Paula começou a trabalhar aos 10 anos de idade, já cuidando de crianças. Uma vizinha pedia para olhar os filhos. Acabava sendo a diversão, pois brincava com as crianças e ainda ganhava dinheiro para ajudar em casa. “E assim deu início minha profissão até hoje”, conta, completando que entrou na área sem querer.
“Já estava casada e com filhos pequenos e uma amiga me chamou desesperadamente para cuidar de gêmeos. A mãe deles tinha sido ‘abandonada’ pela babá na semana de ganhar os bebês. Dei conta do recado e nessa casa permaneci por nove anos. Eu dormia no emprego todas as noites. Eu ensinei os filhos da minha patroa a falar, enquanto meu marido cuidava dos meus”, relata.
Paula não acompanhou o crescimento dos filhos, os primeiros passos, as primeiras palavras. Mas confessa que melhorou de vida, já que ganhava muito bem. Folgava a cada 15 dias. Acompanhou os da patroa, desde as primeiras horas de vida. Ela conta que os ensinou a falar, ter educação na hora de comer. Dormia com eles no mesmo quarto. Levantava a noite inteira.
Nesse período, Paula queria muito ver o desenvolvimento dos filhos e tentou arrumar outros empregos como cozinheira, promotora, só para poder ir para casa todos os dias. Mas nenhum a remunerava igualmente.
Paula retomou os estudos. Sonhava em ser advogada; estudou até o terceiro ano. Mas viu que o salário que tinha exercendo a função de babá de alto padrão pagava melhor do que muitos advogados ganhavam. “Graças a Deus e ao salário bom, dava uma vida confortável para os três filhos”.
Segundo ela, chegou a viajar para muitos lugares, comer comidas boas em restaurantes caríssimos.“Minha comida era igual dos meus patrões e sentava na mesa com eles. Ganhava os melhores cremes, perfumes e outros presentes. Meus patrões eram muito bons comigo, mas eram frios”, lembra.
A relação que a babá tinha com os filhos da patroa às vezes era confusa. “Os bebês, como eu costumo chamar até hoje, me chamavam de titia. Mas quando a mãe ou o pai ouviam, logo corrigiam e diziam: ela é babá de vocês e não tia! Engraçado que algumas vezes me chamaram de mãe. A mãe deles ficava muito brava. Mas era natural, porque eles passavam a maior parte do tempo comigo, dia e noite”, conta Paula, emocionada.
No final do ano 2013, Paula foi dispensada, pois eles tinham que ir para a escola, completaram oito anos. “Foi e está sendo muito doloroso, sinto muita falta deles. Meus patrões falaram que eu podia ligar para saber como eles estão, mas eles são muito frios. Quando eu consigo falar com os bebês eu fico emocionada. Pergunto se estão comendo”.
Atualmente, Paula está desempregada e procura um emprego do mesmo padrão, mas não quer mais dormir fora. Ela torce para que não demore para aparecer. Ela é muito grata pelo emprego que teve por quase uma década, pois graças ao bom salário, deu o melhor para os filhos, hoje com 13, 17 e 22 anos de idade.
Relato de Paula (nome fictício), 38 anos, branca, paulistana, casada e mãe de três filhos. Mora no Butantã, Zona Oeste da capital.