Este conteúdo integra a série “As mães que me criaram – rede de apoio e primeira infância nas periferias”, uma parceria do Nós com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Maria de Fátima é cabeleireira e mora na cidade de Presidente Prudente, interior de São Paulo. Mãe de três filhos já adultos, sua relação com a maternidade tem duas esferas: ser mãe e ser uma avó que apoia na criação dos netos. Para entender a importância da família na hora de cuidar das crianças, o Nós mulheres da periferia entrevistou Fátima e a sua filha mais velha, Beatriz Maria.

A primeira gestação de Fátima foi aos 24 anos. Bia, como é conhecida na família, nasceu na década de 80. Embora ser mãe fosse algo desejado, cuidar de um bebê não era algo tão óbvio. “Eu fui aprendendo sozinha”, contou. O pós-parto causou muitos desconfortos e de tudo que ela viveu neste momento, tem algo de que marcou: uma de suas irmãs mais velha, Gracia Regina, a ajudava lavando suas roupas e preparando uma sopa.

“Eu passei mal, tive febre. E eu, sozinha, não sabia bem como fazer. Como ela trabalhava perto de casa, ela passava na minha casa todos os dias para saber como eu estava. Levava as minhas roupas para lavar no serviço dela, fazia uma sopa e depois trazia de volta pra mim”, lembra.

Mesmo casada e com a presença do pai durante o desenvolvimento da sua primeira filha e dos que vieram depois, Raoni Luã e Maria Bethânia, ela ressalta o quanto foi importante morar perto da sua mãe e irmãs. Com uma rotina de trabalho bastante pesada, ter que sair e deixar a crianças em casa foi menos preocupante. “Eu era vizinha da minha mãe, tinha irmãos, primos e eles acabaram crescendo tudo junto. Então eu saia e eles ficavam ali, brincando”.

Em tom de brincadeira, ela concorda em dizer que essa “rede” funcionava como uma espécie de “Quilombo”. Para Fátima, ter figuras como a da avó, tio e tia por perto é sempre benéfica para as crianças. Ela só não esperava viver esse outro lado da maternidade tão cedo. Aos 17 anos, Beatriz Maria engravidou.

Avó e mãe ao mesmo tempo

“Eu tinha 42 anos e, naquele momento, não era o que eu queria pra ela. Eu esperava que ela fosse fazer uma faculdade e descobrisse novos horizontes. E, pra mim, com a gravidez, meu sonho tinha acabado. Só depois eu descobri que não seria assim”, disse Fátima.

Para Beatriz o susto não foi diferente. “Eu, que já estava fragilizada e envergonhada, senti como se o mundo estivesse caindo na minha cabeça. Parecia que eu não tinha com quem contar”, lembrou. O mais difícil foi lidar com o julgamento das outras pessoas e com o “baque” que sua mãe levou. “Foi como se eu quebrasse os planos que ela tinha pra mim. Hoje eu entendo, mas naquela época, eu não tive condições de entender a minha mãe”.

Depois do nascimento de Lua Beatriz, a parceria entre as duas foi se estreitando. Com um pai ausente dos cuidados diários, o papel de avó acabou alcançando outro patamar. Mesmo tendo dito que a filha deveria tomar conta de tudo, Fátima passou a ser mais ativa nos cuidados e na educação. Bia conta que isso foi essencial porque, sozinha, não teria dado conta.

“Eu até já cheguei a pensar: ‘pô, minha mãe poderia ter deixado eu me virar sozinha, assim eu teria percebido mais cedo. Mas uma mãe percebe quando o filho ainda não está preparado e ela foi me ajudando. Até que, daqui a pouco, ela estava cuidando da bebê pra eu sair. A Lua também foi se apegando com a avó e acho que foi quando ela acabou assumindo o papel de mãe”.

Nessa construção, a pequena Lua Beatriz reconheceu a maternidade nas duas. Tanto que se referia a elas como “mãe Tama” e “mãe Bia”. Fátima conta que tudo aconteceu de um jeito muito orgânico. “Como ela nasceu na minha casa, eu que fiz todos os papéis desde o começo, levei para a maternidade… Como ela era muito adolescente, continuou vivendo a vida dela. E eu, como avó, me vi no direito de abraçar a Lua como se fosse a minha filha”.

Jovem e mãe

Para Beatriz, naquele momento, ser mãe era um aprendizado em desenvolvimento. “Eu fiquei muitos anos me sentindo uma péssima mãe e eu carregava uma culpa gigantesca”. Antes de tomar as rédeas da educação da filha, Bia precisou se convencer de que ela era capaz de assumir e ocupar esse lugar. Esse processo ficou mais forte quando, anos depois, engravidou do seu segundo filho, Miguel.

“Eu comecei a viver a vida como se eu não pudesse errar. E até hoje eu carrego esse sentimento. Eu não tenho tempo pra errar, eu não posso errar. Eu vejo a vida como uma coisa muito séria e foi isso que eu me tornei, uma pessoa mais séria, mais disciplinada e uma pessoa que precisa correr atrás do prejuízo. O prejuízo que eu causei lá atrás, eu tenho que correr pra conseguir minimizar para que os meus filhos se sintam amados. E para que eles saibam que ,mesmo com todos os defeitos da mãe deles, eu corro do lado deles e eu quero o melhor pra eles. Eu quero ser exemplo pra eles. Entendeu?”, afirmou.

Hoje, Beatriz já não mora com a mãe. Depois de um casamento, se mudou para outro estado, onde mora com seu companheiro e os dois filhos. Até este momento, ela estudou educação física, se formou, começou a treinar jiu jitsu e se transformou em uma lutadora profissional. O sonho de sua mãe, de fazer com que ela conhecesse outros horizontes, aconteceu.

Mesmo diante de tanto preconceito por ter sido mãe solo por duas vezes, ela e seu companheiro tem construído, juntos, a família que querem ter. E sobre sua trajetória até a atualidade, Bia acredita que ela e sua mãe fizeram, juntas, o melhor que poderiam. “Ela foi a melhor mãe e avó que poderia ter sido e só cabe a mim agradecer. Se não fosse a minha mãe, como teria sido a minha vida e a vida da Lua?”, se pergunta.

Quando questionada sobre a importância de ter uma rede de apoio para a criação de uma criança, ela respondeu: ‘É possível uma mulher criar um filho sozinho? É, mas ela vai ter que se sacrificar muito. Muito. Porque não é aquela historinha não: ‘ahh, quando você quer você consegue’. Não! Eu tive isso [rede de apoio]. eu tive família. Algumas mulheres não têm isso e eu tenho certeza que a vida delas é bem mais difícil, é dureza”.

Olhando para trás, Fátima não se arrepende de nada. “Deu tudo certo. Hoje a Lua está com 20 anos e ainda me chama de mãe Tama”, disse sorrindo. “Pra mim isso é muito importante, porque eu acompanhei todos os passos dela”. Ao mesmo tempo, se orgulha de como a sua filha encontrou sua maternidade. “Eu sei o quanto ela ama aquelas crianças e o quanto daria tudo por elas”.

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Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e moradora do Jardim Miriam (ZS)