Entre 1850 e 1860, uma mulher negra, ex-escravizada e liberta, torrava, preparava e vendia café em sua casa, acompanhado de quitutes e doces. Seu nome é Maria Emília Vieira, a Maria Punga. Neste Dia do Café, 14 de abril, o Nós, mulheres da periferia conta quem foi a barista dona do primeiro café da cidade de São Paulo que se tem registro. 

O café de Maria Punga ficava próximo ao Pátio do Colégio, no Centro de São Paulo. Ela só servia a bebida quando chegavam três pessoas, pois o bule rendia três xícaras. Numa reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, intitulada “Os primeiros cafés”, de 30 de março de 1933, lê-se uma descrição do local: “casa térrea, de duas janelas de rótula e uma porta, nela demoravam todos os passantes, a saborear ‘em grandes xícaras de louça branca’ o magnífico café que, com requintes de capricho, ela torrava, moía e preparava”. 

Uma parte da clientela de Maria Punga era os estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, também no Centro de São Paulo. Foi pesquisando em diários destes alunos, homens brancos de classe média, que os integrantes do coletivo Cartografia Negra encontraram relatos sobre o café de Maria Punga. 

O Cartografia Negra se propõe apensar, revisitar, conhecer e ressignificar alguns territórios negros históricos da cidade. Lugares de resistência ou espaços que foram utilizados para venda, tortura ou execuções de pessoas escravizadas e que hoje têm nomes e significados que apagam essas histórias – muitas vezes inclusive as contradizem. O grupo realiza a Volta Negra, caminhada no Centro da cidade em que contam parte da história da população negra que foi apagada. 

Maria Punga, a barista negra dona do primeiro café de São Paulo
Raíssa Albano, Pedro Alves e Carolina Piai do coletivo Cartografia Negra. Crédito: arquivo pessoal

“Quando a gente encontrou este registro eu fiquei muito emocionada porque são as histórias que não nos contam”, relata a integrante do coletivo, antropóloga e educadora Raíssa Albano de Oliveira.

“Foi muito bom olhar para a história daquela mulher e de alguma maneira me identificar no sentido de que era uma pessoa que lutava por liberdade, que podia ter autonomia naquele momento de sistema escravista”. 

Maria Punga atraia clientes não só pelo café, mas também pelos quitutes. “Dizem que ela usava argolas de ouro e no colo, um raminho de arruda e figa de guiné contra mau-olhado. Seus bolos de fubá, bolinhos de tapioca e broinhas de polvilho também faziam sucesso na freguesia, que agregava estudantes, boiadeiros, comerciantes e artistas”, relata a jornalista Carolina Piai Vieira, integrante do coletivo, em texto para o Instituto Moreira Salles.

“As quituteiras eram as pessoas que melhor conheciam a cidade”

O café foi peça fundamental para o crescimento e modernização da cidade de São Paulo. O que fez com que os barões de café, homens brancos e de famílias tradicionais, enriquecessem. A expansão da cultura cafeeira aconteceu na segunda metade do século XIX e o negócio de Maria Punga se estabeleceu num período anterior a este cenário. “Depois vieram os cafés mais famosos, de estilo francês e italiano”, pontua Raíssa. 

Naquele contexto escravagista, também era marcante a presença das quituteiras, mulheres que vendiam seus bolos e doces por toda a cidade. A antropóloga explica que a maioria delas eram escravizadas de ganho, ou seja, tinham que dar uma parte do valor obtido nas vendas para seus senhores. Com o dinheiro que juntavam, por vezes, conseguiam pagar pela liberdade. 

Mas não almejavam apenas a própria liberdade. “Havia um costume em São Paulo que as mulheres negras, quando já estavam mais velhas e conseguiam juntar uma quantia suficiente, compravam a liberdade dos mais novos”, conta. 

“As quituteiras eram as pessoas que melhor conheciam a cidade, porque andavam muito levando suas coisas. Muitas delas também tinham pontos, onde sempre ficavam e davam o tom do que as pessoas comiam”. 

“É muito incrível uma mulher negra ter um café em 1850”

Vista do centro de São Paulo em 1862. Crédito: Militão Augusto de Azevedo /Acervo IMS

Por causa dos registros insuficientes sobre a vida de Maria Punga, sua história ainda é pouco conhecida, mesmo com tanta potência. Nas caminhadas que fazem pelo Centro da capital paulista, o coletivo Cartografia Negra costuma comentar que se Maria Punga fosse uma mulher branca já “teria até série na Globo”.

“A importância de resgatar a história da Maria Punga está ligada com referência, com a gente poder olhar que o povo preto resistiu de várias maneiras”, afirma Raíssa, que realiza uma pesquisa sobre esta figura histórica.  

A educadora chama atenção para o desconhecimento acerca da história das populações negras. “Ou tentam embranquecer como tentaram fazer com o Machado de Assis e com o Lima Barreto, ou simplesmente apagam”. 

Ao relatar quem foi essa mulher negra, Raíssa já se emocionou algumas vezes e explica o porquê: “ela traz uma luz pra gente, traz quase um aconchego. “Afinal, é muito incrível uma mulher negra ter um café em 1850”. 


Mais do que notícias, trazemos um jeito de ver o mundo.
Assine e integre nossa comunidade: catarse.me/nosmulheresdaperiferia