Nesta semana, assistimos atordoadas a tomada do Afeganistão pelo Talibã, grupo fundamentalista islâmico. Uma foto com mais de 600 pessoas disputando espaço em um avião rodou as redes sociais e uma série de conteúdos sobre como esse grupo ameaça as mulheres também rodou bombou em nossas timelines. Mas em que contexto isso acontece e o que dizem as mulheres afegãs? Este é o tema da seção Na Boca do Povo de hoje.

O que você precisa saber?

No último fim de semana, o Talibã –grupo fundamentalista islâmico– ocupou completamente o poder no Afeganistão. No domingo (15), o então presidente do país, Ashraf Ghani, exilou-se do país, após integrantes do Talibã ocuparem a capital Cabul. O avanço do grupo ocorre um mês depois da retirada das tropas norte-americanas do território afegão, em julho. Essa é a guerra mais longa empreendida pelos Estados Unidos, pois durou praticamente 20 anos.

Em que contexto isso ocorre?

O Talibã nasce em meio ao contexto da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Por incrível que pareça, o grupo é criado a partir de milícias de estudantes apoiadas pelo próprio Estados Unidos e também pelo Paquistão, país vizinho. Aliás, a palavra Talibã (Talebã ou, originalmente Taleban) significa “estudante” na língua pashto, um dos idiomas oficiais do país.

O grande objetivo de todos esses atores unidos era expulsar a União Soviética, que desde 1970 ocupava o país. Com a queda do Muro de Berlin, em 1989, e a saída dos soviéticos, o grupo foi angariando ainda mais força. Na disputa territorial, derrotaram o presidente Burhanuddin Rabbani, representante e também fundador dos Mujahedin (que significa combatentes), que haviam resistido à ocupação dos soviéticos.

Baseado em um regime da Sharia –lei islâmica– completamente radical, quando subiu ao poder pela primeira vez, em 1996, o Talibã tinha como proposta a “restauração da paz e da segurança”. Com a promessa de dar fim à corrupção, diminuir a criminalidade e também viabilizar o fluxo comercial, o Talibã infringiu vários direitos humanos do povo afegão. Implementou execuções públicas em suspeitos de assassinatos ou adultério, assim como a regra de amputar ladrões. Culturalmente, proibiu televisão, música, cinema e impediu que meninas de 10 anos tivessem seu direito e acesso à educação garantidos.

Desse modo, o grupo permaneceu no domínio até 2001, quando Os Estados Unidos ocupou militarmente o país em resposta aos ataques às Torres Gêmeas ocorridos em 11 de setembro, expulsando-os do território. Durante esses 20 anos, os EUA permaneceram com suas tropas e com um “governo provisório”, com eleições consideradas “democráticas”. Uma reportagem da Folha de S. Paulo mostra que os custos da guerra aos EUA chegaram a US$ 2,3 trilhões. Milhares de pessoas foram mortas.

Mesmo assim, o grupo nunca deixou de lutar pelo poder e continuou existindo, inclusive de forma ofensiva. Em 2012, ficou internacionalmente conhecida a história de Malala Yousafzai, que lutava contra os excessos do Talibã denunciando-o no mídia internacional, e sofreu um ataque no Paquistão, sendo baleada no caminho de casa. Malala recebeu o Nobel da Paz.

Em 2018, o Talibã e os Estados Unidos realizaram conversas diretamente para um possível acordo. Em 2020, o Talibã e os Estados Unidos firmaram um acordo de paz em Doha, no Catar, no qual ficou decidido que os EUA se retirariam e o Talibã não atacaria nem as forças norte-americanas, tampouco permitiria que grupos como a Al Queda dominassem o local. No entanto, o Talibã atacou veemente forças afegãs nacionais e muito rapidamente foi dominando o território, chegando à total dominação, como estamos vendo agora com milhares de pessoas saindo do país com receio do que ele pode se tornar.

Como isso atinge você (e principalmente as mulheres afegãs)?

Com a expulsão do Talibã em 2001, algumas regras defendidas por eles foram derrubadas. As mulheres voltaram a ter o direito de trabalhar e as meninas de estudar. Com a chegada no grupo novamente ao poder, a população como um todo, e ainda mais as mulheres, temem que as antigas regras voltem a ser uma realidade no país e seus direitos infringidos, como, por exemplo, a liberdade de sair de casa sem estar acompanhada de um homem. A Revista Marie Claire produziu uma ótima postagem resumindo isso.

Uma das reflexões que você mais vai encontrar sobre as mulheres afegãs é sobre o código de vestimenta. Com a volta do Talibã, a burca que cobre dos pés à cabeça tem chance de voltar a ser obrigatória, o que alguns consideram como um dos exemplos de retrocesso para as mulheres.

No entanto, a página História Guardada, produzida por Ana Pecis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nos convida a refletir mais profundamente sobre a questão, inclusive para não cairmos no preconceito religioso a partir de uma visão ocidentalizada dos valores islâmicos.

No artigo “As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação“, Lila Abu-Lughod reflete sobre as interpretações que partem sempre de lugares culturais e religiosos islâmicos para falar sobre opressão, como o uso da burca, o que acaba desviando dos verdadeiros problemas, ligados ao neocolonialismo e imperialismo sofridos nos territórios. “A burca, por exemplo, não foi inventad apelo Talibã. Ela é a forma de cobertura das mulheres pashtun de determinadas regiões”.

Se o que ocorre lá também nos atinge, é principalmente no olhar para as mulheres e no respeito à diversidade (cultural e religiosa), apoiando-as na conquista de direitos a partir de um lugar autônomo e que parta das reflexões e movimentações que já realizam.

Para quem quer se inteirar ainda mais sobre a questão, fiz um apanhado de boas publicações no Instagram que explicam tanto o contexto quanto dão dicas de filmes que falam sobre a questão. Vocês podem acessar o guia aqui.

Com informações de BBC e Folha de S. Paulo

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