Sempre morei na periferia. Isso desde que nasci, na década de 80, quando morava no Jardim Manoel Feio, na zona leste da capital. Lá, as canções de Bezerra da Silva e Leci Brandão eram consideradas músicas de ‘malandro’. Hoje, continuo na perifa, do outro lado da cidade, no bairro Vila Zilda, conhecido popularmente como Jardim Recando Verde na zona, norte. Mas as músicas mudaram. Agora, é o som do batidão que balança nossas janelas e nos acorda pela madrugada. Isso quando não fecham a rua!

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Recanto dos Humildes, Perus | Jéssica Moreira


Gosto de morar na periferia, pois aqui todos se conhecem, sabem da vida um do outro e ainda se ajudam. Quando nos mudamos para cá, não tinha asfalto, luz e muito menos água encanada. Para construir a casa, tínhamos que pegá-la emprestado com um vizinho. Ele se chamava Seu Cruz, dando jus ao nome que carregava. Na época, ninguém pensava como iríamos devolver a água, tanto que ele já morreu e nunca teve a água de volta. Sinto saudades dele. Um português que devia ter uns 70 anos, com um palavreado nada adequado – um boca suja mesmo. Adorava tomar uma em seu próprio bar, onde consumia mais que os próprios clientes.
Todos aqui começaram a construir suas moradias juntos. A nossa é a menos acabada da rua, pode ser porque somos a menor família dela, minha mãe e eu. O bom disso é que nossos vizinhos sabem de nossas dificuldades e quando percebem que mexemos em algo na estrutura, até elogiam: “que Deus abençoe, não desanimem não”.
Quando começamos a construir a parte de cima, me chamaram no portão para avisar que as crianças da rua estavam esparramando toda a nossa areia que ficava na calçada. Agradeci o tal X9 das crianças e peguei um cabo de vassoura para resolver o problema. Mas bastou uns dois gritos e, pronto, estava tudo resolvido.
O ruim dessa proximidade entre a vizinhança é que todos percebem até quando a gente engorda ou emagrece. E não têm um pingo de vergonha de chamar a atenção: “cuidado, você deu uma engordadinha, vai ficar como eu!” Fico feliz e triste ao mesmo tempo, e até constrangida.
Outro dia cheguei com o braço enfaixado em casa e o segurança da rua logo gritou no meu portão para perguntar o que tinha acontecido. Ele estava com expressão de preocupação e disse que estava à disposição para o que precisasse. Outra vez, chamei um táxi, pois estava operada e precisava ir ao médico. Quando cheguei, não deu outra. Um vizinho me gritou e perguntou o que havia ocorrido. Logo, ele prontamente me deu uma bronca: “Por que não me chamou? Não precisava pagar táxi, somos vizinhos, estamos aqui para um ajudar o outro, orra meu!”.
Amo as pessoas e a maioria de suas atitudes. Aqui não tem uma pessoa sequer que eu diga que não vou com a cara. Tenho amizades até com os cobradores de ônibus, afinal, moro em frente ao terminal, logo, eles acabam sendo meus vizinhos. Esses trabalhadores passam oito horas ou mais de seu dia por aqui.
Ah, esses também perguntam da minha vida. Outro dia, um perguntou se eu estava bem, pois me achou abatida. Falei que estava trabalhando muito. Ele completou: “Também, te vejo sair às 5h da manhã, faço horas extras até tarde e nem te vejo chegar! Você tem que descansar, viu. A vida não pode ser só trabalhar. Vai se divertir”.
São tantas histórias e tão boas, daria para escrever um livro.