Falta oxigênio.

A água do arroz tá secando, minha sobrinha enrola pra colocar a comida: “põe feijão nesse prato, Maria”.

A moça grita, assistimos, estarrecidos: “Quem tiver oxigênio, por favor, traga”. É sufocante. Tem um nó na minha garganta, a comida para. Como é possível? Dezenas de pessoas sem ar.

Tem reunião em meia hora. Come, lava a louça, volta. Mas, falta oxigênio no hospital em Manaus. Oxigênio!

Os três meninos de Belford Roxo continuam desaparecidos. Como acordar, seguir, sem saber onde estão seus filhos? Como é possível?

O João Pedro tinha 14 anos, 14 anos e uma bala de fuzil no corpo. Guilherme tinha 15. Ágatha tinha 8 e parecia a minha Maria.

A Maju Coutinho me conta mais um absurdo. Ainda não tem vacina, tem Cloroquina. Não tem oxigênio, tem vala comum, todos os corpos no mesmo buraco, um buraco.

O pior momento da pandemia, a lunática grita: “me intuba” na rave do ano novo.

Meu trabalho tá todo atrasado e a Maria ainda não tomou banho.

É sufocante: a Covid-19, a polícia, o governo, a necessidade de seguir.

Quanto mais eu corro, mais inerte estou. Estamos.

Seco a lágrima que não caiu do olho. Como é possível chorar tantas mortes?

Aliás, você já viu o preço da batata, da carne? Eu preciso trabalhar. Precisamos. Minha irmã mesmo saiu às 4h30 da manhã hoje.

Quantas formas de nos matar eles planejaram?

Regiany Silva é designer, comunicadora, uma das confundadoras do Nós, mulheres da periferia e moradora de Cohab José Bonifácio, na zona leste de SP.

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