“Carolina! Carolina Maria de Jesus, a comida minha filha!” Dia 14 de março, aniversário de Carolina Maria de Jesus. A escritora que saiu da periferia de Minas Gerais para a periferia de São Paulo, que desenhou e definiu Canindé com suas palavras, completaria 101 anos hoje.
Em sua homenagem, publicamos a entrevista da escritora e poeta Tula Pilar ao Nós, Mulheres da periferia.  Tula, do trabalho doméstico remunerado à poesia. Ela nos contou sobre sua experiência como empregada doméstica antes de se tornar poeta e, em uma apresentação feita na comemoração dos 4 anos do Blog Mural, em novembro de 2014, conta como sua história, trajetória e vivências se relacionam com a de Carolina.

Tula Pilar - Arquivo Pessoal

Tula Pilar em apresentação na Feira do Livro de Aires, em 2014 (Créditos: Lívia Lima)

Crédito: Lívia Lima


_______
“Já fui babá, copeira, arrumadeira, cuidei da casa, da comida e das crianças, assim, eu,  Tula Pilar Ferreira começo a contar minha trajetória e já adianto: não revelo minha idade.
Não deixe de ler: Trabalho doméstico (mal) remunerado: da casa grande aos apartamentos
Atualmente moro em Taboão da Serra, em São Paulo. Já tive patroa que me mandou embora porque as crianças se apegavam muito a mim ou quando a criança não queria ficar com a mãe e sim comigo, a babá.  Fui para o Rio de Janeiro e lá fui babá, tinha que viajar com os patrões e em uma das viagens conheci a Argentina e o Chile.
Era sempre assim, na maioria das vezes, morava no trabalho e era muito mais que ser babá, eu era mãe. Quando fui para o Rio cuidar da menina que tinha a mesma idade da minha filha, eu dava para ela amor de mãe. O que eu não podia dar para minha filha, eu dava para outra. Em uma das casas em  que trabalhei,  a menina ficava mais comigo do que com a mãe. Ela tinha crise de choro quando eu ia embora.
Um dia, eu encontrei uma das crianças que cuidei em uma festa e perguntei se ela se lembrava de mim. Ela disse: ‘Você é a Tula, minha babá?’ Ela ficou em transe e lembrou de muita coisa, das brincadeiras e de contar história. O meu momento de babá é o meu momento de mãe. E as crianças gostavam muito de mim.  ‘As crianças estão gostando muito dela’, pensavam as patroas. ‘Ao invés de agradecer, estão me mandando embora’, eu pensava.
Foi então que decidi e não quis mais ser babá.  A separação é difícil, ainda mais por conta dos que cuidei por último. Então parei por opção, não conseguia mais continuar esse tipo de trabalho e ouvir: “você é da família, você é nossa negrinha” ou “vai pra lá que agora não é pra você ficar aqui”. Essa é a valorização que a gente tinha enquanto empregada doméstica ou babá.
Como a gente está ganhando, eles falam que a gente é da família, mas eu sabia bem que era só um jeito de me manter lá. Eu nunca gostei dos presentes, de receber coisas velhas. Eu dizia:  “você quer me dar roupa velha no Natal?”, e eles diziam:  “você é muito petulante!”. Mas é assim a resposta quando você não aceita qualquer coisa. Eu briguei com todo mundo, mas eram brigas justas. Se eu trato as pessoas bem, então você quer o bem, mas a patroa não admitia, “você é a empregada, é a negrinha”. E eu não aceitava, porque eu me sentia uma pessoa. Eu peitava!  
Hoje sou poeta e há nove anos  sou integrante da equipe de vendedores da revista Ocas. Passei a ser responsável por meu horário e meus ganhos. Vendendo a revista nesse tempo todo na rua eu conheci artistas, atores, cantores e muita gente bacana. A gente vai se aproximando. Mostro meus poemas. Muitas vezes eu ganho ingressos para shows, convites para peças de teatro. Vou assistir de graça. Eu me alimento de tudo isso, cada dia mais.  Vou para os saraus da periferia de São Paulo e recito meus versos preferidos. Meus poemas foram publicados em um livro artesanal: “Palavras Inacadêmicas”. Já até conheci a África do Sul durante a Homeless World Cup (Copa Mundial Sem-Teto).
Hoje, quando recebo os aplausos  nas apresentações gostaria muito que as antigas patroas estivessem na plateia e vissem onde cheguei.”