Erondina Maria dos Santos* é professora de História da rede pública da zona sul da cidade de São Paulo. Ela é uma das profissionais que, desde 10 de fevereiro, está em greve em São Paulo.

Os profissionais afirmam que estão lutando pela vida, diante do aumento de casos de Covid-19 em todo o Brasil. Até 7 de março, o país contabilizava mais de 265 mil mortes, sendo 61.584 mil só no estado de SP, aponta boletim municipal da capital paulista.

Levantamento realizado pelos Comandos Regionais de Greve e Sindsep do dia 4 de março mostra que, desde a volta às aulas na cidade de SP, ao menos 256 escolas municipais já apresentaram casos de pessoas contaminadas por Covid-19, sendo 569 casos entre alunos e profissionais da educação, e 3 que vieram a óbito. Os dados não contabilizam casos de óbito entre familiares a partir do trabalho presencial.

Em suas redes sociais, a professora Erondina tenta postar informações de conscientização, mas também se sente julgada por outras pessoas. “Você tem poucas fotos harmônicas de você e de sua família, o restante se resume a Covid-19, escola, desigualdade e racismo, é uma balança em desequilíbrio muito grande”, escutou de uma colega próxima.

“Eu achei que eu tinha escolha sobre o meu status. Frente a tudo que está acontecendo, a desequilibrada sou eu”, desabafa a professora. Embora o trabalho institucional esteja em suspenso por conta da greve, a professora não deixou de auxiliar os alunos diante das dificuldades e questões emocionais que surgem por conta da pandemia.

Ela entende que sua luta dialoga com as diversas pessoas que integram o seu dia a dia como educadora: alunos, famílias e outros colegas de profissão.

“Para além dos contatos com grupos de comando de greve, com outros de meus colegas, eu trabalho no fortalecimento do meu grupo de amigos próximos. Na minha escola são só seis professoras em greve. Uma outra dimensão do meu dia é esse trabalho com os estudantes, com as famílias, eu converso muito com as mães. Eu presto atenção e até me dedico a fazer leituras mais profundas da conjuntura, o que as notícias representam, para também fortalecer diálogos com outras pessoas”, conta.

Abaixo, deixamos uma entrevista diferente, feita de aluna para professora, em uma troca muito sincera sobre as dificuldades e medos de cada uma delas. Mesmo a professora escolhendo permanecer em greve, a aluna a escuta com atenção.

Ao deixar clara sua ansiedade perante ao modelo de EaD (Educação à Distância), a professora mostra sua empatia à aluna, lembrando que não é a estudante que está falhando, mas sim um sistema e há muito tempo.

Como a própria Erondina reafirmou em entrevista, abaixo está o dia a dia de uma professora que está em greve, mas que procura estar antenada com o que está acontecendo à sua volta na Educação.

Leia abaixo na íntegra:

Mariana da Silva [estudante]: Professora, você sabe se o CEU (Centro Educacional Unificado) vai continuar [a ter aulas]? Eu acho que deveriam dar as vacinas para as professoras e professores.

Erondina Maria dos Santos [professora]:  Eu também acho. E não só para professoras e professores. Eu sou uma das professoras que está em greve. Estamos fazendo essa greve pela vida. Nós não podemos comprometer a nossa vida. Nós estamos lutando para que todos tenham vacina. Porque, afinal de contas, se a gente vai para a escola nesse momento e alguém se infecta, pode passar o vírus.

Se eu sou contaminada, eu vou trazer pra dentro da minha casa. Tenho a minha família, é justo que eu seja contaminada e traga um vírus pra dentro da minha família? Que pode matar, tanto a mim quanto um membro da minha família? Não é justo.

O estudante vai para a escola e pode se contaminar. Mesmo os estudantes mais novos, que se tem essa ideia de que são assintomáticos, só que nós já temos caso de morte nessa faixa por Covid-19. É muito grave isso que a gente tá vivendo, muito grave. A estudante ou o estudante pode pegar essa doença na escola. Pode ficar assintomático, ter sintomas leves, mas pode levar pra casa, onde tem o pai, a mãe, o avô, a avó, uma tia, para uma pessoa que o vírus pode não ser leve, né? Pode ser fatal. E esse é o nosso grande desafio.

Outra coisa que a gente defende é que quem não tem acesso à internet e não tem condições de estudar online — porque não tem esses recursos, não dispõe de um computador ou de um celular — defendemos que o Governo disponibilize isso. Disponibilize o tablet, o acesso à internet, através de um chip. Eles têm condições de fazer isso. É muito mais humano e democrático você fazer um trabalho desse de investir nas pessoas do que você investir para equipar toda uma escola de álcool gel, distanciamento social e luva.

Álcool gel, luva, máscara, num kit que o aluno tem que levar pra casa. Não é descartável, e fica cinco horas dentro da escola nessa situação toda, vendo as pessoas se contaminarem. Os casos de contaminação foram imensos. A gente tá aí com os números dessa semana. Investir nas pessoas é muito mais saudável. Eu gostaria muito de ouvir você. 

Mariana: Também acho, prô. Eu tenho o meu avô. Graças a Deus, hoje ele tomou a primeira dose da vacina. Minha avó materna não mora aqui, já tomou a primeira e a segunda dose, graças a Deus. Graças a Deus já tem vacina aqui perto da minha casa. Porém, está vacinando os idosos primeiro. E vários idosos que eu conheço já tomaram. Ou então estão tomando. E eu acho muito perigoso.

No ano passado foi muito difícil pra aprender alguma coisa, tanto que agora no começo do ano eu tô tendo muita dificuldade.

Minha mãe  está com muito medo, muito medo mesmo, então ela quer me tirar da escola ela quer me deixar no remoto, porém eu vou ter que sentar e conversar com ela. Falar ‘mãe, deixa eu ficar, pelo menos, um tempo. Deixa eu ficar o primeiro bimestre, o restante do ano eu fico no remoto, não tem problema’.

Eu tenho fé que isso tudo vai passar e que vai acabar. Eu quero muito que acabe logo. Enfim professora, eu tô preocupada de verdade, porque eu tenho o meu pai, eu tenho o meu irmão de cinco anos. Tenho a minha prima que fuma, meu pai também fuma, entendeu? Então é bem perigoso.

Professora Erondina: A melhor coisa que você tem a fazer é sentar e conversar com a sua mãe. E eu vou te falar uma coisa, eu fui sua professora o ano passado e eu vejo você como uma menina muito estudiosa, uma menina que tem comprometimento com as atividades.

Eu concordo plenamente com você que a educação presencial é insubstituível, porque é o contato com as pessoas, é a interação com as pessoas. Tanto o professor quanto o colega, nós aprendemos com todos na sala de aula. Agora, você pode aprender a partir de casa e lembrar que é só um pouco. É até ter vacina pra todo mundo não vai ser eterno, não será eterno.

Olha a Ciência, os cientistas em tempo recorde encontraram vacinas. Nós não temos só uma ou duas vacinas, é que no Brasil, no nosso país, nós temos essa escassez, mas acho que quatro ou cinco outras diferentes. Vacinas que poderiam, inclusive, ser compradas pelo nosso país. E não foi. Então, será que vale a pena correr esse risco?

Você pode ligar pra mim. Eu te oriento, podemos ler  juntas o parágrafo, a atividade, o texto. A gente manda um vídeo, a gente acha uma outra forma de explicar. O conhecimento é formulado por nós, é a nossa interpretação.

Mariana:  Professora, eu acho bom eu ir. Eu tento me comprometer, porém, quando eu tô fazendo [a atividade], eu fico estressada. Eu tento me comprometer, eu tento fazer e tem muitas coisas que eu não consigo, aí eu pergunto pra professora.

Mas teve uma vez que passou dois, três dias, uma semana e ela não me respondeu e eu tive que marcar como concluída [ a atividade] porque estava aparecendo como pendente pra mim. E eu fico agoniada. Eu fico tipo, ‘nossa, eu tô pendente nisso, eu tenho que me esforçar’.

Amanhã mesmo eu vou pra escola, porque eu tô meio que falhando, sabe? E tá muito chato isso e eu eu preciso. Eu acho que eu preciso ir, porque como eu já disse, eu tenho muita dificuldade, muita dificuldade pra entender em EAD assim. E eu acredito na Ciência, que vai achar outras vacinas aqui no Brasil.

Professora Erondina:  Não é você que está falhando. Nós estamos num momento de muitas falhas, nós estamos num momento de complexidade. Não é você que está falhando.

Nós estamos fazendo a greve, porque se a professora estivesse numa situação saudável no ensino remoto, mas veja, ela tem que montar inúmeras turmas, tem que atender no presencial e no online e ainda tem que produzir as atividades que são copiadas, xerocadas para enviar para os alunos que não têm acesso ao virtual e optaram pelo ensino remoto.

São muitas tarefas. Então, não é questão de falha nesse sentido tua ou dela, mas de todo um sistema social que está falhando com a gente já faz muito tempo.

*Os nomes da professora e aluna foram alterados por questão de segurança.

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