Olhando para o céu como quem busca inspiração para a escrita, Carolina está sentada na praça com um caderno no colo e um lápis na mão. A escritora veste um terninho decorado com flores, tem um colar de pérolas e está com os pés descalços. Sua saia se assemelha a folhas de papel dispostas uma ao lado da outra. Ao olhar com atenção é possível identificar alguns escritos nela. De tanto se dedicar às palavras, Carolina Maria de Jesus tornou-se livro.

A descrição acima é da estátua da escritora Carolina Maria de Jesus, inaugurada no dia 28 de julho na Praça Júlio César de Campos, em Parelheiros, zona sul de São Paulo (SP). A obra faz parte da iniciativa da Prefeitura de homenagear cinco personalidades negras por meio de monumentos. Os outros nomes selecionados foram: Geraldo Filme, Adhemar Ferreira da Silva, Madrinha Eunice e Itamar Assumpção. Todas já foram inauguradas.

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O distrito de Parelheiros não foi escolhido por acaso para abrigar a estátua da escritora reconhecida internacionalmente. Carolina comprou um sítio e se mudou para o local em 1969, após a publicação de seu mais famoso livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. Lá permaneceu até a sua morte, em 1977, com 62 anos.

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914 em Sacramento-MG. Ainda jovem foi morar em São Paulo, num barraco na favela do Canindé, zona norte. Para sustentar os três filhos trabalhava como catadora de papel e doméstica. Em alguns dos papéis que catava escrevia sobre seu cotidiano e suas reflexões, como num diário. Esses relatos estão presentes no livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960. O livro foi traduzido para 14 idiomas e vendido em mais de 40 países. Com o sucesso da obra, se mudou para Santana e depois para Parelheiros. Além de Quarto de Despejo, Carolina também assina: Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961), Pedaços da fome (1963) e Provérbios (1965).

“Minha mãe não foi uma mulher feliz, se você ver a vida dela, foi muito infeliz. Mas ela foi feliz em Parelheiros, em seu sítio”, afirma Vera Eunice de Jesus Lima, professora de língua portuguesa e filha de Carolina Maria de Jesus. Antes de falecer, a escritora deixou uma carta para a filha pedindo que não vendesse o sítio, pedido que foi atendido.

Inicialmente a prefeitura definiu que a estátua seria instalada no Parque Linear Parelheiros. Mas a decisão foi revertida após coletivos do bairro se mobilizarem contra essa localização, por ser um local pouco movimentado e de pouca visibilidade. Por meio do movimento “Carolina Maria de Jesus merece estar na sala de visitas!”, reivindicaram que a escultura fosse instalada na Praça Júlio César de Campos, no centro de Parelheiros.

O pedido dos moradores foi atendido. A escultura chegou a ser fixada no Parque Linear, onde permaneceu cercada por tapumes até ser transportada para a praça. O local tem maior movimentação, concentração de comércios e abriga também a Paróquia de Santa Cruz e seu monumento de marco do centenário, os quais fazem parte do turismo da região.

Vera Eunice também defendeu a instalação na praça. “A praça de Parelheiros representa Carolina, quando eu chego aqui eu olho a Farmácia Queiroz e lembro que quando minha mãe tinha dinheiro comprava remédio, quando não tinha o Queiroz falava ‘pode levar’”, lembra.

Vera Eunice abraça estátua em homenagem à mãe

Vera Eunice, filha de Carolina Maria de Jesus, demonstra carinho pela estátua da mãe.

Crédito: Beatriz de Oliveira

Em tom de nostalgia, a professora relata como a família vivia no distrito. “Aqui antigamente tinha cinema mudo, e na época da Semana Santa passavam muitos filmes sobre Jesus Cristo, minha mãe não perdia! No aniversário de Parelheiros, a gente vinha na igreja. Eu estudei no Prisciliana [Escola Estadual Prisciliana Duarte de Almeida Dona], era um barraco, não era essa escola que a gente vê hoje. A minha mãe vinha nas reuniões, meu boletim é todo assinado por ela”.

Para a vereadora Elaine Mineiro, do Quilombo Periférico (mandato coletivo), é acertada a escolha de uma periferia para receber a estátua. “Assim como, muitas vezes não reconhecemos autores e artistas pretos, também não reconhecemos que territórios periféricos têm memória. Como é importante dizer que a periferia também tem patrimônio, material e imaterial”.

Edna Silva, promotora legal popular, bacharel em Direito e militante, saiu do Largo do Arouche, no centro de São Paulo, para prestigiar a inauguração. Conta que foi sua mãe quem a apresentou as obras da escritora, e que elas moldaram seu aprendizado. “Quero ver Carolina Maria de Jesus não somente aqui nessa praça, mas em todas as escolas municipais e estaduais, para os nossos pequenos saberem que temos uma literata muito importante”.

Sidineia Chagas, moradora de Parelheiros e mediadora de leitura da biblioteca comunitária Caminhos da Leitura, estava presente no evento em dupla comemoração: pela estátua e pelo aniversário de 13 anos da biblioteca. “Para nós é um prazer ter essa valorização de uma escritora periférica e negra, do território de Parelheiros”, diz.

Apesar disso, a moradora lamenta a falta de participação dos movimentos e coletivos culturais de Parelheiros na programação do evento de inauguração. Segundo ela, a prefeitura não dialogou com os coletivos para construir o cronograma. O evento contou com momento cerimonial, apresentação do Slam das Minas SP e da Batalha Dominação.

A atriz Dirce Thomaz também traz uma decepção em relação ao evento. Ela, que já interpretou Carolina Maria de Jesus, foi contratada para fazer uma apresentação na inauguração. Após enviar os documentos necessários, foi informada, já próximo da data da celebração, que não haveria mais apresentação por falta de verba.

Mesmo assim, fez questão de prestigiar o momento de instalação da obra. “Ela representa muito para as mulheres negras, tenho um sentimento de gratidão pela existência de Carolina e por eu ter interpretado a sua obra no cinema e no teatro. Existe uma Dirce Thomaz antes de Carolina e outra depois de Carolina”.

Pessoa em volta da estátua da escritora

Moradores e ativistas prestigiam inauguração da estátua de Carolina Maria de Jesus.

Crédito: Beatriz de Oliveira

A escultora Néia Ferreira Martins é quem assina a obra fixada em Parelheiros. A artista diz que a partir do convite para a escultura, percebeu o valor de sua profissão para a sociedade. “Eu vou e a escultura vai ficar, me sinto honrada em ter participado dessa ação”, resume. Enquanto uma mulher negra representando outra mulher negra, ela afirma que homenagens como essa dão força para reivindicar espaços.

“Foi a escolha de um dos aspectos dentre vários de Carolina Maria de Jesus, que foi o de escritora, que mais tomou vulto nesta obra. A escritora. Sim, a mãe, a mulher, diante da situação precária. Mas também a mulher sensual, a mulher só, escritora e poetisa que tomou as rédeas do seu destino. Como uma semi-deusa, é essa que eu retratei”, explica.

Vera Eunice, filha da escritora, gostou do resultado da obra. Com carinho ela olhava para a estátua, chegando a abraçá-la. “Quanto toco a estátua, a minha emoção é muito grande, pra mim é como se Carolina estivesse presente aqui”, relata.

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