Estupro coletivo no RJ: são milhões deles sobre o corpo da menina de 16 anos

Madrugada de sexta-feira do dia 20 de maio. Morro São João, Praça Seca. Jovem de 16 anos é estuprada por mais de trinta homens, que na quarta-feira (25/5) divulgaram cenas de seu corpo violado, nu e desacordado na internet. Zona oeste do Rio de Janeiro, mas poderia ser qualquer morro das quebradas de Perus, Capão […]

Por Jéssica Moreira

27|05|2016

Alterado em 27|05|2016

Madrugada de sexta-feira do dia 20 de maio. Morro São João, Praça Seca. Jovem de 16 anos é estuprada por mais de trinta homens, que na quarta-feira (25/5) divulgaram cenas de seu corpo violado, nu e desacordado na internet. Zona oeste do Rio de Janeiro, mas poderia ser qualquer morro das quebradas de Perus, Capão Redondo ou Tiradentes (periferias de São Paulo). Trinta homens ou trinta e três? A eles, importa mais a quantidade da barbárie do que a mulher barbarizada. Assim também o foi com Maria Madalena, Maria da Penha, Cláudia Silva, Luana Barbosa.
A mim não importa se o morro é do funk, do samba ou da música clássica, quando morrer é sempre verbo feminino, de corpo da mulher jogado na calçada, seu sexo invadido. Pouco importa o vício que ela carrega, quando o vício do macho-alfa é o sempre e velho patriarcalismo colonialista, invasor, criminoso, que impera brutalmente sobre o corpo e a vida daquela que não é só uma, pois ela “sou nós”.
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A cada vítima do machismo, uma parte de mim morre e vive. Morre na dor do corpo que não pude afagar, cresce em luta que não pode, não deve, e nunca vai parar. Não são apenas trinta homens, ou trinta e três, filhos da sociedade do machismo, da cultura patriarcal. São milhões deles sobre o corpo da menina de 16 anos. No ano passado, um levantamento do  Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que, em 2014, aconteceram 47.646 estupros no Brasil. Jogando a real, esse número representa um caso a cada 11 minutos, em média.
Sobre ela, o silêncio de tantas mil, milhares de outras que seguem com medo, seguem violadas em segredo em suas próprias casas, todos os dias. Ainda segundo o levantamento do Fórum, os números podem ir de 136 mil e 476 mil casos de estupro em 2014, já que a cultura do estupro acompanha aquela do silêncio de quem tem vergonha e medo de ser julgada ou de sofrer ainda mais represálias de seu agressor.
Pois não basta um Disk 180 se não temos para onde ir, se não temos a quem nos acolher, ouvido pra segurar a dor que nunca vai embora do peito. Não adianta uma delegacia da mulher que ainda é formada por uma maioria masculina. Dos crimes de violência de gênero no Brasil, 55%  foram cometidos no ambiente doméstico, 33,2% eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas (Fonte: Mapa da Violêcia 2015). Ou seja, de um total de 10 mulheres com idade maior que 18 anos, pelo menos 4 foram mortas por atuais ou ex cônjuges.
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Sobre ela, o peso de uma sociedade que segue calada assistindo ao estupro de mais uma de nós. Sobre ela, uma cultura nojenta de homens-donos, homens-mestres, homens-fodas, homens-touro, homens-homens. Segundo o Mapa da Violência 2015 sobre o homicídio de mulher no Brasil, em 2013, 4.762 mulheres foram assassinadas no país, deixando o país em 5º lugar no ranking  mundial de homicídios do sexo feminino, ficando atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Federação Russa, de um total de 83 nações. Na contagem, o país tem uma taxa de 4,8 assassinatos em cada 100 mil mulheres. (veja aqui infográfico de homicídios contra a mulher do Instituto Patrícia Galvão).
A jovem mulher do Rio é o reflexo de um país que derruba sua primeira presidenta com um golpe de estado e exclui à navalhada todas as outras mulheres do governo e, ainda, extermina um ministério que luta pelos direitos de todas nós. No mesmo dia que seus estupradores divulgaram vídeos de seu corpo na rede social Twitter, o ator Alexandre Frota, que já disse em rede nacional ter praticado um estupro, visitou o novo ministro da Educação, Mendonça, antes mesmo de qualquer liderança do setor.
Sobre o corpo divulgado em fotos no Twitter por estupradores, também existe um sem número de deputados, senadores evangélicos, que querem a proibição, sem eira nem beira, das discussões de gênero nas escolas brasileiras e ainda criminalizam professores que pensem diferente. Ainda em 2015, meninas passaram a abandonar os estudos e a tentarem suicídio por ter seus nomes expostos em listas “das mais vadias”, o que faz da escola o espaço mais importante de formação de uma cultura menos machista, na qual a mulher possa ser livre para ser quem ela quiser ser – puta, santa, periguete.
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Sobre ela, uma lei que obriga a vítima de estupro de comprovar o ato, estuprando-a uma vez mais à procura de vestígios, julgando-a e culpando-a de um crime hediondo que não  foi cometido por ela, para que consiga realizar um aborto. O PL 5069/2013 torna ainda mais cruel o atendimento imediato, em unidades de saúde, às mulheres vítimas de abuso sexual, obrigando-as a realizar boletim de ocorrência e fazer exame de corpo de delito. O PL altera o entendimento de violência sexual, que é tido como qualquer atividade sexual sem consentimento da vítima. Se aprovado, essa violência seria apenas em casos que resultem em danos físicos ou psicológicos. O texto também modifica a forma como a vítima de abuso sexual será atendida no hospital, tirando dela orientações sobre aborto legal.
Sobre a jovem de 16 anos, estão as cantadas que suportamos nas ruas. A piada machista que você soltou no bar, o vídeo ou foto que seu amigo compartilhou na web e você nada fez. Homens podem ter esquecido, mas nós, mulheres, que erguemos a campanha “Eu não mereço ser estuprada”, lembramos muito bem de pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)  apontando que 26% de um total de 3.810 afirmavam que mulheres que vestiam roupas curtas mereciam ser atacadas. Aos homens que gritam “psiu” de seus carros por achar que meu corpo passando na rua é mais uma de suas propriedades. Aos homens em baladas que acreditam que nosso corpo é uma forma de provar sua frágil masculinidade. Aos maridos, que acreditam serem donos do corpo de suas companheiras, o recado está dado – jamais passarão.
Por cima  da menina que virou notícia dos últimos dias, paira uma mídia perversa que quer ouvir seu choro, mas pouco se importa com sua dor. Uma busca rápida no Google denuncia rapidamente aquilo que a gente só discute quando a barbárie é grande pelos olhos da mídia. “Mulher é estuprada por 8 homens em Irajá (RJ) (novembro de 2015)”. “Mulher é estuprada por 3 homens no Parque São Bartolomeu, em Salvador” (abril de 2016). “Mulher é encapuzada e estuprada por seis homens em Cuiabá” – janeiro de 2016”. “Mulher é estuprada por dois homens em Sete Lagoas – abril de 2016”. Na mesma pesquisa, ainda é possível encontrar vídeos que utilizam a palavra “estupro” como atração sexual, como o título “Loirinha gostosa estuprada por vários tarados”, no site pornô “Gostosas Nacionais”.
A “agenda setting” ou a chamada “teoria do agendamento” do Jornalismo não representa as mulheres, tampouco critica aquilo que o machismo faz diariamente conosco e, quando assim pauta, é sempre baseado em sensacionalismo, cliques em cima de dores dos outros ou de uma avó e um pai que não têm  mais coração para falar, após 30 homens estuprarem sua menina. Além disso, a divulgação das imagens e vídeos são parte de uma cultura da exposição muito realizada na internet por homens. Além de ser considerado crime, a prática é também violência contra a mulher.
O machismo também vem acompanhado de um racismo que chega mais cruel às mulheres negras e pobres. A sempre tríade cruel, de classe, raça e gênero, é uma realidade a todas nós, mulheres da periferia, das favelas, das quebradas Brasil afora. Segundo o mesmo relatório, infelizmente, a morte violenta de mulheres negras aumentou 54%, o das brancas diminuiu 9,8% no mesmo período.
Os dados e as dores acima ainda são bem pequenos quando penso no total de mulheres que sofrem no mundo por conta desse câncer chamado machismo.Quando penso na dor física, mental e que agora está no coração da garota violentada por mais de 30 homens. Essas minhas palavras nem de longe podem expressar o seu sofrimento, o nosso, as dores que, todos os dias, carregamos no ventre.
Outro dia, um homem me perguntou “por que toda mulher feminista é também politicamente de esquerda ?”. Com toda paciência que me falta, eu expliquei que, para mim, que sou mulher, negra e periférica, não há meios de separar a luta contra o capitalismo e racismo, que são irmãos cruéis de um mesmo pai: machismo/ patriarcado. Você tem conhecimento de quantos países foram colonizados por mulheres? Ou, então, quantas violaram corpos de homens em busca de ouro e poder? Nem eu.
Aqueles que usam e abusam de seu poder para legitimar o machismo. Não sou eu que tenho que mudar minha roupa, meu caminho, minha vida. Não sou eu que me faço merecedora ou não de seu comportamento e de sua atitude. Eu não mereço ser violentada. Eu não mereço ser estuprada. Nem eu, nem nenhuma mulher.
Quantas serão as desculpas para que mulheres continuem morrendo ao redor do mundo? Lugar errado? Roupa errada? Nome errado? Namorado errado? O que está errado é o machismo e nós, mulheres e homens, precisamos continuar a combatê-lo, em cada mínimo detalhe que ele ainda persevere em nossas vidas. Desde o verbo escrito ao verbo cometido em violência. De onde eu venho, lutar sempre foi verbo e eu vou lutar incansavelmente pelo fim da cultura do estupro, aqui e em todo lugar.
Jéssica Moreira,24, é jornalista e integrante do Nós, Mulheres da Periferia. Mora em Perus, zona noroeste de São Paulo.