Marcela Bonfim

É economista e vive em Rondônia. Adquiriu uma câmera fotográfica e no lugar das ideias deu espaço a imagens de uma Amazônia afastada das mentes do lado de fora. Escreve sobre imaginários, imagem, negritude.

Pensar o “meio ambiente” é perceber as invisibilidades de uma pauta cheia de estigmas e distorções. A própria questão foi transportada a um plano delimitado, onde nos condicionamos o tempo inteiro em pensar as imagens da problemática relacionadas a uma suposta cor – o verde – e a um determinado lugar – a Amazônia.

A construção social, política e histórica coloniais, colonizadas e colonizadoras, trazem como princípio o conhecimento destes territórios, renomeados de “Amazônia”. Assim, no singular. Uma construção exercida do lado de fora, exatamente no centro político, onde habitam e transitam os fluxos e refluxos do imaginário social, estreitados à ótica econômica do capital. Sendo que, para quem reside do lado de dentro destas tantas margens, é tido e consciente, a multiplicidade, como também o desconhecimento da amplitude do próprio território.

O grande desafio tem sido contribuir para a conscientização de quem vive do lado de fora destas tantas margens, sobretudo, quanto a necessidade de compreensão sobre as diversas especificidades destes tantos lugares; bem como de sua diversidade, seja no clima, ou nas raízes dos imensos contextos afunilados de Amazônia, sobretudo, no direito de existir como identidade, voz, tradição, política, sociedade, economia e imagem.

Neste sentido, percebemos que discutir o meio ambiente tem sido principalmente debater ideias e planos desconhecidos, e/ou invisibilidados do próprio território, para além das paisagens, e para além do imaginário colonizador. O que nos importa são outras formas e princípios, que nos desloquem ao caráter humano da questão, onde a comunidade tem consciência que é dependente, como também responsável por suas formas e corpos, ao que pensam e como se movimentam, para dentro e/ou para fora, tendo nos próprios limites a convalidação da sua própria existência como natureza (meio/ambiente), como o próprio mundo.

Sendo assim, a questão é: por que pensar o meio ambiente restrito à imagem de uma Amazônia, enquanto os efeitos da dita emergência climática tem afetado abruptamente o mundo todo? Estados brasileiros (muitos que já perderam grande parte de suas florestas) têm dividido (ou enfrentado) o ônus do peso ambiental (situações ambientais complexas?).

E, por que, assim, só pensar na Amazônia quando se fala em meio ambiente?

Ou seja, ao transportar a discussão do meio ambiente para as humanidades de nossas necessidades como também natureza, assumimos parte substancial da responsabilidade ambiental para quem de fato é responsável: os indivíduos e o mundo todo.

Consideremos, por exemplo, o peso da guerra atual, instalada superficialmente, por meios políticos, com profundidades ambientais, como uma usina nuclear. Por quais motivos ainda nos debruçamos apenas à ideia destes pesos na Amazônia?

A consciência das camadas políticas nos remetem a estes atravessamentos do homem à própria natureza. Traz a necessidade de se inverter a movimentação para que continuemos vivos. A imagem tem sido uma forma de trazer para perto as nuances que envolvem a mata ou o concreto.

O que? V Festival Fotografia em tempo e afeto

Onde? Exposição ao ar livre, gratuita, na Rua Euclides da Cunha e na Praça do Arco do Mocambo, em Porto Velho, Rondônia, e na plataforma virtual www.fotografiaemtempoeafeto.com

Quem? O  trabalho coletivo contou com as contribuições iniciais de Aline Motta (SP), Ana Lira (PE), Eder Lauri (RO), Gal Cipreste Marinelli (RJ), Lia Krucken (BA), Marcela Bonfim (RO), Paula Sampaio (PA), Pi Suruí (RO), Rodrigo Masina Pinheiro (RJ), Rogério Assis (PA) e Washington da Selva (BA), permitindo expandir este processo para mais de cem participantes, que trouxeram suas reflexões, envolvidas nas camadas e contextos visuais de Porto Velho.

Assim, propomos trabalhar imagens e pensamentos visuais em Rondônia, a partir do Festival Fotografia em Tempo e Afeto. Várias camadas visuais têm se transformado, tanto em economia quanto em política, onde a visualidade tem despertado olhares à narrativas comunitárias, muitas vezes pouco aparentes quando separadas, mas ganhando força e forma quando estão em conjunto.

Além do mais, pensar “meio ambiente” dentro de Rondônia, uma das tantas Amazônias, é desafiar os modos operacionais da lógica de um circuito de ideias.

Portanto, no mês de fevereiro foi estabelecido um grande movimento de composição, onde o mote: “meu meio, é o meio ambiente”, foi exercitado por mais de cem pessoas, todas compondo entre si, e também com as ruas de Porto Velho, com a montagem de sete galerias a céu aberto, que serão transpostas para a plataforma do festival, que foi ao ar dia 8 de março. A segunda parte deste ensaio é assinado por uma das compositoras, Lia Krucken, que, junto com Aline Motta, desenvolveu uma das galerias do projeto e compartilha aqui os sentidos que nortearam as construções permeadas da coletividade expressa em cada imagem em conjunto, umas com as outras.

Em composição de meio ambientes: uma imagem chama outra

A partir de agora quem escreve é Lia Krucken, pesquisadora, professora e artista interdisciplinar.

Meio ambiente

Artistas da Galeria 3: Aline Motta, Diego Costa, Amanda Leite, Fernando Gonçalves, Cleber Cardoso, Margem do Rio, Isis Medeiros, Miguel Chikaoka, Denis Rouvre, Laura Lujan, Laise Azevedo, Christian Braga, Renata Gordo, Negroouza e Larissa Cortez.

Uma imagem chama outra. É um tipo de chamamento pela imagem. O pensamento se ancora no visual, mas não só. Uma imagem, perto de outras, diz mais, vai além. Várias imagens, numa galeria, fazem uma galera: quem está retratado, quem retratou, lugares, tempos, meios-ambientes. O resultado é eletrizante: vemos movimentos, olhos que nos olham, cenas que nos convidam a ler e participar. Estão ali, nas imagens que se juntaram, muitas energias – algumas visíveis aos olhos e outras não.

Quando Marcela me convidou para participar do projeto, achei que seria bem complexo. Marcela propõe um método que vai se abrindo, nos quais as escalas musicais vão se ampliando e parece desaguar no mar. A composição se faz compondo e nos faz um “corpo a compor” com várias paisagens e histórias. Nesse método de arranjar imagens, pensamentos e in-corpo-rações, a lógica é a do fluxo, ou melhor, dos fluxos. Depois entendi que a beleza do método é justamente fluir junto, ler os sinais e pegar a onda que quer vir.

Assim, fomos montando uma galeria, numa composição que se iniciou junto com Aline Motta e foi se desdobrando, incluindo várias pessoas de um longe-perto. E agora estamos nas ruas de Porto Velho e nos espaços virtuais do festival.

Fica o convite para você que nos lê aqui, ler também as sete galerias-galeras do projeto e pensar o seu próprio ambiente. Porque o jogo é esse, um jogo sem fim, no qual estamos todos juntos: ler com o corpo e seu meio, e continuar a composição.

 

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