As palavras nazismo e neonazismo tem ganhado espaço nos noticiários das últimas semanas. Vimos um apresentador de podcast defender a criação de um partido nessa linha e também o aumento de grupos neonazistas no país. Além disso, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e integrantes de seu governo já protagonizaram episódios de aproximação a essa ideologia

Como o assunto está na Boca do Povo,  o Nós, mulheres da periferia te explica o que é nazismo, como está inserido no Brasil atualmente e a sua relação com o racismo. 

O nazismo foi uma ideologia surgida na Alemanha no fim da década de 1910 que definia os arianos como uma raça superior. Ao mesmo tempo que judeus, negros, pessoas com deficiência e homossexuais eram vistos como inferiores. Liderado por Adolf Hitler, culminou no Holoscausto, maior genocídio do século XX que exterminou de cerca de seis milhões de judeus e outras minorias.  O neonazismo se caracteriza como um resgate da ideologia nazista no presente. Promovendo o ódio contra variados grupos, como negros, indígenas, imigrantes e feministas.

O que você precisa saber? 

Em edição do podcast Flow no dia 7 de fevereiro, o apresentador Bruno Aiub, conhecido como Monark, defendeu a criação de um partido nazista no país. Já Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos entrevistados, afirmou que a criminalização do nazismo na Alemanha foi um erro. Monark foi desligado do podcast e está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo. 

Na mesma semana,  Adrilles Jorge, comentarista da Rádio Jovem Pan fez uma saudação nazista após falar sobre o caso de Monark. Ele foi demitido da empresa. 

Os discursos nazistas não vem apenas de figuras públicas, estão também em páginas na internet. Um levantamento da Safernet indicou aumento de 60,7% nas denúncias anônimas de neonazismo na internet em 2021, em comparação ao ano anterior. A organização recebe denúncias de crimes e violações contra os Direitos Humanos na internet. 

Além disso, um mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias, que se dedica a pesquisar o neonazismo no Brasil desde 2002 mostra que houve crescimento de 270,6% de grupos neonazistas no país. 

Em que contexto isso acontece?

A presença da ideologia nazista no Brasil não é apenas algo contemporâneo. O país teve a maior filial do partido nazista fora da Alemanhã. O partido cresceu entre os anos 1928 e 1938, segundo a historiadora Ana Maria Dietrich, esteve presente em 17 estados brasileiros e contou com quase três mil membros. 

Voltando para o século XXI, o presidente Jair Bolsonaro e seu governo já deram diversos sinais de aproximação com o nazismo. Parte de seu slogan de campanha, “Brasil acima de tudo”, se assemelha a uma fala do período nazista, “Alemanha acima de tudo”. O presidente também já chegou a receber a deputada ultradireitista alemã Beatrix von Storch, neta de ministro de Hitler. A população brasileira também teve que presenciar em 2020 o então secretário especial da Cultura Roberto Alvim fazer um vídeo com menções ao nazismo.

No já mencionado episódio do podcast Flow, Monark fez a seguinte afirmação: “Se o cara quiser ser antijudeu, eu acho que ele deveria ter o direito de ser”. No Brasil, ninguém tem o direito de fazer apologia ao nazismo. 

A lei nº 7.716 define entre outras coisas que é crime “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”. A pena é de reclusão de dois a cinco anos e multa.

Como isso atinge você?

Apesar da maioria dos afetados pelo nazismo na Alemanha terem sido os judeus, a corrente política também via outros grupos como inferiores, é o caso das populações negras. Hoje em dia, ataques de grupos neonazistas também são dirigidos a esse grupo.  

Foi o caso de um rapaz negro que recebeu ataques após responder a um vídeo de jovem que fazia apologia ao nazismo, como mostrou reportagem do Fantástico

No artigo Racismo, corpo e liberdade: a filosofia do hitlerismo no Brasil hoje, a doutora em Filosofia Benedetta Bisol faz uma relação entre o nazismo e o racismo no Brasil. Ela afirma que o “hitlerismo contemporâneo” tem um caráter racista. Em pessoas brancas, essa ideologia se manifesta como uma ilusão de liberdade e autodeterminação, ao passo que o negro “é condenado a ser meramente corpo, ou a renunciar a sua corporeidade para participar, de modo sempre deficiente, de uma ‘igualdade’ branca”, diz o texto. 


Para o Nós seguir produzindo conteúdo independente e de qualidade, precisamos da sua ajuda. Acesse nossa campanha de financiamento no Catarse e veja como contribuir a partir de R$ 10

Temas: