mais letal da história do estado, sob a justificativa de proteger ‘os direitos fundamentais de crianças e adolescentes e demais moradores que residem nessas comunidades”.

Em meio a uma pandemia que matou 410 mil pessoas, 45 mil só no Rio de Janeiro, ocorreu a operação mais letal da história do estado, sob a justificativa de proteger “os direitos fundamentais de crianças e adolescentes e demais moradores que residem nessas comunidades”, como relata nota do MPRJ.

A “operação” foi realizada pela DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente), com o apoio da CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais). “Uma pessoa morta dentro do quarto de uma criança de 9 anos protege quais crianças? Quais direitos estão sendo garantidos?”, questionam as organizações locais na nota.

Segundo o Geni-UFF (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense), a ação foi  considerada a mais letal da história do Rio, Em 9h, a população vivenciou diversas violências.

Em um vídeo, uma moradora guia a pessoa com a câmera e mostra os pingos de sangue pela escada. No fim das escadas, o cômodo cheio de sangue. “Filma, filma”, a mulher pede, como em um pedido de socorro e também registro daquilo que não basta mais ser apenas verbalizado. São imagens muito duras e difíceis de ver e de aceitar em qualquer circunstância.

Outro vídeo traz uma senhora negra, que pede para não mostrar o rosto. Sua voz narra o inenarrável, a dor e indignação de uma mãe querendo informações sobre o corpo de um filho:

“Eles apontaram o fuzil no meu rosto dizendo que eu tinha que morrer, só porque eu fui falar com eles, fui perguntar onde o corpo do meu filho estava. Meu filho morreu hoje, eles chegaram atirando. Eles são umas pestes”, diz a senhora em vídeo que pode ser visto aqui.


O STF (Supremo Tribunal Federal) proibiu operações policiais nas comunidades durante a pandemia da Covid-19, por meio da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 635, conhecida como “ADPF das Favelas”. Apenas em casos exepcionais elas podem acontecer.

“O genocídio contra corpos negros e favelados segue naturalizado e sem causar espantos. As instituições públicas, como em um acordo tácito, seguem silenciosas, sem criar qualquer tipo de mecanismo eficaz que possa frear o extermínio desses mesmos corpos”, aponta ainda a nota das ONGS locais.

Luto e luta

Na manhã desta sexta-feira (7), centenas de pessoas realizaram atos na comunidade pedindo justiça. As manifestações duraram até o período da noite. Diante de uma pandemia, outra preocupação ao ocupar as ruas é o risco de infecção pelo vírus. Pensando nisso, o Instituto Marielle Franco chegou a publicar orientações de como se proteger no Twitter.

Em São Paulo, a Coalizão Negra por Direitos chamou uma manifestação para este sábado, dia 8 de maio. Com o lema “Nem bala, nem fome, nem Covid! Basta de genocídio!”, o mesmo utilizado para ocupar as ruas em 2020, a concentração acontecerá a partir das 17h, no vão livre do MASP.

A chacina aconteceu as vésperas dos dias das mães. O massacre tem transformado a data comercial, criada para uma celebração familiar, em dor e necessidade de exposição a um vírus que já matou milhares de pessoas no Brasil.

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