Como acontece em São Paulo há treze anos, no último domingo – 20 de novembro – a Marcha da Consciência Negra se concentrou em frente ao MASP (Museu de Arte de São Paulo), na Avenida Paulista, e seguiu até o centro, no Teatro Municipal. Dessa vez, o evento conviveu com um caso atípico: o MBL (Movimento Brasil Livre) e o Vem Pra Rua, organizações de ideologia à direita, ocuparam o mesmo espaço – em frente a Fiesp – para uma manifestação contra a corrupção. Ignoraram  o dia que homenageia Zumbi dos Palmares.
Dois grupos foram às ruas por Brasis diferentes. Com poucos metros de distância, desconfortos, discussões e brigas aconteceram. A separação dos dois grupos não foi contínua, feita ora por manifestantes de um dos lados, ora pela presença de policiais. Ao transitar entre os protestos, a atmosfera de tensão era perceptível. Em um vídeo que está circulando pela internet, um homem de verde e amarelo disse a uma mulher que fazia parte da manifestação da consciência negra: “Eu sou machista sim, sua vagabunda!”.
Um dos lados, o mais branco da avenida naquele momento, repetiu uma postura histórica: ignorar e ser indiferente ao racismo e pessoas negras. Entre as reivindicações mais marcantes no ato está o fim do genocídio da população negra e a forte presença de mulheres negras mobilizadas contra o machismo, o racismo, a lesbofobia e as múltiplas facetas da violência vivenciada cotidianamente.

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Beatriz Augusta Benedito durante a Marcha da Consciência Negra 2016 | Foto: Semayat Oliveira

“Isso é um desrespeito, um ato de vandalismo contra a nossa história e a nossa luta. E os policiais queriam que mudássemos o trajeto para não interferir na manifestação deles. Só demonstram o quanto o estado não tem respeito nenhum por nós, é um exemplo do que fazem muito pior na periferia”, disse Beatriz Augusta Benedito, integrante do Núcleo de Consciência Negra da USP e estudante de gerontologia.

Moradora da Cohab de Carapicuíba, Beatriz disse ainda que a ditadura militar nunca acabou no Brasil. “Eles nunca deixaram de nos matar. Com essa situação política a violência só aumentou”. Em uma conta rápida, nas últimas semanas pelo menos 9 mortes foram noticiadas na cidade de São Paulo: 5 moradores do Pq. São Rafael, na zona leste, e 4 da Vila Clara, zona sul.

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Ao chegar na Rua da Consolação, carros e carros e carros da polícia seguiram a marcha | Foto: Semayat Oliveira


A historiadora Adriana da Silva, de Santa Catarina, participou do ato pela primeira vez. Ela conta que é simbólico a manifestação acontecer na avenida Paulista e que a presença do MBL foi uma provocação. “Nossa presença neste espaço incomoda e precisamos incomodar mesmo. A marcha é uma afronta para eles, nós significamos tudo o que eles não gostam e tudo que não querem. Por isso, precisamos resistir”.

Mais mulheres!

Claudia Miranda, consultora, participou da Marcha da Consciência Negra pelo terceiro ano consecutivo e dessa vez ela percebeu uma diferença: “Ouvi mais mulheres. Sinto que o protagonismo das mulheres está muito maior.”
Sara Siqueira, integrante da Marcha Mundial das Mulheres e atuante na construção da Marcha das Mulheres Negras, contou que, depois do dia 18 de novembro de 2015, quando milhares de mulheres negras ocuparam Brasília pela igualdade de direitos e pelo bem viver, a articulação para o 20 de novembro se tornou mais potente. Criaram uma rede ativista que tem realizado uma série de atos nas ruas e na internet. Na última sexta-feira (18), promoveram 12h de transmissões ao vivo sobre questões de gênero, via Facebook.
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Carro exclusivo para fala de integrantes dos coletivos e organizações de mulheres |Foto: Semayat Oliveira

“Do ano passado pra cá, construímos um grupo fortalecido de mulheres e conseguimos intervir na organização e no planejamento do ato. Em todos os anos houve a participação das mulheres, mas as falas no carro de som ainda são majoritariamente masculinas. Neste ano conseguimos um carro próprio para nós, com um espaço de fala exclusivo. Demarcamos um território importante”, explicou Sara.

A realidade da mulher negra estava expressa em fala e em labuta. De longe, ouviam-se os gritos de Tatiana Pereira dos Santos pra atrair consumidores: “Vem! Vem! Vem comprar cerveja aqui comigo!”. Vendedora ambulante há dois anos, conta que deixou de trabalhar como empregada doméstica quando percebeu o preconceito e abusos que vivia.  Relatou que a patroa costumava falar que eram amigas, “mas amigas são convidadas para festas de aniversário, não é?”. Ela só era convidada para cozinhar.  “Então eu parti pra rua”, disse sobre a decisão.

“A luta continua, ainda não conseguimos todos os direitos, sofremos preconceito. Eu, por exemplo, tenho pouco estudo. Conseguir trabalho é muito difícil e como vendedora ambulante o rapa pode pegar nossas coisas, como sou mulher é pior ainda. E eu ainda pago aluguel de R$600,00. Ser uma mulher negra no Brasil significa luta do começo ao fim. Ainda mais aqui em São Paulo, quando se é nordestina e preta, ferrou”.

Pelo menos no domingo ela vendeu tudo.

Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo