A jornalista mineira Jéssica Balbino está realizando um projeto em seu mestrado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp que analisa a produção literária das escritoras da periferia.

Jessica Balbino | Crédito: Marcio Salata

Jessica Balbino | Crédito: Marcio Salata


Além disso, lançou o site “Às Margens”, onde pretende divulgar uma reportagem sobre o tema e mantém disponível um formulário para que as mulheres se inscrevam no mapeamento que Jéssica está produzindo para a pesquisa.

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Do bairro Jardim Kennedy, em Poços de Caldas (MG), Jéssica, 30 anos, participa desde a adolescência de movimentos de hip hop e é membro dos coletivos Frente Nacional de Mulheres do Hip-Hop (FNMH²), Hip-Hop Mulher e Mjiba.  Também é autora dos livros Traficando Conhecimento (Aeroplano, 2010) e Hip-Hop: A Cultura Marginal (Independente, 2006).
A pesquisadora contou um pouco da sua história para o Nós, mulheres da periferia e você confere na entrevista a seguir:
Nós, mulheres da Periferia: Por que teve vontade de pesquisar esse tema?
Jéssica Balbino: Desde os 14 anos eu tenho contato com a literatura feita nas periferias. Isso começou a partir do hip-hop e desde então eu leio, pesquiso, me interesso e assim que me formei na faculdade, em 2006, tive vontade de fazer algo voltado a isso. Fiquei algum tempo apenas trabalhando e desenvolvendo projetos na minha comunidade, então, em 2013 eu consegui fazer o projeto e entrar no mestrado.
Inicialmente, o projeto era sobre as vozes marginais como repórteres intrínsecos da periferia, mas, posteriormente, por causa da proximidade com a discussão de gênero, resolvi pesquisar apenas a produção feminina, que ainda não foi destacada – nem na academia, nem na prática. Para começar, criei o mapeamento, que na verdade, é um automapeamento. A ideia é que as mulheres entrem na plataforma e respondam as perguntas, pra exercitar a “voz”, o lugar de fala, o protagonismo. Não quero falar por elas, mas com elas. Quero dialogar a literatura marginal feminina na academia.
Nós, mulheres da Periferia: Como se deu sua relação com o hip hop?
Jéssica Balbino: Eu conheci o hip-hop no meu bairro, numa tarde, voltando da biblioteca. Eu acho que tinha 14 anos, eu vi alguns garotos dançando break. Fiquei fascinada pela música, pelo ritmo, pelo movimento. Comecei a ir lá todos os dias e nunca mais me afastei da cultura hip-hop. Como eu não sabia cantar, dançar, riscar discos ou grafitar, comecei a pesquisar sobre isso e aí esbarrei na literatura marginal, nas revistas sobre o tema, nos textos, autores que emergiam das periferias no início dos anos 2000. E também não parei mais. Isso fortaleceu minha vontade de fazer jornalismo. Meu TCC na faculdade foi um livro-reportagem sobre hip-hop e meus trabalhos na periferia sempre foram envolvendo a periferia e ligados a esta cultura.
Nós, mulheres da Periferia: Por que escolheu o recorte da mulher na literatura periférica?
Jéssica Balbino: Porque observei que mais mulheres estavam publicando, frequentando saraus, slams, participando de mais antologias, se organizando melhor e isso ainda não havia sido pesquisado, então resolvi investir nesse mote e tem sido bem bacana, porque tenho descoberto muitas mulheres talentosas.
Nós, mulheres da Periferia: Qual sua relação com a literatura periférica? Como teve contato?
Jéssica Balbino: Eu tive contato por meio das revistas que o Ferréz fez com a Caros Amigos, os suplementos Literatura Marginal I, II e III. A partir daí comecei a pesquisar mais, ler mais, ter mais contato com o que outros autores escreviam e fui conhecendo os trabalhos deles – Sérgio Vaz, Alessandro Buzo, Elizandra Souza, Sacolinha, entre outros.
Conheci a história da Carolina Maria de Jesus, que foi a primeira favelada brasileira a escrever um livro – teve o diário publicado, traduzido para vários idiomas, etc., e aquilo mexeu demais comigo, especialmente a forma como ela lidava com a fome, com o sustento dos filhos, com as dificuldades da periferia de 50 anos atrás.
Aí em 2007 o Buzo resolveu fazer a antologia Pelas Periferias do Brasil – vol. I, com 13 autores de 7 estados e me convidou. Foi uma experiência muito importante, mas ficou evidente a pouca participação feminina. Éramos em duas mulheres, eu e a Mary do Rap, do Rio Grande do Sul. Aí foi indo, não parei mais. Foram participações em outras antologias, revistas, a publicação do livro Traficando Conhecimento em 2010…
Nós, mulheres da Periferia: Quais são para você as principais dificuldades que as mulheres da periferia enfrentam no meio literário? E no hip hop?
Jéssica Balbino: Acredito que sejam as mesmas que enfrentam na sociedade. Para as mulheres, o que mais incomoda é o machismo, que vem sob várias faces. A mulher traz consigo uma série de barreiras, como ter que ser ‘dama’, ficar em casa, cuidar dos filhos, trabalhar fora, estudar, ser mil e ser uma só. E com isso, sobra pouco tempo para frequentar os saraus, pouco ou nenhum tempo para o processo criativo, para escrever, fazer suas poesias. E, no meio disso tudo, tem que aguentar cantadas nas ruas, aguentar machismo inclusive dentro dos saraus, então, acho que a principal dificuldade da mulher é conseguir se dedicar ao que tem talento, seja hip-hop, literatura. É conseguir produzir. É passar todas estas barreiras e responder com arte.
Nós, mulheres da Periferia: Quais são as principais características da produção literária das mulheres da periferia?
Jéssica Balbino: O que eu observei com a pesquisa até então é que as mulheres ainda publicam menos que os homens. Os dados mostram que a publicação é 20% menor do que a dos homens, no entanto, nos últimos três anos, as mulheres estão publicando antologias organizadas por elas mesmas, 100% femininas. Temos duas da Frente Nacional de Mulheres do Hip-Hop (FNMH²), intituladas Perifeminas, temos a Pretextos de Mulheres Negras, organizadas e escrita apenas por mulheres negras, além de várias mulheres que lançaram seus livros como Elizandra Souza, Luiza Romão, Jennyfer Nascimento, Sinhá, Luz Ribeiro, Mel Duarte, Débora Garcia, Raquel Almeida, entre outras. Ou seja, dá para concluirmos que há aumento nas publicações. Outro ponto interessante é que há aumento da participação feminina nas antologias, também nos últimos três anos, especialmente nas que são feitas nas escolas, com adolescentes, a participação feminina é muito maior que a masculina. As adolescentes estão muito ativas na literatura marginal/periférica e isso é bem promissor.
Nós, mulheres da Periferia: Depois de finalizado o mapeamento, o que pretende fazer com os dados?
Jéssica Balbino: Dentro da pesquisa acadêmica, o mapeamento vai servir para eu entender o cenário e saber quem são as mulheres, quantas tem livro publicado, quantas tem site/blog/fanpage, quantas tem participação em antologias, quantas são negras, pardas, brancas, mestiças, quantas frequentam saraus, slams, etc. O objetivo do mapeamento é ter uma visão mais ampla sobre este cenário. Como eu já disse, no formulário as mulheres se automapeiam. Eu não falo por elas, mas elas me contam o que fazem, o que escrevem. Claro que em alguns casos, vou conversar mais, ler mais, entender mais sobre as inspirações e escritas. Na sequência, pretendo transformar a pesquisa em reportagem pra colocar no site que já está no ar (www.margens.com.br). É uma tentativa de romper com as fronteiras da academia e espalhar um pouco da pesquisa, do conhecimento. É uma forma também de devolver isso para quem se dispõe a ajudar.
Nós, mulheres da Periferia: Pretende deixar o mapeamento disponível para pesquisa e divulgação de contato dessas mulheres?
Jéssica Balbino: Sem dúvidas usarei os dados do mapeamento sim. Quero transformá-los no máximo de conteúdo possível sobre a nossa literatura. Meu amigo Renan Inquérito (rapper e poeta) tem uma frase que diz: se a história é nossa deixa que nóis escreve. E uso muito ela no trabalho, na pesquisa, no mapeamento, no site. Vamos escrever nossa própria história e penso que o mapeamento nos dará dados e embasamento para isso. Pretendo divulgar as obras, não os contatos.
Nós, mulheres da Periferia: Como você define as mulheres da periferia?
Jéssica Balbino: A mulher da periferia é guerreira. Além de ser mulher e enfrentar os preconceitos de gênero, ela é periférica e enfrenta todos os problemas sociais embutidos nessa palavra e nesse conceito. É muito difícil viver na periferia. Imagina sendo mulher. Como eu disse anteriormente, a mulher é alvo de cantadas, enfrenta transporte lotado – e encoxadas – passa por inúmeras dificuldades para ser simplesmente mulher e respeitada por isso. A mulher da periferia é resistente, é revolucionária. Particularmente, tenho orgulho em ser uma. Em sobreviver, dia a dia, nesse mundo caótico, machista, excludente. E, o mais incrível é que no meio disso tudo, a mulher da periferia faz arte. Faz poesia, faz literatura, edita os próprios livros. Protagoniza a própria história.

Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.