A roça quilombola e a pesca artesanal caiçara aproximaram mundos que pareciam distantes antes da pandemia da Covid-19. Moradores das periferias de São Paulo, duramente atingidos pelo vírus, encontraram um traço de identidade, união e apoio, de comunidade para quilombo, de comunidade para comunidade, no alimento produzido com resistência e afeto.

A Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), com apoio de parceiros, começou na pandemia a distribuir uma rica cesta de produtos para famílias de favelas paulistanas, como a de São Remo e da Vila Brasilândia.

Pesquisa realizada em fevereiro pelo Instituto Data Favela em parceria com a Locomotiva — Pesquisa e Estratégia e a Central Única das Favelas (Cufa) mostrou que oito em cada dez moradores de favelas disseram precisar de doações para sobreviver. 

Ao todo, desde março do ano passado, foram realizadas oito entregas, que somaram mais de 150 toneladas de produtos da roça quilombola e da pesca caiçara. Quase 19 mil famílias já foram beneficiadas.

Distribuição de comida orgânica, produzida pelos quilombolas do Vale do Ribeira, para famílias do Jardim São Remo, favela na zona oeste de São Paulo. A iniciativa é uma ação emergencial para manter geração de renda nas comunidades quilombolas e aliviar o impacto da pandemia de Covid-19 em famílias vulneráveis. As ações são fruto da união entre a Cooperativa do Vale do Ribeira (Cooperquivale), associações quilombolas, organizações não-governamentais, organizações internacionais e lideranças comunitárias

Crédito: Manoela Meyer/ISA

Chegaram à mesa das comunidades itens como mandioca, cará, inhame, abóbora, três tipos de batata doce, palmito, banana, maná-cubiu, abacate, limão cravo, jaca mole, mel, rapadura e peixe seco da Associação de Moradores da Enseada da Baleia, da Ilha do Cardoso, em Cananéia (SP).

“A luta do pessoal da favela é a luta do negro no Brasil. A dificuldade, a discriminação, o preconceito”, afirmou Osvaldo dos Santos, do Quilombo Porto Velho. “Isso é uma lógica que a gente enfrenta no dia-a-dia. E não é um dia, são 500 anos. Onde o negro tem que ir para a favela, onde o negro quilombola continua nas suas comunidades mas com muito sacrifício. Esse é o ponto em que estamos falando a mesma língua, na mesma sintonia.”

Jogo de ganha-ganha

Há anos, a Cooperquivale entregava seus alimentos para a merenda escolar via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), do Ministério da Educação.  Em março do ano passado, início da pandemia, as prefeituras de São Paulo, Santos, Santo André e Cajati suspenderam os contratos com a cooperativa. 

Até o momento, não há perspectiva de retomada das entregas contratadas e o arranjo precisou mudar de uma hora para outra, sem qualquer incentivo dos governos federal, estadual ou municipal.

As ações emergenciais de produção de distribuição de alimentos são uma realização das Associações Quilombolas, Instituto Socioambiental e Cooperquivale em parceria com Coordenação Nacional das Comunidades Negras Quilombolas (Conaq), Instituto Linha D’Água, Associação dos Moradores da Enseada da Baleia, Instituto Brasil a Gosto, Equipe de Articulação e Assessoria às Comunidades Negras do Vale do Ribeira (Eaacone), Prefeitura de Eldorado, Prefeitura de Iporanga, Prefeitura de Cananéia, Prefeitura de Jandira, Prefeitura de Embu das Artes, ONG Bloco do Beco, Associação de Moradores do Jardim São Remo, Associação de Moradores da Vila Brasilândia, Grupo Conexão Petar e Associação Mulheres Unidas por uma Vida Melhor (Amuvim). As ações recebem apoio da União Europeia, Good Energies e Rainforest Foundation Norway.

Organizar a produção quilombola, coletar os alimentos e distribuir em uma favela paulistana no meio de uma pandemia só é possível porque há união entre a cooperativa, as associações quilombolas, organizações não-governamentais, organizações internacionais e lideranças comunitárias. Este movimento produtivo e positivo, que busca amenizar tanto o impacto econômico como sanitário da pandemia da Covid-19, logo se provou um jogo de ganha-ganha. 

Por um lado, a geração de renda para os produtores foi mantida durante a maior crise sanitária dos últimos 100 anos. Eles produzem o alimento que consomem e negociam o excedente com a cooperativa quilombola. Ganham, ainda, um sopro de autoestima. Como resultado do trabalho, a cooperativa se fortalece, suas lideranças vão de quilombo a quilombo, ouvindo as demandas de produtoras e produtores.

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