Sâmia Teixeira

Sâmia Gabriela Teixeira é mãe de gêmeas e jornalista. Foi assessora da União Nacional Islâmica, onde criou o jornal Iqra. Atualmente integra a comunicação da CSP-Conlutas, escreve sobre movimentos sociais e mundo sindical internacional.

Em 21 de fevereiro deste ano, a greve das trabalhadoras e dos trabalhadores da Notimex, agência estatal mexicana, completou dois anos.

A luta, encabeçada pela entidade sindical SutNotimex, teve início contra violações do Acordo Coletivo de Trabalho que levaram a demissões injustificadas, falta de revisão contratual e salarial, e seguiu em meio à pandemia da covid-19, deixando inúmeros desempregados em uma situação delicada de crise sanitária. Mais de 20 familiares de trabalhadores faleceram em decorrência do coronavírus.

Além disso, o México é um dos países mais perigosos para o exercício do jornalismo. Somente em 2022, nove assassinatos e duas tentativas frustradas contra a vida de trabalhadores da categoria foram registrados. 

Uma das vítimas, Lourdes Maldonado, chegou a pedir ajuda ao presidente Andrés Manuel López Obrador em uma conferência de imprensa, após sofrer demissão de um veículo dirigido por um político aliado ao governo, Jaime Bonilla. 

Amedrontada com a possibilidade de ser mais um número na assombrosa estatística de assassinatos de jornalistas no país, ela alertou que “ele é um personagem forte na política, que não pretende me pagar e que entrou com mandado de segurança contra mim”.

Maldonado foi assassinada com arma de fogo, enquanto estava em um veículo, uma semana depois de um colega de trabalho, o fotojornalista Margarito Martínez, ser morto na mesma cidade.

Cerca de 150 jornalistas já foram assassinados no país desde 2000, de acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras.

Uma questão de gênero

O México é um dos países mais perigosos para o exercício do jornalismo.

Crédito: SutNotimex Sindicato Único de Trabajadores de Notimex

Um dos pontos importantes dessa greve é que cerca de 80% dos grevistas são mulheres e jornalistas. 

Uma delas, uma jovem gestante de oito meses, foi demitida por expor sua opinião a respeito do descumprimento do ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho). 

Ela teria sido colocada para fora do prédio e condicionaram o direito a seu seguro saúde à assinatura do termo de acordo de rescisão.

As pessoas que tentaram ajudar ou protestaram contra a demissão devido à condição de saúde da trabalhadora também sofreram com assédio e algumas chegaram a ser demitidas após o evento.

Neste processo de conflito entre trabalhadores e empresa, a liderança da mobilização, uma mulher, foi colocada como moeda de troca nas negociações. O nome dela é Adriana Urrea e foi com ela que conversei para saber um pouco mais sobre essa luta tão longa e dura.

Perseguição escancarada

Em julho de 2021, o porta-voz da Presidência, Jesús Ramírez, declarou o seguinte sobre a mobilização na Notimex: “a greve será resolvida imediatamente e com todos os direitos dos trabalhadores garantidos em troca da secretária geral da SutNotimex, Adriana Urrea, que deve ser retirada do posto representativo”.

Uma campanha difamatória foi feita por parte de Sanjuana Martínez, diretora da Notimex, que além de perseguir jornalistas de outros veículos que tentavam dar visibilidade ao caso, assediava os grevistas, sobretudo as mulheres, as acusando de ter casos extraconjugais com funcionários da empresa.

Apesar de toda ação de constrangimento, machismo e violência, para a surpresa do governo e da agência, o processo de lutas ganhou a força que o sustenta até hoje. 

A partir desta proposta indecente de expulsão de Urrea, os grevistas exigiram respeito à liberdade de associação e definição representativa. O governo endureceu e encerrou o diálogo, abrindo ainda uma ação legal contra a jornalista. 

Urrea sofreu queixa administrativa e criminal por apropriação indevida de recursos, por uso ilegal do serviço público, a fim de colocá-la na cadeia e impedir que o movimento continuasse. Até agora, de três casos abertos, dois foram arquivados em favor da jornalista e a mobilização tem mais de 20 decisões ou ordens de autoridades emitidas contra as declarações do diretor da Notimex, favoráveis aos grevistas.

“Depois disso, veio a perseguição penal, me acusaram de uso ilícito de serviço público, queriam dar-me a ordem de prisão, mas ao fim essas tentativas de criminalização sempre foram rechaçadas, porque não havia motivos, nenhum elemento de que eu havia cometido algum delito”, contou a jornalista.

Em novembro de 2020, a SutNotimex entrou com pedido de imputabilidade e obteve “amparo judicial desta solicitação à autoridade laboral, para que determine quem é responsável pelo conflito e como isso se resolve”, relatou a jornalista. 

A Notimex reivindicou revisão e o processo tem se alargado cada vez mais.

Consciência de classe

Com tudo o que experienciou nessa longa jornada de mobilização, Urrea afirma que é preciso batalhar mais por direitos e pela liberdade de imprensa em defesa da classe trabalhadora, porque somos parte dela.

“Parte do risco que jornalistas sofrem deveria ser compensado, com as condições laborais que deveríamos ter e que não temos. No México, são poucos os veículos públicos que têm sindicatos e nos privados há menos organização sindical ainda”, compartilhou.

Com um número de mortes de trabalhadores do setor semelhante às baixas de países em situação de guerra, esta greve deveria ser vista também como parte da agressão sistemática contra a categoria, que reflete um grande problema social no país. 

“Não são só assassinatos [o que já é grave o suficiente]. São mensagens de que não podemos informar e denunciar. São para encobrir casos de corrupção, de feminicídios, o narcotráfico”, expôs a jornalista.

A falta de cultura sindical na categoria é um dos motivos, acredita Urrea, para que a classe tenha sofrido com os ataques que desencadearam nesta luta.

“Não temos uma formação sindical, mesmo sendo trabalhadores sindicalizados ou trabalhando e escrevendo matérias sobre assembleias e temas sobre o assunto. E por isso nos encontramos desprevenidos quando ocorreu com a gente, e obviamente deu muito trabalho para que nos reorganizássemos”, considerou.

Comentei com ela que, mesmo em outros países, como aqui no Brasil, os jornalistas se colocam em um lugar de não participação desse lugar de empregado e empregador, que há pouca organização nesse sentido coletivo, mesmo sendo aqui um país também muito complicado para o exercício da profissão.

Durante o IV Encontro da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas, que ocorreu em Dijon, na França, em 21 de Abril, Urrea destacou um ponto de reflexão do grupo de trabalho com outros jornalistas que vai de encontro com essa realidade que compartilhei com ela e que, definitivamente, não é particular aos mexicanos.

“Sofremos com a precarização, falta de proteção, os baixos salários, os poucos direitos, como por exemplo um horário definido para alimentação, mas ainda ainda não nos assumimos como trabalhadores. “Estamos sempre observando os conflitos da classe, mas quando ocorre do nosso lado, não nos enxergamos da mesma maneira”, disse ela ao plenário que acompanhava o evento. 

Ela seguiu apontando que para as mulheres essa postura é ainda mais prejudicial, uma vez que a nós são negados os postos mais altos de trabalho e os salários equiparados aos dos homens. Dessa maneira, a falta dessa consciência nos afunda ainda mais para uma situação de desigualdade. “Ainda somos desvalorizadas pelo fato de sermos mães ou cobradas para ter uma aparência padrão para certos cargos em que devemos aparecer nas mídias”, adicionou.

Por nossas vidas

No México, greve histórica movida por mulheres jornalistas completa mais de 2 anos

A falta de cultura sindical na categoria é um dos motivos, acredita Urrea, para que a classe tenha sofrido com os ataques que desencadearam nesta luta.

Crédito: SutNotimex Sindicato Único de Trabajadores de Notimex

Segundo um levantamento de mortes de jornalistas do International Press Institute, em 2021 ao menos 45 jornalistas foram assassinados em todo o mundo. As mulheres que foram mortas trabalhavam em territórios de ofensiva opressão contra mulheres como Afeganistão, Iêmen e México, conforme citação da diretora executiva da entidade, Bárbara Trionfi, o que demonstra o quanto o caráter de gênero influencia nessas mortes.

No país de Adriana Urrea, cerca de 90% dos crimes contra jornalistas ficam impunes.Nos últimos 25 anos, ao menos 150 jornalistas morreram no México.

Twitter: @AdrianaUrrea

Facebook: @adriana.urrea.568

Tik Tok: @adrianaurrea_

Por vivermos em um Brasil de milícias, nossa solidariedade com essas mulheres jornalistas deve ser não só com base no reconhecimento de nossas próprias vulnerabilidades, mas também de nos admitirmos fortes enquanto mulheres e jornalistas. Suficientemente unidas num processo de ataque global, mas que interliga nossas relações em um movimento de fortalecimento em defesa de nossos trabalhos e de nossas vidas.

Por isso, deixo o convite a quem possa interessar conhecer Adriana Urrea, bastante ativa em suas redes sociais, e acompanhar essa luta de tantos dias de acampamentos, manifestações e labuta justa e legítima por direitos não só laborais, mas também por vida, liberdade e dignidade humana.

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