“Vagabunda. Cala boca!”
Isso tem acontecido, pelo menos, nos últimos três sábados que estive em casa pela manhã.
Os gritos são direcionados à minha vizinha, eu não a conheço, não somos amigas, mas moramos no mesmo prédio, somos mulheres, me sinto agredida junto, divido o desespero com ela, esse desespero que percebo nas poucas vezes que ouço a voz dela na discussão, hoje até está falando mais do que das outras vezes.

Eu fico imaginando quando saem do pé da minha janela e entram no apartamento, e me dói. Eu juro que quero ligar para polícia.
É então que sinto como se ele me mandasse calar a boca e me chamasse de vagabunda também, eu não consigo ligar, eu ouço, sinto e sofro com ela, mas assim como ela, me sinto incapaz de mudar essa situação.
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Me sinto covarde, tenho vergonha de mim, de tudo que eu defendo e acredito, e de como sou frágil diante de um agressor. Na quebrada, a gente sabe que a polícia não é sinal de segurança, que segunda eu vou subir a rua sozinha, à noite, que minha mãe vai passar o dia sozinha em casa, e isso me cala.
Então, estamos fadadas a sofrer caladas? Não! Não vou acreditar nisso, temos uma a outra, e sei que isso nos fortalece. Me acovardei mais um sábado, e queria pedir perdão à minha vizinha, e à toda mulher que ler esse texto. Não quero mais me calar ou me sentir impotente, negligente, ausente, conivente.. nossa, são tantas sensações que se misturam.
Essa semana a polícia da Delegacia da Mulher esteve no meu prédio, diziam procurar por alguém. Acredito que algum vizinho já havia denunciado. Mas, enfim, já percebi que nada mudou.
Para ele, o sábado segue sem novidade, aliás, pra nós segue igual, porque essa sensação de insegurança e solidão também não é novidade por aqui, infelizmente.