Minha mãe é dona de casa e foi quem me ensinou a ser uma mulher livre.
Dona Maria Lúcia Lima nasceu na roça, no norte de Minas Gerais. Sempre trabalhou desde menina. Em casa de familiares, ajudava nos serviços do lar. Foi cozinheira de escola. Operária de fábrica.
Quando veio para São Paulo, foi morar em Santo Amaro, extremo sul. Por meio de amigos em comum conheceu meu pai, mineiro da mesma região. Ficou grávida, se casou e foi morar no extremo leste. E parou de trabalhar.

Feminismo às avessas | Crédito: arquivo pessoal

Feminismo às avessas | Crédito: arquivo pessoal


Quando a menina nasceu, ela queria que se chamasse Daniela. Meu pai registrou Andreia sem a avisar. Na segunda gravidez, fez questão de garantir que sua vontade fosse atendida. Escolheu Lívia, o nome que seu antigo patrão tinha dado a sua filha.
Cozinheira de mão cheia, não ensinou as filhas a cozinhar. A gente também nunca manifestou muito interesse em aprender. Não precisa, tudo que ela faz é tão gostoso…
Leia também: “A gente não tinha documento de adoção nem registro de trabalho
Sempre simples, não é muito vaidosa. Nunca ensinou as filhas a se portarem como mocinhas, a se maquiar, a usar salto alto para serem femininas.
Nunca nos disse que destino de mulher é casar e ter filhos. Estudou até a 4ª série e tinha muito orgulho de ver a gente estudando. Fazia questão de ir a todas as reuniões, de conferir boletim.
Passou por dificuldades, trabalhou por necessidade e, por isso, sempre me apoiou, até quando decidi aos 18 anos não trabalhar, destino impensável para a maioria dos jovens da periferia, para fazer faculdade.
Forte sem se impor, nunca destrata ninguém, nunca nega ajuda. Tolerante, compreensiva, prestativa, companheira, otimista. Meu maior exemplo de mulher.
Lívia Lima é jornalista e mora em Artur Alvim, zona leste de São Paulo.

Sobre a autora:

Lívia Lima

Jornalista, mestre em Estudos Culturais e moradora de Artur Alvim, zona leste de São Paulo.