Para mães de bebês, parar uma hora do dia para conceder uma entrevista é uma tarefa difícil. Foi amamentando sua filha Eloah nos braços que a ativista Anielle Franco conversou com o Nós, mulheres da periferia, dias depois do marco de três anos da morte de sua irmã, Marielle Franco.

Uma semana antes, os pedidos de entrevista não paravam de chegar. Desde 2018, quando Marielle foi brutalmente assassinada, o dia 14 de março nunca mais foi o mesmo. Assim como todos os demais dias do ano.

Neste domingo (9), Anielle celebra seu primeiro Dia das Mães com as duas filhas. Maria, de 5 anos, e Eloah, que nasceu em julho de 2020. No entanto, é a quarta vez que ela passa essa data com sua mãe, Marinete Silva, sem a irmã do lado.

“Que nenhuma mãe perca mais seu filho e que nenhuma filha tenha que enterrar sua mãe. A ordem da vida não pode se inverter de forma tão abrupta, ao ponto do segundo domingo de maio passar a ser motivo de choro e não mais de celebrações”, escreveu em sua coluna no UOL Plural.

Marielle era madrinha de sua primeira filha e esteve com ela durante todo o período de gestação. “Ela é madrinha da Mariah. Ela curtiu muito a gravidez comigo, tomou conta de tudo, participou bastante, de muita coisa”.

Desde o assassinato brutal da vereadora, Anielle se tornou guardiã da memória da irmã. Em 14 de março de 2020, ela e a família fundaram o Instituto Marielle Franco, como mais uma forma de levar adiante os ensinamentos e legado da irmã, mãe, filha, vereadora, favelada e tantos outros adjetivos que faziam de Marielle alguém tão plural.

“Temos o legado da Mari na política partidária e parlamentar. Ele é enorme. Mas a gente não pode definir ela como uma única coisa. Ela é muito plural”, defende a irmã, que agora está finalizando a dissertação de mestrado cujo o tema é o instituto, as escrevivências memórias, legado e como o espaço contribui diretamente na vida das mulheres negras.

“É enorme a importância de narrar nossas histórias. Não temos que esperar as mulheres negras serem assassinadas para elas virarem protagonistas”, pontua Anielle, que é jornalista de formação, mestre em Letras e, a partir de julho, começa a organizar uma HQ (História em Quadrinho) voltada a jovens sobre a história de Marielle e também um livro infantil.

 

“Não temos que esperar as mulheres negras serem assassinadas para elas virarem protagonistas”

O instituto tem servido ainda à própria família como parte do processo se ressignificação da dor e do luto. “O meu pai é mais recluso, ele fica mais quietinho. Minha mãe externa mais. Minha mãe ainda sofre muito. Meu pai se chora, chora quietinho. Minha mãe chora a todo momento. Por isso, acho importante o instituto, para transformação dessa dor. Foi importante pra eles”.

Embora a frase “do luto à luta” seja amplamente disseminada entre os movimentos sociais, Anielle conta que não é tão fácil quanto parece transformar a dor da perda. “A gente fala muito do luto à luta, mas ainda é muito difícil tomar decisão, muito difícil lidar com coisas erradas em torno da memória dela”, conta. “Nasce daí o Instituto. Viramos a figura legítima da família da Mari, e ao mesmo tempo buscamos um espaço para lutar”.

família de anielle e marielle franco

Depois do assassinato, uma nova Anielle também precisou nascer. “Tudo mudou. Desde o lado espiritual, até o lado racional”.

Crédito: Arquivo pessoal

Parceria e cuidado

Caçula da família, Anielle é cinco anos mais nova que Marielle. Mesmo com a diferença de idade, as duas sempre seguiram muito parceiras. Marielle era o tipo de irmã que cuidava, acolhia e dividia segredos.

Na adolescência, tudo isso de ir para baile funk escondido, beijar na boca, passa muito pela parceria com Marielle. Mas, até as memórias mais engraçadas, tem a ver com o vôlei”, diz Anielle rindo.

Uma das lembranças mais tenras que Anielle traz da infância com a irmã, é quando Marielle levava marmita para ela na escola.

Anielle sempre foi fã de esportes. Ela gostava de jogar bola e vivia nas quadras do Conjunto Esperança, no Complexo da Maré.  “Uma das coisas que tenho muito na minha cabeça, era o cuidado da Mari comigo. A gente tinha uma pessoa que cuidava da gente, levava para a escola, mas ela sempre cuidava participando da minha reunião”.

Era Marielle também que levava marmita com a comida preparada pela mãe para a mais nova, quando ela começou a jogar vôlei, aos 13 anos. Sem dinheiro para comprar alguma coisa para matar a fome, Marielle ia até a escola onde Anielle treinava.

“Na nossa casa, o que a gente mais gostava era macarrão ao alho e óleo, feijão, farofa e frango. Podia faltar qualquer coisa, menos o feijão e a farofa. Overdose de carboidrato”, conta Anielle, que luta hoje para que todas as memórias da irmã sejam preservadas, não só a trajetória política.

Marielle também foi ombro e porto quando Anielle morou nos Estados Unidos. Ela tinha apenas 16 anos e recebia ajuda da irmã e dos pais para estudar Inglês. Ficou, aproximadamente, 12 anos no país, onde também se formou em jornalismo. Quando pensava em voltar e desistir, era a Marielle que ela recorria:

“Todo esse meu tempo lá ela teve muita participação. Fosse via Skype, fosse via MSN na época. Ela sempre se fazia presente, principalmente nas dificuldades”.

Certa vez, Anielle participou de um torneio em uma faculdade majoritariamente branca. “Fui muito xingada no final e liguei para ela dizendo que iria desistir, porque não aguentava mais. E falei ‘eu vou voltar, esse pessoal é muito preconceituoso’. Eles me chamavam de puta, porque eram o único palavrão que sabiam”.

Depois de ouvir Anielle, Marielle apenas disse: ‘ah, não, a gente está aqui ralando pra caralho pra você estudar inglês, você não vai voltar nada”, conta rindo, agora.“Eu nunca falava isso pra minha mãe, falava pra ela. São memórias de lá, a maior parte delas com muito dificuldade, foi muito difícil, mas ela me ajudando a não desistir”.

‘Penso no que a Marielle faria’

Mesmo tendo crescido em um mesmo lar, Anielle consegue ver as diferenças entre as duas. “Temos coisas parecidas, mas ao mesmo tempo ela costumava me sacanear dizendo que eu era mais emotiva do que ela. E isso é algo que me atrapalha de verdade. Se falam mal ou fazem algo sobre ela que não gosto, eu vou para o embate. Agora, estou dando uma melhorada.”

Depois do assassinato, uma nova Anielle também precisou nascer. “Tudo mudou. Desde o lado espiritual, até o lado racional”.

Ela conta que teve que aprender a se proteger das mais diversas formas. “Você tem que se proteger por todos os lados, porque todo mundo olha pra gente como se estivéssemos ricos e milionários, e não estamos. Muda o nossa andar na rua, o medo, a segurança”.

O espaço encontrado foi dentro das memórias da irmã. “O instituto nasce daí também, além da questão do legado, eu estava precisando agir”.

A vida se tornou mais agitada e também perigosa, mas vem, pouco a pouco, ganhando novos sentidos. “Eu tenho duas filhas pequenas, eu penso muito nelas e o futuro que eu quero pra elas ao mesmo tempo. Me acovardar não é hoje uma opção. A gente teve muito que fazer e se proteger ao mesmo tempo”.

Hoje, quando precisa resolver qualquer questão, ela se reconecta à irmã. “Tem uma frase que carrego comigo desde o primeiro dia, 14 de março, quando eu fui no local do crime: o que é que ela faria se ela tivesse aqui?’, e aí eu sigo”.

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