No parto do João, e do Luis, eu não tive escolhas, ninguém havia me dito que eu poderia tomar posse do meu corpo e do meu parto, ninguém havia me dito que eu seria capaz de parir, ninguém havia me dito que os bebês, mesmo tão pequenos, sabem muito bem a hora que estão prontos para nascer, e que nos avisam quando esta santa hora está chegando, que o nosso corpo é sábio e age de maneira espontânea, que ele foi projetado por DEUS para isso!!!
Tudo era perigoso, os médicos sabiam muito mais que nós mulheres, e o que eles diziam era lei e ponto final. Ninguém contestava, e meu corpo já não me pertencia, a vontade dos médicos era a que prevalecia na hora mais importante da minha vida e da dos meus filhos também!
Assim, nasceu João Victor, dias 29/06/1996, num parto cesárea com 41 semanas, sem entrar em T.P (trabalho de parto).
Em 29/07/2002 nasceu Luis Eduardo de um parto cesárea, também sem entrar em T.P o argumento da médica, era “bom se você não entrou em T.P de parto do primeiro filho e precisou de uma cesárea, não vamos perder tempo e nem correr riscos, vamos marcar o “parto” para 29/07”. (quero deixar claro que mesmo não tendo sido a protagonista dos partos, ter meus filhos nos braços foi lindo demais)… Mas, uma coisa me intrigava…. Todas as mulheres que conhecia haviam tido cesáreas, todas, aparentemente necessárias… estranho, será que DEUS errou na produção das mulheres que nasceram no Brasil????
Então, após alguns anos e conversas com a Lú (Luciana Lourenço – Enfermeira Obstetra), fui descobrindo a verdade e a realidade dos partos no Brasil, e comecei a me apaixonar pela humanização do parto e partos domiciliares, aí brinquei com ela e perguntei se após duas cesáreas ela encarava meu parto domiciliar caso eu engravidasse novamente, e ela mais do que prontamente disse que sim, e começou a me formar sobre o assunto, com matérias, informações, experiências, relatos, livros… e muito bate papo…rsrs. Até que em março/2011 descobri que estava grávida.
A alegria foi imensa, conversei com meu esposo, e perguntei se ele estava disposto a me acompanhar nesta decisão de tentar o parto domiciliar (ele participou dos partos anteriores), só que desta vez seria bem diferente, eu seria a protagonista, eu iria lutar por um parto humanizado, e após duas cesáreas não iríamos conseguir apoio de ninguém… e foi dito e feito, começou aí a dura batalha de caminhar sem que médico nenhum nos apoiasse, e pra grande maioria das pessoas era uma verdadeira loucura. Mesmo assim eu estava decidida e ter o apoio da Lú e do meu esposo, pra mim já era suficiente.
Neste tempo, as frases mais comuns que ouvia eram “nossa você é louca” ou “nossa como você é corajosa”. Então minha resposta passou a ser “não sou louca, nem corajosa, sou MULHER!”

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Katia à espera da chegada do Joaquim


A D.P.P (Data Provável do Parto) era 16/11/2011, porém os pródromos começaram antes desta data, mas, mesmo assim, nada sério, dores completamente suportáveis que passavam quando eu tomava um banho quentinho e demorado e um Buscopan. E é claro que o tempo todo a Lú nos monitorava e nos orientava.
No dia 20/11, comecei a sentir as dores aumentando bastante e o tampão saiu, que maravilha, não imaginava que um dia eu seria capaz de pedir à DEUS que as dores aumentassem, e aumentaram mesmoooooo, além de serem com um tempo bem regular entre uma e outra, tudo o que mais queria e ter meu lindo filhote em meus braços, e eu sabia que aquelas dores eram boas e que trariam o Joaquim para mim. Por fim o dia amanheceu, e por volta das 9h da manhã as dores sumiram por completo, a Lú nos examinou e estava tudo bem o Kim estava firme e forte, e a dilatação estava em apenas um centímetro… então, aproveitamos que as dores haviam sumido e que estava tudo Ok conosco, fomos descansar, pois com certeza já estava próximo o tão esperado momento e iríamos precisar de toda a energia possível. Depois disso as dores eram fortes porém irregulares, e demoravam as vezes um intervalo de 1 hora entre uma e outra.
No dia 23/11/2011 por volta das 15 horas mais ou menos as dores começaram regular, e as 18h já estavam, de 15 em 15 minutos, liguei para a Lú e para a minha irmã que estava tão ansiosa quanto eu, por volta da 20h o intervalo já era de 10 em 10 e bem dolorida, mesmo assim estávamos todos em casa, comendo pizza e brincando, conforme a hora foi avançando as dores também foram, aproveitávamos o tempo, assistindo palestras do Pe. Fabio de Melo, rezamos o terço, jogamos conversa fora, o Nino (meu esposo) tentava dormir, porém cada dor que eu sentia, apertava tanto a mão dele que não tinha jeito de conseguir relaxar, e as 2 da manhã já estavam com intervalo de 3 minutos entre uma e outra, minha irmã fazia uma massagem maravilhosa nas minhas costas que ajudava muito a aliviar as dores, até que pedi para ir a banheira, pois as dores já estavam quase insuportáveis, então foram encher a banheira inflável que a Lú trouxe, o Nino foi esquentar água.
Quando a Lú liberou e eu pude entrar na água, foi maravilhoso como a água ajudou a aliviar as dores, fiquei lá, quietinha com o banheiro escuro, e a minha irmã do meu lado, a Lú entrava sempre para saber como estavam as coisas, nesta hora acho que meu esposo ficou ansioso, mas, se manteve tranquilo, só aparecia quando solicitado… até que umas 4:30 da manhã a Lú pediu que eu saísse da água para que ela me examinasse, relutei um pouco, não queria sair dali por nada…rsrs, mas fui obediente, quando a Lú me examinou e constatou que a dilatação havia progredido muito pouco apenas 2 centímetros, o Joaquim já estava super baixinho, ela já podia tocar a cabecinha dele, mas, alguma coisa não estava certa, e aí ela disse que se até as 7h da manhã, as coisas não evoluíssem, ela iria me transferir para a maternidade, fiquei triste, mas, ainda confiante de que meu corpo iria agir conforme a sua natureza.
Enfim, as 7h da manhã, ela me examinou e a dilatação estava em três centímetros, as dores já estava quase que emendadas uma na outra e havia mecônio. Já não dava mais para esperar em casa com a mesma segurança, o mais seguro era mesmo a transferência pra um hospital. Então fomos arrumar as malas, pois não estava nada pronto, e seguimos para um hospital…
O Kim nasceu 12:05 do dia 24/11/2011, de um parto cesárea, com apgar 9/10 e com a diferença de que ele avisou quando estava pronto para nascer, e desta vez a cesárea foi necessária, pois meu útero estava colado na bexiga e não havia a possibilidade de dilatação por não haver musculatura livre. A Lú foi perfeita, extremamente responsável, cuidou de tudo para que meu desejo de parir dentro de meu lar e ao lado da minha família pudesse acontecer, e quando viu que não seria possível, cuidou de tudo para que nossas vidas fossem preservadas e a alegria de ter meu filho em meus braços acontecesse de uma forma ou de outra!!!
Kátia, Nino e Joaquim

Katia, Nino e Joaquim


Minha irmã, foi linda, cuidou de mim como uma mãe cuida de um filho, chorou em silêncio no auge da madrugada, rezou e intercedeu junto à nossa Senhora.
E meu esposo foi perfeito, cuidou de mim, e me apoiou até o fim, mesmo quando eu tive medo, e já na mesa de cirurgia, ele  me olhou nos olhos e continuou acreditando que tudo iria dar certo.
Aos amigos que ficaram torcendo e intercedendo de longe, para que tudo desse certo!
E de maneira especial à Lú e o Deni (Marido da Lú), que hoje são os padrinhos do Kim, e nossos grandes amigos!!!
Gratidão à DEUS pela vida e amizade de todos vocês!
Ah!
Viveria tudo de novo!
Katia Cilene Souza, é doula e moradora do jardim São Francisco, zona sul da cidade de São Paulo. É mãe de três filhos, o João de 15 anos, o Luis de 9 e o Joaquim de 5 meses.