* Esta reportagem integra a série Futurar, uma parceria entre a Revista Azmina e Nós, mulheres da periferia, ouvindo mulheres que imaginam futuros sem nunca esquecer do passado.

Reportagem por Jéssica Moreira e Marília Moreira. Edição Lívia Lima e Helena Bertho.

Na infância de Ana Lúcia dos Santos Silva, 59,  era por meio das histórias contadas pela avó Benedita que ela viajava no tempo. A mais velha estendia uma esteira, punha os netos todos em volta, sentava em um banquinho e narrava as estratégias de luta e sobrevivência do povo preto enquanto trançava os cabelos das crianças.

“Eu tenho a alegria de ter sido criada por uma avó, uma mulher muito forte, muito bonita, muito inteligente e por herdar a beleza dela, já que dizem que eu sou a cara dela”, diz, aos risos, Ana Lúcia, mais conhecida por Donana. Hoje, ela segue os passos da sua ancestral. No quilombo em que vive, o Quingoma, é  líder espiritual e griot: aquela que narra os acontecimentos do povo e do lugar, e transmite tradições e ensinamentos às gerações futuras.

Saber da ancestralidade e dos ensinamentos de suas mais velhas fez de Donana uma defensora desse território, hoje ameaçado pela especulação imobiliária e o racismo ambiental. A comunidade está localizada em Lauro de Freitas, Região Metropolitana de Salvador, na Bahia, e possui origens que remontam ao ano de 1569, estimando-se que seja o primeiro quilombo do Brasil.

“Nosso povo nunca se conformou com a escravização, ele sempre lutou”, enfatiza Donana ao lembrar que os negros escravizados preferiam morrer na mata a seguir vivendo como propriedade. “Durante longos anos, os negros traçaram estratégias de fuga, usando dialetos e códigos para que não fossem descobertos. Isso mostra que nosso povo é muito inteligente, resistente, tanto que estamos aqui até hoje”.

A história de Donana é uma das muitas trajetórias presentes na série de podcast Futurar, produzida pela Revista AzMina em parceria com o Nós, Mulheres da Periferia, que partiu do conceito do afrofuturismo e ouviu mulheres negras de várias regiões do Brasil para imaginar futuros que não sejam marcados pelo racismo e pela opressão.

Mas o que é afrofuturismo?

O termo afrofuturismo trata de um movimento multidisciplinar, que passa pela arte, literatura, ciência, filosofia e muitas outras áreas. É um movimento que reflete sobre futuros possíveis a partir de uma perspectiva não branca e não ocidental, debatendo os dilemas das populações negras atuais e revisitando o passado.

A principal forma de fazer isso é por meio da mistura entre ficção e realidade, o que permite tanto especular sobre o porvir quanto revisar e interrogar o que passou. Você talvez já tenha visto o termo ser mencionado ao falar do filme Pantera Negra ou de livros de ficção científica, como os da autora Octavia Butler.

Mas o afrofuturismo vai além da ficção. O escritor de ficção científica Samuel Delany, um dos representantes do movimento afrofuturista, diz no artigo Black to The Future ( ‘pretos no futuro’, em tradução livre) que a razão histórica pela qual o povo preto ficou tão pobre em termos de imagens do futuro é porque, até pouco tempo, ele era proibido de manter qualquer imagem do passado.

O Afrofuturismo busca no passado e na ancestralidade as respostas para perguntas que podem construir um outro tipo de presente e de futuro. Isso  requer pensar não só no que temos de realidade hoje, mas no passado pré-colonial, no reconhecimento de saberes e soluções que as populações negras trazem de muito antes do crime da escravidão (e que nos ajudaram a sobreviver a ele).

Dá para entender a importância do trabalho que Donana faz e sua avó fazia, garantindo que as histórias não sejam esquecidas? Em suas vivências, mulheres negras como elas vêm desafiando essa lógica, construindo cotidianamente futuros possíveis, imaginados há muito tempo atrás por seus antepassados.

Construindo hoje futuros há muito sonhados

“Sonho que a gente sonha só é só um sonho, mas sonho que a gente sonha com outras milhares e milhões de pessoas nesse país, eu acredito que é um sonho que um dia ele pode se tornar realidade”, defende a pernambucana Luiza Batista, 64 anos, presidenta da Federação Nacional de Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad).

O sonho de Luiza para seus filhos —  e, agora, para seus netos — foi o mesmo da sua mãe para ela: o estudo. Só que realizar esse sonho foi ainda mais difícil do que é hoje para as gerações mais novas da família.

“Imagine uma família numerosa, trabalhando no corte de cana,  na agricultura, não pra si, mas para o fazendeiro. Que sonhos a gente podia ter? Que sonhos a gente ia conseguir? Se onde morava, não tinha nem energia, não tinha luz elétrica?”, provoca Luiza, que começou a trabalhar como doméstica aos 9 anos para ajudar a família. Ela também já foi ambulante e cobradora de ônibus, e hoje, depois de trabalhar 20 anos em uma mesma residência, está aposentada e à frente da Federação.

Devido, principalmente, à sua atuação nas lutas sindical e por moradia, Luiza acredita que o futuro precisa ser desenhado coletivamente. É no coletivo que as mulheres se nutrem de afetos e de coragem, compartilham experiências, reconhecem seu poder e conseguem vislumbrar melhores condições de vida e trabalho.

“Com o direito respeitado vem também o respeito ao ser humano. Uma frase que eu sempre falo para as domésticas que chegam ao sindicato é: ‘respeito é via de mão dupla e informação é poder’. Então,  esse espaço coletivo é também para isso, para mostrar para as pessoas que nós também temos o nosso valor, que somos seres humanos e precisamos ser respeitadas”, destaca.

Os sonhos que perpassam as vivências de Luiza enquanto mulher negra e de origem pobre são parecidos com aqueles que atravessam a família de Edite Neves, 38, em São Paulo. Doula, pedagoga e consultora familiar, Edite costuma dizer que ela é a realização de Eurides, sua mãe, e a cura das suas avós, Izaltina e Edite, esta que carregava o mesmo nome de batismo da doula.

A avó de Edite era uma mulher negra, que cozinhava em panela de barro para vender na feira seu alimento. Gostava de ‘botar samba’ para São Cosme e Damião no terreiro de casa, e essa tradição foi passada, de geração a geração, até chegar em Edite, que agora a transmite também para seu filho Ravi, de 8 anos.

Ela é a primeira da família a se formar na universidade. “Carrego o nome de minha avó com quem senti e intuí sobre as ervas e o samba, e da outra avó trago os segredos e as sutilezas. Nem tudo explicamos academicamente, mas dou conta de saber de coisas que vieram pela sutileza dos olhares que se cruzam com os meus, com os sonhos sonhados com elas, com os aromas que me cercam, a pisada na terra que não é minha, mas é minha, com as histórias que ouço e compartilho, com os laços da fala e dos conselhos. Eu sou uma, mas sou muitas e todas nós somos um universo em nosso corpo”, acredita.

Assim como Edite, Tais Oliveira, também filha de empregada doméstica, realizou a partir dos estudos os sonhos de sua mãe. Hoje, aos 31 anos, é Relações Públicas, mestre e doutoranda em Ciências Humanas pela Universidade Federal do ABC, em São Paulo.

“Computador era algo extremamente inviável, mas a minha mãe mantinha uma boa relação com a sua ex-patroa, que deu para o meu irmão um computador. Então, desde os oito anos eu comecei a ter contato com a tecnologia”, recorda.

Foi digitando currículos para os vizinhos na adolescência que a Taís começou sua experiência no empreendedorismo e na internet. Depois disso, se engajou nas comunidades das redes sociais, e, já na universidade, transformou essa experiência em seu objeto de pesquisa, estudando afroempreendedorismo e tecnologias da comunicação.

“Eles queriam minha voz, mas não a minha imagem”

Corpo. Traços. Cor. Foi ao encontrar outros corpos pretos na região da Amazônia, mais especificamente em Rondônia, que Marcela Bonfim, 38, finalmente se reconheceu como mulher negra. Por onde passava, Marcela ouvia de forma recorrente uma pergunta dos moradores das comunidades tradicionais: “Você é barbadiana?”.

Barbadiano é o termo usado para se referir aos imigrantes negros do Caribe no início do século XX. Muitos deles vieram de Barbados para Porto Velho (RO), Belém (PA) e outras cidades que integram a Amazônia. A migração barbadiana é considerada o primeiro fluxo migratório livre negro no Brasil.

Despertar a curiosidade das pessoas pela sua aparência, de forma positiva, parecia algo inimaginável para Marcela antes dessa experiência. Em São Paulo, a única oportunidade de emprego formal depois da sonhada graduação em economia na PUC foi em um call center. Nele, ela sentiu o peso de se ver apagada. “Eu era uma economista formada, trabalhando num call center, vendendo crédito para banco. O que eles queriam era a minha voz, mas não a minha imagem…Me vi sem a minha imagem”, recorda.

Reconhecer-se, pela primeira vez, em um território até então desconhecido mudou para sempre os rumos de sua trajetória. “O reconhecimento é esse caminho, esse suporte que a gente utiliza pra poder trazer histórias, a nossa própria, e criar conexões”, diz Marcela.

Hoje, ela se debruça sobre essas populações nos projetos fotográficos “Reconhecendo a Amazônia Negra”, em que resgata a ancestralidade negra apagada da Amazônia, e “Madeira de Dentro, Madeira de Fora”, em que tenta perpetuar outras imagens para o futuro.

Silvana Bahia, 35, pesquisadora e diretora da Olabi, uma organização social com foco em inovação, tecnologia e diversidade, faz a jornada por outros caminhos. “Como que a gente vai criar um futuro mais inclusivo usando dados desse passado e desse presente, que é racista, que é homofóbico, que é misógino?”, questiona.

Para ela, imaginar um futuro inclusivo requer reconhecer que a população negra vem, há tempos, criando e adaptando ferramentas e tecnologias que permitiram sobreviver e construir um mundo melhor para toda a sociedade. “A maioria das tecnologias que eu vejo sendo desenvolvidas por pessoas negras são tecnologias mais inclusivas, não só por conta da representatividade, mas porque elas também trazem no seu fazer, uma ampliação de olhares para criação de soluções que geralmente não existem”, avalia.

“O historiador não escreveu? Problema dele”

Mas no mundo da tecnologia e dos negócios que movimentam muito dinheiro, a presença de pessoas negras, especialmente das mulheres, ainda é ínfima. De acordo com a pesquisa “Perfil Social, Racial e de Gênero”, publicada em 2018 pelo Instituto Ethos, apenas 0,4% dos cargos de CEO no Brasil são ocupados por mulheres negras. O relatório, resultado de uma avaliação realizada junto às 500 maiores empresas do Brasil, aponta uma grande desigualdade de gênero e raça nos cargos executivos no país.

“Mulheres negras têm menos acesso à tecnologia. Consequentemente, mulheres negras têm também menos acesso à formação e à carreira em tecnologia. Então, como pensar uma tecnologia com um olhar não hegemônico, se os espaços de decisão e de reflexão a respeito da tecnologia não são plurais?”, provoca a pesquisadora Taís Oliveira, que assim como Silvana tem se movimentando no presente para construir tecnologias mais justas e solidárias para o futuro, sem nunca esquecer do passado.

Isso requer considerar uma série de tecnologias desenvolvidas bem antes da era digital, muitas delas em território africano ou por negros da diáspora. Recursos e ferramentas criados para melhorar processos de trabalho na agricultura, irrigação e no comércio, por exemplo.

“Tão importante quanto a criação de tecnologia para suprir problemas ou melhorar processos e fluxos é a reapropriação dessas tecnologias”, defende Tais, para quem é preciso assumir como premissa que os modelos hegemônicos de tecnologia não funcionam para uma coletividade, mas para grupos específicos.

“Esse modelo hegemônico é puramente centrado no sistema. Ele é pensado para a individualidade e permite que pessoas violentas, grupos extremistas tenham espaço e se apropriem desse espaço com bastante liberdade e tranquilidade”, aponta. “Então, já que esse  modelo não funciona, a gente precisa buscar outros modelos, outras referências, outros modos de pensar, outros pontos de vista. Eu não tenho soluções pra isso, eu tenho sugestões, sugestões de pensar por outros caminhos”, argumenta.

Em um momento onde os modos de produção vêm gerando diversas crises ambientais e afetando de forma ainda mais brutal as pessoas pretas e pobres, mulheres negras seguem pautando a necessidade de uma sociedade que zele pela centralidade do bem viver coletivo, seja em áreas urbanas, periféricas ou quilombolas, como no caso do Quingoma, citado no início desta reportagem, e que até hoje tem seu reconhecimento enquanto território quilombola pioneiro questionado.

“Alguém pode reclamar: ‘o historiador não escreveu’. Problema dele. ‘Ah, porque não foi registrada nenhuma prova’. Culpa de quem não registrou! Mas a gente registrou aqui [toca no coração], e aqui, na pele, na resistência. Então, não adianta vir para cá e dizer que isso não está comprovado. Problema de quem não comprovou. A gente comprova com o que a gente respeita, nossos idosos. A gente ouve o que eles têm a dizer e são eles quem sabem da história. A gente não aceita história de colonizador. Nossa história quem conta, quem sabe como ela  foi, somos nós”, ressalta Donana.

E o futuro?

Os sonhos de liberdade dos antepassados seguem nutrindo o presente e o futuro dessas mulheres, para quem olhar para o futuro é seguir lutando para que os direitos básicos da população negra sejam respeitados. “Isso parece ser tão básico, mas ainda é um sonho. É importante sempre lembrar disso e lutar para que nós, negros, sejamos reconhecidos e respeitados dentro das nossas humanidades e enquanto pessoas de direito: direito ao conforto, à justiça, à saúde, à educação, à comunicação, à internet”, afirma Silvana Bahia.

No futuro que essas mulheres vêm construindo, também não há espaço para  o acúmulo desmedido de bens materiais e financeiros, nem para nada que estruture o modelo desenvolvimentista de sociedade que vivemos.

“A maioria das pessoas não quer ficar rica, milionária e passar o resto da vida viajando, mas quer uma vida digna. E acho que isso passa pelo entendimento de como a tecnologia impacta a nossa vida positivamente e também negativamente. Parte da lição de casa é entender onde a gente quer chegar”, evoca Thais, que acredita que já estejamos traçando um caminho interessante. “O povo preto tem essa herança da coletividade, de comunidade, de pensar o coletivo, de pensar juntos o movimento social, o movimento negro”.

Para Donana, esse movimento requer pensar também em como nos relacionamos com o território, o que no caso das áreas quilombolas, requer ir além do reconhecimento e garantir a titulação das terras.

“Nós temos uma história, somos um povo de raízes. Por isso, o que a gente mais quer hoje é a titulação do nosso território para garantir um território digno, para garantir a permanência e a proteção do patrimônio humano, cultural, religioso, ancestral e territorial desse quilombo. É isso que a gente quer! Com suas matas, águas, fauna e flora preservadas, com toda a auto-sustentabilidade garantida, porque a gente não quer viver dependentes dos colonizadores no futuro. Nós queremos nossa liberdade financeira, religiosa e cultural. É por tudo isso que a gente luta hoje, para manter um território digno para que a gente viva dentro do nosso território, usufruindo e partilhando dessas riquezas com os nossos”, almeja.