Marcela Bonfim

É economista e vive em Rondônia. Adquiriu uma câmera fotográfica e no lugar das ideias deu espaço a imagens de uma Amazônia afastada das mentes do lado de fora. Escreve sobre imaginários, imagem, negritude.

Das mãos; Quilombo de Pedras Negras, São Francisco de Vale do Guaporé. RO. 2015.

Desde a criação “Amazônia”, toda a ideia que identificamos sobre esses muitos lugares, que aqui estão e habitam os imaginários, é fruto de algum aspecto de distinção centro/periferia, na qual estamos mergulhados até à cabeça, tanto por conta das prática econômicas das quais participamos, quanto pela forma de Art que consumimos ou nos inspiramos. Ou seja, por onde for possível atravessar o imaginário social, haverá, a menos, algum tipo de fragmento colonial a se manifestar.

Assim, a “Amazônia” tem sido transformado num dos principais ambientes de disputa ideológica; completamente revestida pela ideia de reserva, com o mundo todo de olho em seus meios; comprimindo ainda mais a história, a presença e a diversidade dos povos originários, além de todo um legado construído a partir dos encontros com os fluxos e refluxos de matrizes negras, inclusive incorporados em todas as partes dessas regiões como identidades locais.

No entanto, pensar a Amazônia”, pelo outro lado, é também perceber as formas como o centro tem resolvido suas questões em relação às margens; sendo o próprio histórico destas relações o pivô das atuais emergências em que nos encontramos. Também pensar a “Amazônia” é conviver com o fato de que os violentos impactos dirigidos aos povos do lado de dentro, sequer fazem parte do conteúdo que se discute sobre clima, meio ambiente e desenvolvimento; tudo isso do lado de fora.

Ainda discorrendo sobre aspectos de invisibilidades, partilho esta reflexão com Maryellen Crisóstomo, quilombola do território Baião, do Sudeste do Tocantins, que, feito as mãos de João, que estão na fotografia que integra a mostra “Por um sopro de fúria e esperança”, exibida pelo Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia, tece importantes dados sobre a negritude amazônica, em aspectos até aqui, ainda não aparentes do lado de fora:

Aos povos quilombolas também interessa o debate sobre emergências climáticas

A população quilombola, há anos invisibilizada pelo racismo estrutural, é colocada à margem do debate climático. Uma pauta que tem mobilizado os olhos do mundo para a Amazônia e, paralelamente, dissimulado a presença e importância da população negra no enfrentamento à degradação ambiental do Biomas. 

Embora ainda não exista dados demográficos da população quilombola enquanto grupo populacional estatisticamente referendado, em 2020 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma nota técnica onde registra a existência de 5.972 comunidades quilombolas, presentes em 24 Estados e 1.672 municípios, em todos os Biomas brasileiros.

O IBGE revela ainda que 9 dos 10 municípios com maior número de comunidades quilombolas se encontram na Amazônia e Amazônia Legal. Sendo o município com maior número, Barreirinhas, no Amazonas, seguido por Alcântara no Maranhão.

Os impactos das mudanças climáticas também afetam diretamente a população quilombola cujos modos de vida estão atrelados às dinâmicas da natureza. As mudanças impostas aos Biomas em nome do desenvolvimento e autonomia econômica do país também incide sobre a qualidade de vida da população quilombola.

A população quilombola também se interessa que a Amazônia seja protegida e faz frente de resistência contra a instalação de monoculturas, pecuárias, hidrelétricas, extinção de espécies animais e vegetais. Conforme o IBGE, a Amazônia e a Amazônia Legal abrigam cerca de 1.500 comunidades quilombolas presentes em 249 municípios.

Contudo, o debate da justiça climática precisa acelerar a discussão da pauta racial, evidenciando a diversidade de povos que compõem e guardam os Biomas brasileiros, sobretudo a Amazônia.

Entretanto, não podemos falar sobre justiça climática e segurança alimentar, por exemplo, quando a população quilombola tem suas roças queimadas em incêndios criminosos e as sementes crioulas são afetadas pelo uso desenfreado de agrotóxicos na monocultura. Quando seus territórios são alagados por hidrelétricas, ou seus rios assoreados pelo desmatamento, enquanto a política pública de demarcação e titulação territorial não avança e é sucateada a cada dia mais. É preciso falar da  justiça climática a partir da diversidade de povos nos Biomas.


Sobre Maryellen Crisóstomo
: quilombola do território Baião, Sudeste do Tocantins, Jornalista graduada pela Universidade Federal do Tocantins, assessora de comunicação da COEQTO e coordenadora do Coletivo de Comunicação da CONAQ. 

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