Eu acho bonito um homem que se senta de pernas cruzadas

Observando seu avô e pai sentados de pernas cruzadas, Aline Bispo reflete sobre a percepção de trejeitos femininos e masculinos na infância, valorizando a sensibilidade física presente neles

17|05|2023

- Alterado em 18|05|2023

Por Redação

Quando eu era criança e observava o meu avô materno, Seu Valero, sentado com seu boné verde e branco do “Parmera” na cabeça, eu não entendia o porquê dele se sentar “como mulher”, quando eu olhava meu pai sentado, fumando seu cigarro, tomando café e conversando, eu não entendia o porquê dele se sentar “como mulher.”

Em minha cabeça de criança, existiam trejeitos femininos e masculinos, e aquela maneira de se sentar era a forma que eu e outras mulheres nos sentávamos, cruzando as pernas. Por quaisquer que fossem os motivos, eu achava que só mulheres se portavam assim.

Recentemente em uma conversa com um amigo, enquanto visitamos um café, eu o olhei e de modo inesperado disparei: “Eu acho bonito um homem que se senta de pernas cruzadas”.

Rimos muito na hora, acho que, por ser uma fala que não se conectava a nada dos demais assuntos. Mas, aqui dentro, sinto que hoje, um pouco mais velha, o que sempre achei intrigante e virou bonito, era observar em meu pai e em meu avô, a mesma sensibilidade física presente.

Fisicamente falando, era algo que se estendia para todo o resto do que eles eram e são para mim.

Ainda na esfera dos trejeitos masculinos, muitos amigos homens, me relataram que ao longo de suas infâncias, a interação física que existia entre corpos masculinos era, quase sempre, a da briga, das ofensas, dos socos e pontapés.

Há alguns dias, assisti uma das minhas animações preferidas, Os Simpsons, e em um dos episódios da décima sétima temporada, houve uma separação por gênero dentro da escola das personagens principais.

Quando a personagem Lisa Simpson se disfarça de menino e ocupa o lado masculino da escola, para aprender matemática, ela se depara com um ambiente caótico, doloroso e agressivo. Um lugar comumente narrado por muitos desses amigos, onde o que existe é a lei do mais forte, onde não se chora e não se abraça.

O que achei interessante neste episódio, além de toda a discussão sobre gênero, violências e afetos, foi me recordar de como essas figuras são totalmente diferentes da figura do meu pai e do meu avô, sentados de pernas cruzadas, gesticulando e/ou tomando café.

Figuras masculinas de minha vida, que, apesar da dureza do mundo, traziam uma certa ternura. Ternura que vi ser reproduzida em muitos jeitos de ser, ao longo de minha vida, na figura de amigos, irmãos e companheiros. Homens que conseguiram ultrapassar a faixa invisível, que não permite que homens chorem ou falem de amor.

Uma memória bem particular que tenho, é a de, há alguns anos, andando pelo Campo Limpo, bairro da Zona Sul de São Paulo. Enquanto caminhava perto de um ponto de ônibus, escutei dois adolescentes, trajados no melhor estilo de “cria”, falarem sobre amor. Um aconselhava o outro com algo como: “Se você tá ficando com a mina e gosta da mina, chega nela e fala que tá apaixonado, mano!”

Essa memória sempre me ocorre para lembrar que, como diz o funk do MC Menor: Vida loka também ama e Delírios do FBC, as barreiras que impedem a chegada até o amor, ou ao desejo de ser querido, podem ser derrubadas.

Em Tudo sobre o amor, quando Bell Hooks diz que “…O amor é o que o amor faz” ela nos inclina a pensar sobre como deve partir de cada um a sua própria busca sobre o amor e as transformações que se desejam nesse campo, cotidianamente.

É por isso que visitar a residência da irmandade Vilanismo, mexeu com meu interior e me fez revisitar diversas percepções imagéticas sobre os arquétipos masculinos que formei consciente ou inconscientemente, durante minha vida, especialmente quando penso em homens pretos.

A Diáspora Galeria abrigou uma residência masculina, onde onze homens, artistas, pretos, com variados tons de pele, fenótipos e histórias, se ouviram, cuidaram um do outro, falaram entre si sobre sua produção artística e também discutiram com o mundo questões que atravessam os seus corpos.

Quem ouve rap nacional e já escutou a música Mente do vilão, do grupo Racionais MC’s, sabe que é muito comum refletir sobre o que esse corpo preto vilanizado pode fazer, criar ou conquistar, isso logo na primeira frase: “Fértil como terra preta é a mente do vilão….”

Muitos são os adjetivos que podem compor um vilão dentro de uma sociedade ainda racista, muitos foram, e são, os mecanismos desenvolvidos ao longo dos anos para inserir um perfil bem específico dentro da ideia de quem é ou não é vilão.

Entretanto, quando observamos as propostas e a interação entre os Vilões, é visível que, assim como na letra dos Racionais, eles se permitem passar do trecho “…A um passo do precipício, não de som nem de erva, louco de solidão” para “Não ando sozinho, sabe, tenho vários por mim”.

Traçando um paralelo com a música, esses vários, são o que compõem uma relação de irmandade, rasgando as barreiras invisíveis e trabalhando seus afetos cotidianamente, deixando que o amor seja o que precisa ser. Mas tudo isso da melhor forma: sempre em companhia dos seus.

Laboratório prático de pesquisa e construção de novas imagens que hackeiam o arquétipo do “Vilão”

Nos últimos dias 06 e 12 de maio, a Diáspora Galeria abriu o ateliê dos residentes para visita, o que avisto como uma abertura para acessar uma pequena camada do início de uma nova sociedade contemporânea.

Muitos podem ser os nomes para os Vilões em questão: coletivo, grupo, reunião, mas daqui, particularmente, não consigo pensar em um outro nome que não evidencie uma nova irmandade preta contemporânea em formação.

São diversos símbolos e maneiras de tratamento presentes no Vilanismo, que se assemelham às irmandades criadas após a abolição, com o intuito de abrigar e fortalecer a comunidade preta, além de preservar suas vidas e sua história. Dentro dessa maneira de produzir arte e se colocar no mundo, todas as coisas que passam pela vida dos artistas residentes são pertinentes.

Aos que ainda irão conhecer parte dessa história cabe o coração aberto e entrega, pois, cada artista, à sua maneira, encontra sua forma de se sentar de perna cruzada, fugindo, ou não, do que se espera dos vilões. Levando seus corpos ao mundo, desconstruindo histórias, com ternura e afetuosidade, ou não, uma vez que, a violência também os une.

Como me disse Alexandre Bispo, recentemente, em uma conversa breve sobre os artistas e a residência: “Os Vilões são mesmo bem bacanas, não?”

Aline Bispo é artista visual, ilustradora, curadora e colecionadora de arte. Em suas produções investiga temáticas que cruzam a miscigenação brasileira, gênero, sincretismos religiosos e étnicos, partindo do seu lugar no mundo.

Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Nós, mulheres da periferia.

Larissa Larc é jornalista e autora dos livros "Tálamo" e "Vem Cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais". Colaborou com reportagens para Yahoo, Nova Escola, Agência Mural de Jornalismo das Periferias e Ponte Jornalismo.

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