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arte: patrícia rizka| foto: gica muller| perusferia graffiti


A cidade de São Paulo, que já é cinza pelo seu sem número de prédios, começou a perder ainda mais cor com a chegada do prefeito João Dória Jr. (PSDB) à prefeitura da capital paulista. Desde que tomou posse, Dória vem colocando em prática o programa Cidade Linda e cumprindo as promessas que já havia apontado durante sua campanha, entre elas combater o “pixo” no espaço urbano.
Dória iniciou uma operação de limpeza pelos muros das principais vias da capital de São Paulo, todo sábado em um lugar diferente. Assistimos no dia 14 de janeiro o apagamento do maior mural de grafite não só de São Paulo, mas de toda a América Latin, localizado na AV. 23 de Maio, na região central. As obras  foram financiadas com dinheiro público ainda no governo de Fernando Haddad (PT) e, agora, a nova gestão pretende transformar o local em algo semelhante a um jardim vertical, fazendo da antiga área colorida um cinturão verde pela cidade.
O atual prefeito também firmou parceria com o Sindicato dos Taxistas, incentivando-os a denunciar “pixações” para a Guarda Civil Metropolitana e também á anunciou que o valor da multa para quem for pego pintando muros será de R$5 mil.
O programa não para e a agenda de limpeza pelas principais avenidas paulistanas avança para as periferias. No último sábado (4/2), a ação ocorreu na Av. Mateo Bei, no bairro de São Mateus (zona leste de São Paulo). Há ações previstas para os próximos sábados na Av. Inajar de Souza, no bairro bairro do Limão (zona norte, no dia 18/2) e Av. Dona Belmira Marim, no Grajaú (zona sul, dia 25 de fevereiro), também às margens da cidade.
Pensando em como as diversas maneiras de expressões artísticas, sejam por meio do grafite ou do pixo, simbolizam também um grito daquelas e daqueles que não têm voz nas cidade e que por isso se configuram parte importante da ocupação do espaço público, o Nós, mulheres da periferia entrevistou quatro grafiteiras de diferentes bairros da cidade. “Nós estamos naquelas letras, nós estamos no grafite, mais neles, que nas vitrines ou nas madames”, aponta a grafiteira Carol Nascindin, de Perus (região noroeste de SP).
Carol Nascindin (Perus), Nenê Surreal (Taboão da Serra), Patrícia “Rizca” (São Mateus, zona leste) e Carolina Teixeira “Itzá” (Campo Limpo, zona sul) apontam como o Cidade Linda cala a periferia, como o programa pode levantar ondas de ódio na cidade e que o grafite e pixo são formas de expressão inclusive que levantam questões feministas. “Quando vejo um grafite feminino na rua, isso me fortalece porque dialoga com minhas questões, porque saio da minha experiência e me torno parte de uma discussão maior, com outras mulheres, com outras imagens. Uma mulher pintar na rua é um ato de rebeldia contra as imagens que nos fazem engolir, que nos normatizam e nos confinam a um espaço domesticado”, aponta Carolina Teixeira, a Itzá.
Confira abaixo os depoimentos na íntegra.
Carol Nascindin (Perus, região noroeste) 
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“A cidade linda, e sem expressão, é a cidade de gente calada. A arte registrada nos muros da cidade é o grito do povo, são as muitas e embaralhadas  vozes da rua que gritam seus universos, suas lutas, cobranças e talentos ! A onda de ódio e nojo que vem sendo jogada a milhares de brasileiros/as, a violência que vem sendo associado com a arte de rua, é uma arma trapaceira para que fiquemos de baixo do tapete, escondidos, iguais , discretos e obedientes. Nos últimos anos a arte tem ido as ruas correndo riscos, tem desconstruindo o formato mudo da cidade, tem feito pelos muros, oásis em meio perturbador clima da metrópole  que parece não dar espaço nem recursos pra pensar ou relaxar. Por trás de escritas e desenhos nos muros, coisas foram ditas! Nossos muros brancos de ricos mármores revelam nossa grande e intocável babel, o ódio pelos que  chamam de  “rebeldes, marginais, vândalos” se dá porque feram um capricho egoísta. Essa situação toda revela o quanto estão indiferentes pra todo o resto. O povo tem que ser a estética da cidade, e o povo é diversidade de expressão e fala nos espaços públicos. O grande escândalo por aqui, em uma cidade de gigantes construções, deveria ser a pobreza, o grande vandalismo é um ser humano com fome, em frente à vitrine luxuosa das Lojas Marisa, em plana avenida Paulista, onde multidões transitam com seus bolsos cheios, ESCOLHENDO acreditar que a cidade é linda e tudo está ótimo a não ser por causa das pixações aqui e ali. Mas vejo corajosos vão às ruas e dizem por nós! Nós estamos naquelas letras, nós estamos no graffiti, mais neles, que nas vitrines ou nas madames! Tem grafiteiro/a e pixador/a fazendo arte para gritar que existe mais, existe um povo que não está ali, mas não se conforma e não está calado sobre o descaso com a vida. Além da arte como crítica e como  transformadora estética na cidade, é também de muitas belezas surgindo e modificando o cotidiano, revelando grandes talentos, e transformadores sociais, muitas redes e diálogos nascendo através do pintar na rua, muita arte pública, para todos cheia de significado, muitas imagens encantando e afrouxando mentes, coisas grandes sendo despertadas. Mas por uma cidade ”linda” sendo crucificadas”.

Carol Teixeira “Itzá” (Campo Limpo, zona sul)

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Carol Teixeira | Crédito: Sil Sil do Brasil

“O Cidade Linda, do Dória, é um projeto estético que reflete uma agressividade com a arte urbana, com tudo que vem da periferia, com formas rebeldes de se expressar e ocupar os espaços. É parte de um programa muito maior e genocida, que vai asfixiando tudo o que se movimenta. Eu tenho críticas à forma como o Estado – independentemente do governo – tenta organizar uma cultura de rua que é pulsante e extremamente diversificada, tem uma história rica e não pode se fechar em uma identidade estática. Quando o Estado interfere sem conhecimento profundo das dinâmicas da cidade, há perdas para a cultura urbana e devemos nos perguntar quem perde. Quando se aponta quem vai ser parte do que a cidade considera “bonito”, alguém vai ser criminalizado (como acontece com os pixadores e pixadoras). Acredito que as ruas vão ficar mais violentas para a mulherada ocupar com tinta, pela postura agressiva que o prefeito já sinalizou e que vai se refletir nas abordagens policiais e na opinião pública. Dentro de uma babilônia como São Paulo, uma mulher pintar em espaço público é um processo de cura, de sair do silêncio e estar presente e alerta em um lugar hostil aos nossos corpos. Quando vejo um grafite feminino na rua, isso me fortalece porque dialoga com minhas questões, porque saio da minha experiência e me torno parte de uma discussão maior, com outras mulheres, com outras imagens. Uma mulher pintar na rua é um ato de rebeldia contra as imagens que nos fazem engolir, que nos normatizam e nos confinam a um espaço domesticado.

Patrícia ‘Rizca’ (São Mateus, zona leste)

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Patrícia Rizka | Créditos: Youtube Orgulhamente Preto

” Eu não vejo o programa Cidade Linda como limpeza, vejo como uma forma de exclusão e de nos engolir, de tirar a periferia da cidade. Quando se tem um grafite ou uma pixação por lugares que passamos, como no centro, nos sentimos em casa. É o que nos representa. Uma pessoa da periferia, muitas vezes, não consegue ler uma tela de galeria, mas se enxerga nos grafite, pois aquela pintura fala com ela. Dória quer acabar com o que é cultura pra nós, com coisa que ele entende que somos. A importância do grafite para mim é inexplicável. Cheguei até aqui só queria um lápis e um papel e nem sou quem eu queria ser, mas eu sou muito grata a tudo o que aprendi até hoje, por todas as pessoas que passaram em minha vida e em relação às mulheres como um todo, o grafite colabora e muito pois quando pintamos uma mulher, não retratamos uma capa de revista e sim a realidade em que vivemos, a beleza periférica de nossas mulheres, sendo quem são e como são, essas são reais, mostrando suas lutas e buscas. Tenho medo, na verdade, do futuro. Não sei o que vai acontecer conosco quando isso chegar nas periferias, se a ditadura está sendo imposta pintada de limpeza não sei qual. Pra mim, é isso uma forma de arrancar nossa cultura, nossa história, a história de quem um dia subiu no viaduto e sabe o risco de vida que teve por uma grife ou seu próprio nome. Ele [ prefeito] apenas quer jogar fora essa história e todas as outras que só quem esta na rua sabe o quanto tempo levou pra ser reconhecido um grafite. Para ele não é nada, porque ele nem sabe nem o quê significa, qual é o tema, ele apenas não curte e apaga. Ele não respeita a nossa casa e quem dirá a dele? Ele é mais um que arranca de nós o nosso melhor. Mais somos muitos, espero que ninguém precise morrer pra ele parar com essa arrogância contra nós”.

NeneSurreal ( Diadema, grande SP) 

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Nene Surreal | Crédito: arquivo pessoal

“ A minha impressão é que ele está mascarando essas coisas. Ele é um empresário, é igual um dono de empresa, que compra uma empresa que não está andando bem e aí vai mascarar. E para gerar polêmica, eu penso que ele resolveu apagar os grafites, o que já não é novidade, todo governo que entra ele tem essa ideia de uma “cidade linda”, do centro da cidade linda, pois se fossemos pensar nos extremos e com essas chuvas todas, ele está mascarando para dizer que está fazendo alguma coisa. Ele não vai governar para pobres, vai governar para os ricos e eles querem esse centro “lindo”. E isso que ele está fazendo não é novidade para nós, já tivemos vários governadores que fizeram isso, que perseguiram grafiteiros e pixadores, para dizer que estavam fazendo alguma coisa, colocando os pixadores no lugar de bandido, sendo o que realmente a gente precisa urgentemente é mexer com a educação e saúde e pensar nos espaços que realmente estão abandonados. Mas nesses espaços, com certeza, ele não vai chegar, ele vai mascarar.  A coisa mais agressiva é ele simplesmente apagar todos os grafites, isso não dá para admitir. Grafite é o que está na rua, quando ele sai da rua e se torna “autorizado, legal”, ele foge da própria ideologia do que é o grafite, que é se apropriar de um espaço urbano e ponto”.
A foto que ilustra esta matéria é de autoria de Gica Muller para o projeto Perusferia Graffiti. A arte fotografada é de Patrícia Rizca, uma das grafiteiras entrevistas para esta matéria.