Para uma escritora, a memória passa pelos dedos até se transformar em verbetes. Para a minha vó, uma senhorinha doce, mas forte feito um leão, essa memória passa mesmo é pela alma. Nesse 26 de julho, que se comemora o Dia das Avós, eu trago aqui a história de um vózinha da periferia de Perus, a minha Laurentina de Almeida André, hoje com 93 anos e 8 meses de idade.

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Vó Laurentina na varanda| Jéssica Moreira

Nascida no dia 15 de novembro em 1923, em uma fazenda de Piracaia, no interior de São Paulo, Laurentina não pode estudar, não escreve, nem lê. Mas dinheiro ela sabe contar, sim senhor. E, apesar da idade avançada, lembra de todas as datas e nomes de pessoas daquela época da fazenda. “Eu tenho muito medo de perder a memória, mas eu rezo todos os dias para o Divino Espírito Santo não deixar isso acontecer, já que meu falecido marido morreu com Alzheimer”.

Pra mim, só é velho quem tem mais idade que ela. Afinal, a vóinha caminha bem, sem precisar se escorar em nenhum tipo de acessório. A comida aqui em casa é sempre por sua conta. E aí de quem tentar fazer o contrário. As rugas em seu rosto parecem um mapa, indicando os caminhos pelos quais esta vó percorreu durante os seus quase noventa e quatro anos. São linha finas, mas cheias de memória e sabedoria.

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Vó Laurentina na inauguração da Exposição Quem Somos [ Por Nós], do Nós, mulheres da periferia em 2015 | Thaís Santana

São 10h25 da manhã. Já faz quatro horas que ela se levantou da cama. Começa, agora, a preparar o almoço. “Acordo sempre umas cinco e pouco”. Diz ela, enquanto amarra o lenço na cabeça. Não sabe explicar por que acorda tão cedo. Sempre foi assim, desde os tempos que morava no interior. “Tem muito o quê fazer. A turma vai trabalhar e tem muito que fazer da vida, na casa”.

Era sexta-feira. Dia de peixe na casa da família da vó Laurentina. Ela pede pra eu acompanhá-la até a pia do rancho, para limpar o peixe numa bacia de alumínio. Enquanto responde às minhas perguntas, alegre, vai tirando os espinhos da sardinha que, logo, seria frita.

A maior parte do tempo matinal a vó Laurentina passa na cozinha, onde o tempo nunca para, sempre se mexe entre uma colher e outra dentro da panela.  E esse tempo, para ela, parece estar em uma constante ebulição, fazendo o horário do almoço chegar mais rápido que o esperado.

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Quando pergunto a data de seu nascimento, ela sempre diz “põe trinta de novembro, data de registro. O dia no nascimento, quinze de novembro, morreu”. “Mas, vó, seu signo vai mudar se você colocar essa data”, retruco, querendo convencê-la. E como boa escorpiana teimosa, ela enfatiza com um ponto final. “É isso mesmo, eu sou sagitário, então!”.

E entre um prato e outro, Laurentina vai contando sua história, com uma riqueza de detalhes que impressiona, já que são coisas que se passaram há setenta ou oitenta anos. “Com cinco anos eu já fazia serviço: varria a casa, escolhia feijão e cuidava do meu irmãozinho, o compadre Zezinho”. Enquanto fala, tira o cabelo do rosto e enxuga as mãos no avental. Desde pequena eu tenho vontade de vestir seus aventais. Azuis, de renda, de retalhos.

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Vó Laurentina no quintal azul| Jéssica Moreira

Até sua brincadeira era coisa de gente grande. “Brincava de casinha na beira da casa. Pegava o caco da tigela que quebrava ou da latinha e colocava em um armarinho de tijolo, feito de bloco e tábua de madeira como prateleira. Eu mesma que fazia”, conta orgulhosa e feliz.

Do pai, Sebastião Vicente de Almeida, lembra que trabalhava na fazenda na produção de tijolos. Quando nossa vózinha tinha 13 anos, ele partiu, ainda aos 47 anos de idade. Naquela época, sua mãe, a bisa Paula Olímpia de Almeida, teve uma doença no rim e, pouco antes de enterrar o marido, ficou por muito tempo internada na Santa Casa.

Laurentina, que era a segunda filha de uma família de três meninos e três meninas, teve que carpir muita roça para sustentar a família, junto ao irmão mais velho, o Dito. “Oh se foi dureza, muito dureza. Eu achava falta nele. Foi difícil tudo, eu com meu irmão carecemos de ir trabalhar pra não passar fome, nóis dois trabalhava, pra no fim de semana fazer compra. Eu ia fazer compra numa venda que tinha na fazenda. Que mercado o quê, era vendinha pra vender as coisa pra pobre. Minha vida foi muito dura, mas passou tudo”.

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Vó capinando | Jéssica Moreira

Mas as lembranças do Dito vão além, foi com ele que ela teve as primeiras brigas da vida. O motivo, um chapéu de pano. “Eu brigava com meu irmão, eu tomava o chapéu dele pra mim. Porque eu queria pra mim o chapéu de pano, ué”, lembra, sorrindo, do irmão que há muito já faleceu.  Ela é, inclusive, a única viva da família. O Dito e o Zézinho morreram de cirrose, de tanto beber. Os outros morreram todos ainda quando crianças. “Não sei do quê, ficavam doente e morriam”.

Amor de interior

Mas foi ainda no sítio de Piracaia que Laurentina encontrou, pela primeira vez, Sebastião André, meu vô. Ela tinha 9 anos, ele 14. Virou padrinho do Zézinho e amigo próximo da família. Nessa época, a menina não queria, nem tinha idade pra namorar. Vez ou outra, visitavam a casa um do outro, mas nem passava pela cabeça que ficariam 69 anos juntos.

Aí que a menina começou a crescer e o Bastião também. “Ele mandava recado pela irmã dele, a Rosa. Ela falava que o bastião tava querendo me namorar. Eu sentia que eu não queria, depois resolvi querer. Eu tinha 14 anos”. Depois, um de seus amigos, João Querino, perguntou à Laurentina se ela queria mesmo namorar com o Bastião, pois ele iria levar o sim pro moço.  “Não dava beijo na boca, nunca, não tinha essa loucura de beijo, engolir a boca um de outro. Namorado não relava a mão na namorada, enquanto não casasse. Conversava só, que beijo na boca o quê”.

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Vó Laurentina preparando o almoço | Jéssica Moreira

“Eu casei no dia 23 de dezembro, foi na fazenda, mas não teve nada, não, teve uma jantinha….Casei na igreja e no civil. Vestido branco, véu….cantaram a noite inteira, mas não foi tirado foto. Cantaram a noite inteira moda de viola, essas moda de viola. Tinha muita gente que tocava. E o Bastião tocava. Essas moda de viola que bate o pé na televisão? Em qualquer festinha ou reza que tinha, amanheciam tocando”.

Teve a primeira filha aos 18. Dos oito filhos, dois morreram ainda quando crianças e dois se foram há pouco tempo, um seguido do outro. “Desde crianças, quando via os dois brincando, o Tião e o Tiago, eu já sabia que um não podia viver sem o outro”. 

Das tantas fazendas que moraram, foi na fazenda dos Pedroso, em Perus, que finalmente conseguiram comprar um terreninho e levantar, com as próprias mãos, a casa que tanto almejavam. Bastião que fez a planta e Tina não tinha tempo ruim, não, levantava os blocos também, junto aos filhos ainda pequenos: Tiago havia acabado de nascer, Tião, Luzia, João, Inácio e Cecília, os mais velhos. O telhado, hoje fininho, foi doado pela igreja católica do bairro e, naquela época, já era velho.

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Vó Laurentina colhendo feijão | Jéssica Moreira

A casa tem mais de 50 anos. Outra já foi construída nos fundos. No passado, era no terreno de terra que o milho era plantado e um dia reservado à pamonha e boneca de sabugo. Hoje, resta apenas um trechinho de terra, onde a vó capina o pouco de mato que ainda resta. Penso eu que ali ela joga fora toda a tristeza, os lutos que a acompanham nesses tantos anos de vida, as saudades que nunca cessam.

Dos seis que cresceram, todos se casaram e lhe deram netos e, agora, bisnetos. “Todos os meus filhos me amam”. Hoje, é vó de 16 netos e 7 bisnetos. ” Agora, só estou eu me virando com meus filhos, meus netos, minhas noras, bisnetos”. Na rua onde mora, todo mundo a conhece e a chama de vó, afinal, é a mais velha da vizinhança. Se orgulha quando alguém diz que viu sua foto no Facebook “é, eu sou a vó de Perus”!  Mas todos os dias, pelo menos um tanto, ela traz alguma lembrança do vô, que morreu há mais de 10 anos.

“No total, foram 69 anos de convivência”, comenta sobre o marido, com saudosismo e um pouco de tristeza. Nos últimos quinze anos de vida de Sebastião, ele já não se lembrava de nada. Neste momento, uma de suas noras aparece e Laurentina comenta sorrindo “Ela está me tirando lá do fundo do mar para ficar me especulando”. Depois, volta a falar do marido com uma tristeza no olhar, pois como o conheceu durante quase setenta anos, foi muito angustiante para ela ver um homem tão forte e inteligente, como era seu Sebastião, acabar a vida em cima de uma cama, sem lembrar das modas de viola que, durante toda a vida, havia composto.

“Tudo começou quando ele tinha uns setenta e cinco anos, depois que foi assaltado. Caiu em depressão e não queria mais sair de casa. Não lembrava da netaiada, nem dos filhos.  O Bastião não aceitava também a idade que tinha. Ele não era como eu, que aceito ser velha. Ele não queria envelhecer”, fala já conformada.

E da senhora, ele também se esqueceu?, questiono.  “Não”, diz incisiva. “De mim ele sempre lembrou”, diz orgulhosa.

Mexe na testa, cruza as mãos. Pensa e conclui: “Perder a memória é coisa muito triste. É esquecer da vida. Aí não tem nem mais vontade de viver mais”. Mas o maior receio de Laurentina está em algo muito mais subjetivo que a própria memória. “Tenho medo de esquecer das minhas rezas. Espero não perder nunca, se Deus quiser, porque a reza é a defesa da gente e da nossa família”.

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Vó Laurentina diz que ela é a vó de Perus | Jéssica Moreira

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