Se tem uma coisa que é marca registrada de Carla Siccos, isso com certeza é a comunicação. Moradora da Cidade de Deus (CDD), no Rio de Janeiro, Carla é a criadora do Jornal CDD Acontece, um dos principais veículos de mídia comunitária do Rio de Janeiro.

Apostando em um jornalismo profissional, com reportagens e redação própria e informações de credibilidade, a página do CDD Acontece hoje possui 136 mil seguidores e listas de transmissão no WhatsApp com mais de 10 mil inscritos, sendo pelo 5 mil da própria Cidade de Deus.

Jornalista comunitária, engenheira social, especialista em realidade virtual e aumentada, e apaixonada por tecnologia, Carla Siccos é a nossa biografada de hoje. Confira!

Comunicadora desde criancinha

Nascida em 13 de novembro de 1981, a carioca é cria do Morro da Serrinha, em Madureira, local eternizado pela voz do sambista Arlindo Cruz com a música “O meu lugar“. Na infância, era uma criança livre e considerada pelos adultos como rebelde. A verdade, no entanto, é que desde cedo a mente inventiva de Carla já ia sendo mostrada.

Carla Siccos criou o CDD Acontece

Crédito: Arquivo pessoal

Uma de suas primeiras invenções foi a criação do sobrenome Siccos. S de Siqueira, COS de Costa e C de Cristina. “Apareceu no colégio uma Carla Cristina Siqueira Campos. Eu sou Carla Cristina Siqueira Costa. Para diferenciar, inventei o sobrenome”, contou em um depoimento em primeira pessoa à Revista Época.

Beirando os 11 anos, sua família sofreu algumas transformações e também desafios. O irmão mais novo, Bruno, morreu, e a mãe vendeu a casa, mudando-se para o Morro do Faz Quem Quer, também no Rio de Janeiro. Carla escolheu ir para a Cidade de Deus com a tia Fátima. Talvez, nessa época ela nem imaginasse a diferença que essa decisão teria em sua vida.

Na escola, era do tipo que conversava com todo mundo. Desde cedo, uma articuladora. Falava tanto com os considerados “nerds” da sala quanto com os do fundão. As perspectivas ligadas ao ensino superior em sua classe se restringiam ao curso de Administração, mas Carla já mirava o pouco falado Jornalismo.

Os caminhos não foram lineares. Ao findar o ensino fundamental, aos 18 anos, tornou-se mãe, mas sem abrir de seu sonho de ser jornalista. Formou-se no ensino médio aos 20 anos e seguiu trabalhando em diversas funções: balconista de lanchonete, arquivista, secretária.

Seu currículo foi encontrado por uma empresa de atendimento ao cliente. Mesmo sem experiência específica no negócio, Carla se apegou à oportunidade, sendo uma virada de chave em sua vida. Aprendeu a trabalhar com computador, assim como organizar e conduzir reuniões.

Maternidade e articulação comunitária

Um jeito que Carla encontrou para conciliar a vida materna e profissional foi ficando a par da programação cultural da Cidade de Deus. “Jansen [seu filho] era uma criança muito ansiosa, então eu vivia atrás de coisas para fazer com ele na rua. Cursos, eventos esportivos, shows, exibições de filmes e vários serviços públicos”, conta.

A curiosidade fez Carla entender melhor os serviços dentro do território e ajudar suas vizinhas no uso desses espaços. “Um dia uma amiga estava se queixando que teria que ir até ao centro para conseguir um documento e eu informei ‘você consegue aqui do outro lado da rua'”.

Eureca. Foi quando ela entendeu que, para além de conhecer seu lugar para uso próprio, ela poderia também partilhar seu conhecimento com outras pessoas sem acesso à informação. Nascia em 2 de agosto de 2011 o perfil no Facebook CDD Acontece como jornalismo de serviço, notas, entrevistas e programação cultural.

Jornalismo comunitário: estratégia de cidadania

O perfil gerou tanto alcance que chegou até a prefeitura local. Carla teve a ideia, então, de começar a falar de outros temas, mais ligados aos direitos da população da Cidade de Deus. “Começamos a mostrar a questão do lixo, que era muito problemática. Fomos chamados para reuniões, acabou que fomos uma das primeiras comunidades a receber o laranjão – a lixeira grande da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana)”, conta.

Diante da falta de canais diretos com o poder público, boa parte da população começou a entender o CDD Acontece como uma associação de moradores. Acontecia algum problema no esgoto? ‘Manda pro pessoal do CDD que eles resolvem’, era a ideia criada em torno do projeto.

Carla passou a explicar que eles não eram o poder público, nem poderiam terceirizar esse trabalho, mas jornalisticamente poderiam publicar as reclamações que chegavam. “Me repassem cinco protocolos de reclamação que aí eu vou dar a notícia”, dizia. “Não podem terceirizar para mim a solução dos problemas. Eu já tenho os meus”.

‘Para ser jornalista é preciso coragem’

“Para ser jornalista é preciso coragem. Para ser jornalista comunitário, mais coragem ainda”, é o que costuma dizer Carla sobre seu exercício diário de informar localmente. Algumas vezes ela já foi cercada por noticiar tiroteios, já foi acusada de ter “fechamento com bandido”.

“A verdade é que não gosto de dar essas notícias. Aviso quando há tiros para a comunidade se proteger. Mas quando termina, sai do ar. Se não, isso fica dias , semanas gerando visibilidade ruim para a comunidade.

A Cidade de Deus tem problemas sim, mas somos muito mais do que isso. O estado é super ausente, mas os moradores são super presentes” (Carla Siccos)

Desde 2017, a redação saiu da casa de Carla, passou pelo espaço de uma academia e agora está em um coworking criado pela jornalista, o Favelativa. “Dentro do coworking, além da redação do CDD Acontece terão outras movimentações para o fortalecimento do empreendedorismo local”.

O veículo possui outras parcerias com a comunidade, como a divulgação de anúncios. “Minha imagem virou uma referência. O que, infelizmente, atrai políticos querendo colar na gente, doar cestas básicas. Eu nego. Tenho pavor de político”, alerta.

Embora algumas empresas procurem o CDD Acontece para anunciar, é o público empreendedor da própria comunidade que forma a principal fonte de renda do jornal. “Não temos experiência de participar de editais. A nossa única renda aqui são os anúncios. A gente tem anúncios para empreendedor da comunidade”, conta. Diante da pandemia, Carla conversou com um por um, combinando formas de manutenção dos anúncios, já que os comércios locais também foram prejudicados.

“Não quero sair da Cidade de Deus. Aqui passei minha adolescência, tive meu filho, fiz meus melhores amigos. Diariamente, eu vivo as dores e as delícias de ser uma comunicadora da favela. É como se fosse o meu grito de cidadania. É uma forma que eu tenho de agradecer a essa comunidade. É uma obrigação de tentar melhorar o lugar que eu vivo”.

Este conteúdo faz parte do Quebrada Comunica, projeto de fortalecimento do campo da comunicação periférica da cidade de São Paulo idealizado pela Rede Jornalistas das Periferias em parceria com o Instituto de Referência Negra Peregum, Uneafro Brasil e o Fórum de Comunicação e Territórios.

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