Estudos mostram que a presença de enfermeiras obstetras na gestação reduz o excesso de cesarianas desnecessárias. Em maternidades, onde os partos são assistidos por enfermeiros ou obstetrizes, a taxa de cesariana é 78% menor quando comparada a hospitais onde não há presença desse profissional no momento do parto, conforme apontou a pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), Silvana Granado, durante a Conferência Internacional Ecos – da 9th International Research Conference – “Normal é natural: da pesquisa à ação”, realizada de 14 a 16 de outubro de 2014, no Rio de Janeiro.
Uma opção que vem ganhando força é a do parto domiciliar. O Nós, mulheres da periferia conversou com a enfermeira obstetra Luciana Lourenço, 38, que hoje realiza partos domiciliares em São Paulo.

Luciana Lourenço durante o trabalho de parto de Jeane Carmo

Luciana Lourenço durante o trabalho de parto de Jeane Carmo



Nós, mulheres da Periferia: Há quanto tempo você é enfermeira obstétrica?

Luciana Lourenço: Comecei a trabalhar como bába aos 13 anos e sempre gostei de cuidar. Fiz curso de auxiliar de enfermagem e depois entrei na faculdade. Sempre trabalhei em hospital público, pois não queria na rede particular, por achar muito injusto como muda o atendimento e sabia que poderia ajudar mais na rede pública. E vendo essas mulheres tendo bebês, sempre achei que elas precisavam de abraço e alguém para apoiar, foi aí que percebi que eu podia ajudar. Depois de formada, meu último emprego foi em um hospital na periferia da zona sul de São Paulo. Dei aula no Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo) e no Eisntein, e decidi ir contra o sistema e assistir essas mulheres em casa. A violência obstétrica já começa ao ter que tirar a calcinha, o sutiã, a aliança e colocar a camisola com o bumbum de fora, e já começa a tirar o direito da mulher ser quem ela é, deixa ela sem nada. Toda essa adrenalina não gera ocitocina, que faz o bebê nascer, gera medo que impede o nascimento. Empurram a barriga, não permitem acompanhante. Então não aguentei, não suportava mais os médicos na mesmice se achando os donos da razão, gritando comigo como se eu fosse secretária deles. As piores desgraças que assisti foram no ambiente hospitalar e não em casa. E acredito que do mesmo jeito que o bebê foi gerado, ele nasceria dentro do amor no aconchego da casa. Antes, em casa com parteiras, nossas avós tinham 15, 18 gestações e corria tudo bem. Nascer é fisiológico, é normal.
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Nós, mulheres da Periferia: Há quanto tempo realiza parto domiciliar? Como tudo começou?

Luciana Lourenço:
Tudo começou há quatro anos. Tenho uma professora que foi uma das pioneiras em parto domiciliar e ao ver pela primeira vez em 2000 fazendo um parto, queria ser igual a ela. Quando terminei a obstetrícia, ela me disse que tinha mão de parteira e era boa nisso. Acompanhei um parto com ela e fiquei encantada. Quando foi o segundo já fui como auxiliar, mas ela não tinha me dito isso, mas para a mãe ela disse que eu era da equipe e que trabalhávamos juntas. Nesse dia ela disse também que tinha um porém, porque a data prevista para o bebê nascer, ela estaria viajando, e qualquer coisa seria eu que faria o parto. Eu pensei “ela é louca?”, eu já fazia parto, mas não sozinha e domiciliar. Ela viajou e a mãe entrou em trabalho de parto. Foi lindo, nem eu acreditei que estava com tanta dilatação e o menino nasceu. Desde então nunca mais conseguimos fazer um parto juntas. Ela foi minha encorajadora e foi aquela que disse de que eu podia, era capaz. Cheguei a fazer o terceiro parto dessa mesma mãe, ela mora em Atibaia, eu nem morava mais em São Paulo, mas mesmo assim fui eu quem fez o parto. É muito gratificante.
Nós, mulheres da Periferia: Como é seu trabalho quando há parto domiciliar, há uma equipe?

Luciana Lourenço:
Hoje em São Paulo, a Sociedade de Pediatria em conjunto com o Conselho Regional de Medicina contra indicam o parto domiciliar, só que isso vai contra as leis da Organização Mundial de Saúde, pois a mulher tem o direito de parir onde ela se sentir segura. Por isso as parteiras estão se unindo para que se monte um protocolo desse atendimento. A ideia é criar uma associação das parteiras e protocolo para que se tenha uma equipe composta por uma obstetriz, um médico e duas enfermeiras. Até o momento não tem essa exigência. Então no meu trabalho é preciso que seja uma paciente de baixo risco, que tenha acompanhamento no pré-natal com médicos  e enfermeiras que façam esse diagnóstico em paralelo com as consultas comigo para criar vínculo.
Nós, mulheres da Periferia: Há muita diferença de uma parto domiciliar e um hospitalar?
Luciana Lourenço: O parto hospitalar é feito pelos outros e no domiciliar é feito por quem tem que ser, pela própria mulher. A mulher tentar fazer o fisiológico no hospital, ela tem intervenção, é tirado dela o direito de ser protagonista da própria história. No parto domiciliar a mulher escolhe a posição que mais a agrada, pode comer e tem acompanhante. Já o hospital restringe e ela perde o direito de autonomia, fica acuada com dor e sem atenção nenhuma. E se gritar, vão maltratar e por isso elas já vão com medo do que vão passar.
Nós, mulheres da Periferia: Como é a procura por uma enfermeira obstétrica e como é atender essas mulheres?
Luciana Lourenço: Todas as mulheres chegam com a propaganda do boca a boca. É muito difícil ser alguém que me encontrou pelo Facebook ou pelo site. Quando mudei para Ubatuba, fiz o primeiro parto e depois apareceram outras sem fazer divulgação nem nada. E mesmo tendo saindo de São Paulo, continuo realizando partos. Me ligavam quando entravam em trabalho de parto, eu pegava minhas coisas e a estrada para a capital. Em São Paulo tem um leque grande de parteiras.
Nós, mulheres da Periferia: Saberia dizer quantos partos domiciliares já acompanhou na periferia de São Paulo? O que levaram essas mulheres a optarem por esse parto?

Luciana Lourenço:
Já realizei mais de 2000 partos hospitalares e cerca de 50 partos domiciliares. Já ouvi mulheres contando suas experiências e cada uma tem uma história. Tem mulher que acha interessante, algumas que estudam sobre o assunto, outras que tem medo de cirurgia, que não gostam de tomar remédio. Há aquelas que querem um parto domiciliar e o marido a chama de louca, e conversando e explicando como tudo é, acabam entrando em um consenso. Sempre há o plano B e isso tranquiliza. É algo natural o que tem acontecido, em que a experiência de uma encoraja a outra.
Nós, mulheres da Periferia: Quanto é cobrado para acompanhar um parto domiciliar? Além deste valor, há algum outro custo extra?
Luciana Lourenço: Em São Paulo oscila, chega até 6 mil reais no geral. Eu pessoalmente não gosto de dar valor, sou muito de avaliar, pensar na história e o contexto para definir um valor, mas é na faixa de 3 a 4 mil reais. Vai da família. Tem aqueles que pagam só o material porque é o justo e o que conseguem pagar. Acredito que as pessoas não podem deixar de viver um sonho por causa do valor financeiro. Faço três consultas antes para conhecer e saber se a gravidez é de baixo risco e, durante as consultas, falo que o valor do parto é tanto e vão me pagar assim. Dou uma listinha de orientações, levo a tão sonhada banheira, baqueta, medicamentos, materiais, soro, equipamentos e os pais providenciam comida, frutas, chá, lençol descartável, absorvente, plástico para forrar o colchão da cama e a banheira.
Nós, mulheres da Periferia: É possível ter parto humanizado em um hospital? Isso acontece?

Luciana Lourenço:
Já evoluiu bastante, para quem tem dinheiro é mais possível. Está mudando, mas se falta conhecimento, a paciente que chega com a bolsa rompida, no subconsciente acha que já tem que nascer, elas não estão preparadas para nada, com a dor, já pensam na cesária, não há nada de humanizado, não escutam e não acalmam a paciente. Esse processo de dor pode durar de 14 a 16 horas. No hospital público, o que mais se escuta é que se tivesse dinheiro não estaria sofrendo, já teria uma cesariana. Então, falta conhecimento dos pacientes e dos profissionais também. A maioria sabe que só faz cesária por necessidade na periferia e os profissionais estão engajados no parto normal, mas não na humanização. É muita preguiça de orientar e dizer que se a mulher ficar 20 minutos embaixo d’ água quente, a dor vai aliviar, mas não a deixam lá.
Nós, mulheres da Periferia: Quais os principais mitos que as gestantes escutam em um consultório que as fazem optar por uma cesariana?

Luciana Lourenço:
São muitas… que a criança vai morrer asfixiada pelo cordão; não há passagem e não vai ter dilatação, tem quadril estreito; tem pescoço pequeno; o bebê é grande ou muito pequeno; rompeu a bolsa e está demorando para nascer, sendo que a mulher pode ficar 18 horas com a bolsa rompida sem antibiótico. Mas é porque a cesária é mais fácil de resolver, em 40 minutos o médico fez tudo que precisava, já no normal, vai ter que ficar esperando horas. Enfim, já acompanhei trabalho de parto de 5 horas e outro que foi de 42 horas e em ambos deu tudo certo, o bebê nasceu no seu tempo e sem intervenções.
Nós, mulheres da periferia: Há casos em que os médicos disseram que teria que ser cesariana e a mãe optou pelo parto domiciliar?

Luciana Lourenço:
Há muitos casos. Elas marcam a cesária e depois optam pelo parto domiciliar e os médicos falam que não pode, que é perigoso, mas é a mulher quem decide. Há algumas que nem falam que farão parto domiciliar, apenas passam no médico para acompanhar e fazer os exames necessários, porque já sabem o que vão escutar. Tem também aquelas que marcam a cesária para um dia e o bebê nasce de parto normal antes.
Nós, mulheres da periferia: O que é importante esclarecer para as mulheres que tem medo do parto domiciliar?

Luciana Lourenço:
Antes de fazer qualquer escolha, procure informação. Toda mulher tem o direito de escolher qualquer coisa que será feita com seu corpo. Se quer um parto normal, procure saber quais as vantagens e desvantagens. Se for cesária, é uma necessidade ou comodidade? Precisa saber o que você quer e o qual a melhor opção, e estar consciente da sua escolha, e não porque os outros falaram que é o melhor. Procure saber as consequências para a mãe e o bebê em uma cesária desnecessária. A cesária, sem dúvida, é uma evolução e em situações de emergência salva vidas, mas quando não é preciso, muitos problemas podem acontecer. Por isso, antes de fazer qualquer coisa ou tomar qualquer decisão, procure se informar.
Nós, mulheres da periferia: O que é necessário para que um parto domiciliar aconteça?
Luciana Lourenço: Somente que a mulher tenha a vontade e que a gestação seja de baixo risco.
Para entrar em contato com Luciana Lourenço, acesse:www.nascernoninho.com.br