Temos direito ao lazer, certo? E, obviamente, o direito de voltar para casa. Hoje me dou ao direito – às vezes, brincando, chamo até de luxo – de sair para os meus rolês, embarcar no metrô no último minuto e pagar um táxi para concluir o trajeto Jabaquara – Jd. Miriam. Luxo porque, em um passado não muito distante, usar táxi não estava ao meu alcance e da minha família. Mas esse cenário mudou e táxi não paga IPVA e nem estacionamento. Prefiro.
Como sempre, fica aquele ‘lenga lenga’ no ponto de táxi. Um me pergunta até que altura eu vou, outro quer fechar um preço mais alto pra ir até lá, fulano me pede a localização exata do quarteirão onde eu moro. “Ahhh moça, mas já é quase 1h da manhã! Essa hora não dá pra ir pra lá não. Tá muito tarde.” Ahhh, moço – penso eu – quem é que disse que o senhor decide a hora que eu devo ou não chegar em casa?”
Um dia fui ao mercado e resolvi pegar táxi até minha casa – era domingo a tarde, tinha sol e tudo. Perguntei qual era o próximo e fui entrando no carro – tem que ser assim, sentar logo no banco. Mas ele perguntou antes mesmo de eu conseguir abrir a porta: “Onde a senhorita vai?”.  Respondi. Ele, muito abusado, respondeu: “Trinta reias até lá, tá?”. Olhei bem pra cara e falei: “Não, muito obrigada, vou procurar outro profissional.”
O danado se assustou e quis me convencer de que este era o preço.  Lembrei do professor Girafales e mentalmente fiz o “Tá, tá, tá, tá, tá!”. Por algum acaso ele achou que eu não tinha cara de quem usava táxi? Que eu ia dormir no barulho dele? Que eu não sei quanto custa uma corrida até a minha casa? “Essa corrida dá, no máximo, vinte reais, meu querido”.  O sacana insistiu: “Mas é domingo, bandeira dois!”.  E eu, novamente…”Tá, tá, tá, tá, tá!”. “Pego táxi aqui 1h da manhã, meu querido, com bandeira dois dá vinte e três reais, no máximo!”. Hum! Andar de táxi é resistência, minha gente!
E em uma noite dessas, eu já preparada pra argumentar ou aplicar e golpe do “chegou e sentou”, dei boa noite e disse para onde eu ia. “Ahhh moça, mas esse horário tá difícil demais subir lá! Você vai muito lá em cima?” (Ai, que preguiça de repetir) “Não, moço, vou na altura da escola.” Silêncio. ele fez uma cara de ‘não vai rolar’. “Vê se o próximo da fila te leva”.  Gritou: “oh, ciclano, você leva ela na rua x?” Olhei para o possível companheiro na viagem de 10 minutos. Ele respondeu: “Não quero nem saber onde ela vai, cara. Eu levo! É cliente! Quem decide é ela!” Olhou pra mim e disse: “Entra moça, fica a vontade!”
Muito simpático, conversamos um monte! Ele me explicou que a região onde eu moro é complicada para taxista, tem muito assalto. “É verdade, eles enquadram mesmo a gente. Mas isso não significa que todos os dias tem alguém me esperando na esquina da sua rua para me roubar, não é mesmo? E você precisa voltar pra casa!”. “Exato!”, eu respondi. E segui falando…
Até porque, que lugar é seguro nessa São Paulo? Segurança pública não é um problema só da periferia e nós não devemos acreditar nisso nem pautar nosso dia nesse medo sem fim. Embora – sabemos – o fato de ser mulher seja a causa maior da insegurança no período da noite, nos impelindo a tomar cuidados extras. Em algumas ocasiões, o táxi é uma delas. E, dá licença, nós temos direito a esse serviço!
Ninguém que mora no Miriam tem culpa de não receber o tratamento que a Vila Madalena e a Giovani Gronchi recebem, por exemplo. Eu não tenho culpa se aqui não tem policiais com sorriso no rosto, andarilhando pelas calçadas, ou parados em pontos estratégicos com as mãos pra trás, prontos para nos desejar uma boa noite! Aqui, o trabalho deles é outro. No máximo do máximo, ficam parados no posto de gasolina que faz a esquina da minha rua e sobem ou descem a ladeira na velocidade da luz ou no passo da tartaruga, com cara de cão de caça. Nada tranquilizador, eu diria.
“Bom mocinha, tá entregue. E fica com o meu cartão. Sempre que você chegar, me liga que eu te busco, tá?”
O cartão tá guardadinho!

Sobre a autora:

Semayat S. Oliveira

Semayat Oliveira, jornalista e escritora. Nascida no Jardim Miriam, zona sul de São Paulo