“Carrego comigo o legado de minha mãe, de minha avó.
E de tantas outras que me antecederam. O grito que
carrego também é delas.” (Jenyffer Nascimento)

Germinou no interior da Bahia, filha do encontro entre o agreste e o sertão, a minha avó. Das paisagens de xique-xique, macambira e mandacaru brotou a resiliência, a força, e todos os seus espinhos, instrumentos de sobrevivência da mulher negra nordestina sertaneja.  Todos os espinhos, testemunhei, abriram-se em uma explosão de flores amarelas, da viva cor do sol do sertão, que era o amor de minha avó. Deraldina. Vó Dê, flor da Caatinga.

Ainda menina, minha avó atravessou, devota em romaria, da Bahia até São Paulo. Na mala, as promessas frágeis e incertas de um futuro menos árido na terra da garoa que ainda despertava, se erguendo em edifícios e despontando nos trilhos dos bondes. De companhia, o silêncio e aquele lenço fininho de chita que envolvia os cabelos pretos, crespos, lindos.

Minha avó é a primeira referência que eu tenho de uma mulher negra, e só para ela construí o altar onde a figura dela reina absoluta em meu coração, e também de onde parto para visitar toda sorte de memórias das histórias que ela me contou, de um passado que eu não vivi mas conheço como o mapa de linhas que guardo escondido na palma da mão.

Basta um olhar despercebido na aliança dela, que hoje é minha, que o baú da memória se abre tal qual o rio que cruza o sertão e de lá emerge Maria Maximina, minha bisavó, a heroína mais valente do cordel que eu nunca escrevi, e uma das personagens mais queridas das tantas histórias da minha avó.

E das histórias, vó Dê narrava como ninguém. Destas tradições onde a oradora destila os verbos como se fossem feitos de mel e é também capaz de tecer um universo na chama de uma vela.

As princesas que desbravaram a mata branca no meio da noite atrás dos sapos que certamente seriam príncipes são a minha maior referência de faz-de-conta, assim como a cascavel falante, de língua quente, envolvente e sedutora, com seu chocalho de anúncio foi a minha primeira aula de história da natureza. E aquele pobre moço atirado ao mandacaru pelo bando de lampião, infinitamente mais emocionante do que qualquer construção do Velho Oeste. E tudo isso acontecia ali, na nossa cozinha.

Ainda hoje, e para todo o meu sempre, fecho os olhos e encontro minha avó sentada à mesa, à noite, olhos cerrados e as mãos postas, um terço clarinho entre os dedos. Todas as noites, vó Dê rezava como quem pede perdão aos pecados que nunca foram dela, os pecados do mundo. O peso do mundo nos ombros da minha avó, mulher negra nordestina sertaneja de passos pequenos e de grande alcance.

Da morada de sua religiosidade, vó Dê fincou a oração silenciosa dentro do meu coração. A mesma oração que eu faço quando encaro o espelho e vejo refletida a minha imagem e os sonhos dela, assim como os sonhos de Maximina e de todas que nos antecederam.

A minha oração vem de uma longa e desconhecida linhagem de mulheres negras africanas, nordestinas e tantas outras, em uma trilha traçada no sol a pino refletido em nossa pele e trançada com linhas e flores em nossos cabelos.

Da minha vó Dê, vive em mim a saudade de sempre e o maior amor que eu já vi, pairando assim no ar como uma névoa de proteção ancestral que me acompanha no mundo e me traz de volta para casa em segurança. Eu não ando só porque meus passos também são dela. E delas. Axé!

Natália Vieira, 24 anos, é estudante de Ciências Biológicas e moradora da Vila Mara, zona leste de São Paulo. 

“A escrita para mim sempre foi esse exercício de vestir a pele do avesso, porque o que eu quero comunicar é aquilo que está por dentro mas também na superfície, assim meio no limite entre o dentro e o fora, à flor da pele. É uma escrita muito intimista que nasceu no meu processo de construção de identidade e reconhecimento enquanto mulher negra, e talvez por isso eu nunca tenha tentado me dividir assim publicamente. Nada mais significativo que a primeira tentativa fosse dedicada à minha avó”. 

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