“A indústria da moda sempre vende a imagem do povo carnavalesco para o mundo, mas esquece que no Brasil não existe somente o Carnaval e o Rio de Janeiro”, afirma Seanny Oliveira, estilista, designer de moda e artista visual de Manaus (AM). A fala é um comentário  sobre a edição de 2022 do Baile da Vogue, evento que acontece há 17 anos reunindo artistas e influenciadores, que vestem looks de acordo com o tema definido pela marca. 

Neste ano o tema selecionado foi “Brasilidades Fantásticas”, no contexto em que se comemora o centenário da Semana de Arte Moderna de 2022, movimento que buscou uma arte efetivamente brasileira. Diante disso, recebeu críticas pela falta de estilistas brasileiros assinando os looks dos convidados. A festa ocorreu no dia 29 de abril, no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro (RJ).  

Recentemente, outro evento da moda também foi criticado por receber convidados que desviaram da temática, sendo por isso comparado ao Baile da Vogue. Trata-se do Met Gala, festa anual de arrecadação de fundos para o Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque (EUA). Na noite do dia 5 de maio deste ano a proposta foi “Na América: uma antologia na moda”, com o código de vestimenta “Era dourada”. 

Apesar de ter gostado do tema escolhido para a festa brasileira, Seanny acredita que faltou diversidade cultural. “Eu penso que a Vogue deve conhecer as artistas [indígenas, quilombolas e ribeirinhas] que produzem a moda. Não precisamos de representatividade estrangeira, existe também [no Brasil] muita gente que é capacitada”. A estilista comanda a Seanny Artes Produções, um ateliê artístico de figurinos e cenografia, e produtora de eventos. 

 Mostra Intercultural de Moda Indígena

Galeria

Foi pensando em dar visibilidade a uma parte dessa diversidade cultural da moda brasileira que Seanny organizou a I Mostra Intercultural de Moda Indígena. O evento ocorreu em Manaus, no bairro indígena Parque das Tribos, entre os dias 2 e 23 de abril. Reuniu 32 estilistas e 37 modelos indígenas de diferentes etnias: Munduruku, Sateré-Mawé, Baré, Tikuna, Desana, Witoto, Mura, Tariano, Miranha, Carapãna, Kambeba, Kulina e Marubo. 

O tema da primeira edição foi “Grafismo indígena: Tradições, Ancestralidade e Contemporaneidade”. Seanny se diz surpresa com a repercussão gerada e acredita que o evento foi um marco para o povo amazonense. “Alcançamos os nossos objetivos, foi o reconhecimento e respeito da cultura, de suma importância para cada etnia que foi representada ali”. 

A estilista considera que a mostra contribuiu para desmistificar o estereótipo do “índio”, como sendo um povo com apenas uma cultura, quando na verdade existem diversas etnias e tradições. 

O que é brasilidade? 

A partir do tema proposto para o Baile da Vogue de 2022, Seanny faz alguns questionamentos sobre a brasilidade representada na moda. “A brasilidade através da moda alcança todos os lugares? Quem está sendo representado? É a região sudeste? É o Rio de Janeiro, como sempre? A realidade do Rio de Janeiro não dialoga com a realidade amazonense”. 

“O Brasil é um país com milhares de manifestações culturais da moda, cada região tem a sua representatividade. Por isso a moda tem que ter um papel de contar histórias através das peças”, afirma. 

Já para a artista visual e designer Goya Lopes “brasilidade é o resultado do conjunto identitário dessa grande diversidade que é formada pelos vários elementos das culturas brasileiras. Desde a nativa, até e aqueles que chegaram depois, como a europeia e africana”. Atuante na área da moda afro-brasileira, Goya está há quarenta anos nesse mercado e comanda a marca Goya Lopes Design Brasileiro. 

A moda deve traduzir essa brasilidade mostrando “a pluralidade e a singularidade da cultura brasileira, conectando com o moderno sem perder a sua especificidade e forma étnica”, diz. 


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