Bianca Pedrina

Bianca é jornalista, cofundadora e gestora operacional do Nós, mulheres da periferia e comentarista de BBB nas horas vagas.

O espaço “Nossas Vozes” tem o objetivo de valorizar a subjetividade, trajetória e a opinião de mulheres. Os textos divulgados aqui não refletem necessariamente a opinião do Nós.

Na edição deste ano do reality show BBB (Big Brother Brasil) o envolvimento da participante Carla Diaz com Arthur Picoli tem gerado repercussão. Em linhas gerais, ela está ficando com um cara que visivelmente não está se doando na mesma medida.

Quem acompanha o programa está vendo o “papel de trouxa” que a sister está se submetendo em nome dessa relação.

Fazendo um parêntese importante, relações assim, desequilibradas, não acontecem apenas com casais heteronormativos.

A abusividade pode também ocorrer em entre lésbicas, gays e afetividades outras. Podemos também inverter os papeis e a abusiva ser a mulher. Ninguém está livre!

Independente de gostar ou não da Carla no jogo, o papel dela nesta relação é ceder, dar segundas chances e tentar entender esse jeito “marrento” de Arthur – como a sister mesmo chama. Tudo isso em nome de uma paixão. Essa postura me fez pensar em como ela tem ignorando seu sofrimento e desconforto diante de uma relação na qual a troca é visivelmente desfavorável para ela.

Carla Diaz sofrendo por ser ignorada por Arthur. Crédito: Divulgação

O ranço já garantido para Arthur acabou sobrando para Carla, aparentemente iludida e acreditando no real afeto por parte de seu pretendente. Se Arthur estiver de fato apaixonado por ela, nada anula a postura dele em seguir tratando a participante de uma maneira – para ser amena – pouco respeitosa.

Eu segui fazendo meu papel de telespectadora e julguei mesmo a Carla. Chamei de trouxa e fui pouco acolhedora com as posturas da participante, afinal, “sem tempo, irmã”. A ficha caiu quando entendi, de alguma maneira, já ter assumido a mesma postura em relacionamentos existentes só na minha cabeça.

Boys que sumiam e depois voltavam confundido minha mente, quando na real não queriam nada com nada e não verbalizavam isso.

A trouxa que mora em mim saúda a trouxa que mora em você.  Era espelho, por isso, tinha tanto ranço de Carla.

 

 

 

 

 

Se ela agisse diferente, me traria uma alma lavada e me faria acreditar ser possível a gente se levantar quando o amor não estiver sendo servido. (Já disse Nina Simone)

Mas entendi o cenário vivido por ela; o mesmo já vivido por mim algumas vezes em  que quebrei a cara. Não me levantei, fiquei e me lasquei. Vem de golpe e que vou de vítima. Decidi parar de apontar Carla, por estar tentando viver uma paixão (ou ilusão). O ponto, para mim,  às vezes, é o custo de tudo isso ser muito alto.

A gente se anula, não impõe limites e acaba deixando de lado uma paixão, essa inegociável, por nós mesmas.

Decidi parar de julgar Carla e de alguma maneira também parar de me julgar, porque eu já fui muito trouxa, talvez esteja sendo agora (nunca saberemos) e você que está lendo esse texto também.

Não quero mais culpá-la por se entregar a essa paixão, porque quando a gente gosta fica cega.

Ao invés disso, quero tentar me acolher e acolher as pessoas em minha volta, que mesmo sabendo estarem em uma relação desigual, ainda assim, não tem forças para sair dela.

O isolamento do BBB, assim como o isolamento provocado por essa pandemia, tem deixado a gente mais vulnerável. Situações que nos fazem enxergar afeto em lugares inexistentes.

Sister pede conselhos a outro participante sobre relacionamento vivido com Arthur. Crédito: Divulgação

A carência, insegurança e todas as camadas sociais impostas a nós, mulheres, ainda fazem ser recorrente estarmos nesses lugares de merda.

Apesar disso, desejo a Carla e a todas na mesma situação de cegueira, que consigam acessar outros sentidos, como o da intuição. No fundo sabemos quando algo está fora do lugar e cabe a nós sair e realinhar nossas rotas.

Carla está no paredão de eliminação desta semana. Talvez saia pelas atitudes não tomadas por ela e esperadas por nós diante dessa relação.

Fazendo um paralelo com a vida real, também aqui de fora, quantas vezes deixamos de dar prioridade para coisas realmente importantes em nossas vidas para dar moral para macho escroto?

Quantas outras tentamos entender o jeito dos caras e as formas que tem de expressar afeto, mesmo que sejam ainda insuficientes para nós?

 

 

 

 

 

 

A síndrome da salvadora, com frase do tipo: “é o jeito dele”, “só está perdido”  e eu “vou ajudá-lo” só reforçam comportamentos nos quais achamos ter o poder de resgatar homens.

Na real, esse salvamento é pessoal e se existir  vontade para isso.

Traz outra camada para reprodução de mais violência contra mulheres, que deveriam estar pensando em salvar a si mesmas.

Não respeitamos nossa individualidade em nome de outra pessoa, que não está tão a fim da gente ou até pode estar, mas não encara isso com a responsabilidade afetiva necessária.

Eu repensei meu ranço com relação a Carla e sua insistência em permanecer, mesmo o cara dando vários sinais de ser “cilada bino”.

Talvez só tenhamos que acolher e tentar entender o tempo de cada uma de nós. Cedo ou tarde, infelizmente, o tombo vem.

Às vezes, se jogar de cabeça em uma relação rasa, pode gerar estragos inimagináveis, não podemos subestimar o poder de destruição de um coração partido.

Mas o tempo de cada uma é único. Minha torcida é para Carla perceber onde está e se não perceber consiga se levantar com o apoio que merece, o meu ela já tem.

Histórico da novela para quem não assiste BBB

Arthur investiu em Carla, ela cedeu e depois de um tempo de envolvimento e divergências no jogo ele começou a se afastar. Até aí, tudo bem, desde que houvesse diálogo, afinal, ninguém é obrigado a ficar.

Ao contrário disso, Arthur seguiu por um tempo a linha de não conseguir verbalizar o que sentia e usava isso como escudo. Nas entrelinhas, ele seguiu falando de seus sentimentos com todo mundo, menos com ela. A ignorava, falava mal pelas costas ou na frente, mesmo.

Chata entre outros adjetivos nada agradáveis foram usados contra Carla, que seguia insistindo e sendo mais trouxa ainda. A sister teve a chance de ver as “escrotices” de Arthur ao ir para um paredão falso e ter acesso a imagens e conversas de participantes sobre o jogo.

O público deu a ela esse privilégio, ao acreditar que iria ver quem realmente era o boy com quem estava se metendo.

Eu mesma defendi que ela fosse a escolhida e que voltasse tocando o terror contra Arthur e ponto fim àquela relação de merda que só estava acabando com sua autoestima e com sua atuação no reality.

Doce a minha ilusão. Carla tinha acesso limitado aos áudios e vídeos e não viu Arthur falando mal ao seu respeito, tampouco da relação dos dois.

Resumo da novela: ela voltou se ajoelhando – literalmente falando – com a seguinte proposta: “Arthur, você topa ser meu parceiro no jogo e na vida”. Ele, pasmem, respondeu com um “partiu”.

A raiva consumiu minha alma quando eu vi a cena. Senti vergonha alheia. Ela ter se ajoelhado para Arthur que deu a resposta mais babaca que se pode esperar diante de um ato de tanta entrega por parte dela.

Qual a chance de uma pessoa se ajoelhar para você pedindo parceira no jogo e na vida e a resposta ser “partiu”?

Mas não para por aí. A participante voltou com várias informações sobre conversas e fez a linha de não abrir o que tinha visto.

Só pedia aos seus aliados de jogo para abrirem o olho, enquanto ela mesma estava vendada para a relação ao qual estava se submetendo.

Muitas pessoas ficaram em choque com a continuidade do afastamento do brother mesmo diante das investidas de Carla, que sempre o procurou enquanto ele continuava a evitando, se isolando e ignorando sua existência.

O jogo é dinâmico, a relação deles também, e deu uma virada quando Carla pareceu abrir o olho e decidir não procurar mais o boy, que seguia literalmente cagando na cabeça dela.

Durou pouco. Sabe aquele cara que some e depois ressurge do além, porque percebeu sua atitude em ir embora, mas que te quer ali na prateleira. Pois é, Arthur, para mim, é dessa linha.

O brother, não sabemos se por estratégia de jogo, decidiu abaixar a guarda e se declarar apaixonado por Carla.

Ela, depois de algumas investidas dele, até bem incisivas, com pedidos de expulsão dele aqui fora, devido a forçar um beijo na sister, novamente se aproximou dela e sabe-se lá o que será dessa novela mexicana.

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